Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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FEITOS & DESFEITAS >

Mídia tem medo de checar números

Por Antonio Carlos Teixeira em 03/04/2007 na edição 427

Num país onde pessoas envolvidas em casos de corrupção se elegem para gozar do chamado ‘foro privilegiado’ e onde denúncias do arco-da-velha têm sido tratadas como ‘fatos normais’, a falta de profissionalismo de grande parte da mídia esportiva em relação ao suposto milésimo gol do atacante Romário, do Vasco, acaba se tornando algo menor, compreensível, na visão de muitos.


Ocorre que a mídia tem o compromisso com seu público e com códigos de ética (dos patrões e empregados) de publicar ‘somente a verdade’, sob pena de estar prestando um desserviço a um país cuja ordem jurídica e moral tem sido posta em dúvida rotineiramente. Pode parecer exagero fazer essas comparações, mas não é.


Salvo raras exceções, a mídia esportiva tem tido comportamento suspeito – e por que não dizer, antiético – ao fazer vista grossa às estatísticas ‘encomendadas’ pelo jogador Romário. Enquanto o jornalismo convencional (se é que o esporte tem outra forma de fazer jornalismo) convive com regra única, a de checar informações e dados para não levar notícia falsa ao público, o esportivo trabalha com os números fornecidos pelo atacante vascaíno.


‘Condescendente, frouxo’


A mídia não tem tido nem o trabalho de cozinhar a ‘estatística’. As investigações para se saber se as estatísticas estão corretas têm dado lugar ao asterisco. Bela forma para tirar o corpo fora, sem magoar o ídolo do momento! Ou alguém, em sã consciência, pode achar que a Globo vai perder a chance de faturar em cima da marca sonhada (ou plantada, sei lá) por Romário?


Entre as exceções na imprensa esportiva estão, por exemplo, a revista Placar e o colunista José Roberto Torero, da Folha de S. Paulo. Na coluna de quinta-feira (29/3), também publicada no seu blog, Torero classificou de ‘condescendentes, complacentes, frouxos’ aqueles que ‘aceitam’ a idéia de que o Baixinho está preste a fazer mil gols na carreira. Nas entrelinhas, o colunista mandou recado às editorias de Esporte de jornais, rádios e TVs, além de blogs esportivos.




‘Neste fim de semana, é bem provável que Romário marque um gol contra o Botafogo. Se isso acontecer, no domingo ele será o principal assunto de todas as mesas-redondas e terá reportagem especial no Fantástico. E, na segunda-feira, estará em todas as primeiras páginas dos jornais do país. E, na verdade, é isso o que é este gol mil de Romário: uma forma de chegar às manchetes, um ótimo trabalho de assessoria de imprensa. Todos gostamos de Romário, todos temos carinho e admiração por ele, mas daí a aceitar que ele está fazendo mil gols há uma grande distância. É ser muito condescendente, complacente, frouxo.’


Puxão de orelha


Pois Torero teve a coragem de denunciar mais uma farsa no futebol brasileiro, como se o Brasil precisasse ‘produzir’ um ídolo por dia para se sustentar mundialmente. Romário, como assinalou Torero, ‘merece uma homenagem mais verdadeira’. O colunista escreveu mais: ‘Essa história de ‘deixar ele contar os gols do jeito dele’ é um desrespeito com os amantes do futebol e com o próprio Romário.’


Em toda sua coluna, Torero tratou de ir colocando pingos nos ‘is’, uma espécie de puxão de orelha nos grandes, médios e pequenos meios de comunicação. Nesse episódio – é bom que se diga – poucos se salvam. O colunista da Folha, assim como qualquer brasileiro amante do futebol, quer a verdade sobre os supostos 1.000 gols de Romário.




‘Para driblar o problema de aceitar ou não os gols de Romário, alguns jornais usam asterisco ou dizem entre parênteses algo como ‘segundo suas contas’. Isso me parece pouca coisa. É preciso estabelecer um parâmetro e fazer a estatística certa.’ E continuou: ‘Por exemplo, é óbvio que contar os gols dos tempos de amador não vale. Nem gols contra amadores. Se for assim, o cantor Daniel também vai querer contar seus gols em jogos beneficentes, e Didi (o humorista, não o jogador) poderia contabilizar seus gols quando fazia shows pelo Brasil.’


Pois eu iria mais longe, Torero, a ponto de sugerir a certas editorias de Esporte que se mirem na cobertura das eleições feita pela área de Política de seu jornal, rádio ou TV. Vira e mexe, aparecem manchetes desmentindo declarações e números anunciados por candidatos em comícios e debates eleitorais, por exemplo.


Temor do desmentido


Sabe-se que os políticos, quando não têm argumentos, apelam para o que melhor sabem fazer: usar a retórica. E, nessa toada, danam a divulgar dados e números, até porque – sabem eles – o eleitor não anota nada mesmo. Mas os jornalistas que fazem cobertura política ficam de olho. Anotam tudo para, se preciso for, desmentir.


Pois a imprensa esportiva teve todas as oportunidades para pôr em dúvida a contagem ‘oficial’ de Romário e não o fez. E o que é pior: muitos jornalistas que hoje fecham os olhos para tais estatísticas vão carregar o temor de, amanhã ou depois, ter que desmentir os números noticiados hoje como verdadeiros, sempre acompanhados de asterisco, como lembrado por Torero.


Diante de tal comportamento da mídia esportiva, sugiro a políticos como Paulo Maluf e tantos outros denunciados por corrupção que mudem sua área de atuação. Pelo que se nota, o futebol pode ser o tão sonhado lugar de vida fácil para tais figuras da nossa política em razão da complacência com que temas polêmicos têm sido tratados pelos veículos esportivos.


Por ironia, Romário poderá marcar o suposto milésimo gol de sua carreira neste domingo, 1º de abril, contra o Botafogo, no Maracanã. Espera-se, ao menos, que a partida não seja de mentirinha. Mas, para que essa história mal-contada fique completa, nada melhor que um gol de pênalti, mal marcado, aos 46 minutos do segundo tempo. Afinal isso é nada perto dessa ‘polêmica boba’ de 100 gols a mais, 300 gols a menos… [Texto fechado às 22h21 de 29/3/2007]

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Jornalista, Brasília, DF

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