Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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FEITOS & DESFEITAS >

Mídia tenta salvar o que não tem mais salvação

21/04/2009 na edição 534

‘O que não tem conserto
Nem nunca terá!
O que não tem decência nem nunca terá!

O que não tem censura
Nem nunca terá!
O que não faz sentido…

E mesmo o padre eterno
Que nunca foi lá
Olhando aquele inferno
Vai abençoar!’ (Chico Buarque de Holanda)

‘(…) e no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico diminui o meu amor’ (Belchior)

Nenhum jornalão da mídia impressa teria a coragem de publicar um artigo deste gênero, com o conteúdo a seguir. Por que será que eles não fariam isso? A explicação é muito simples: todos eles são lacaios do sistema capitalista; são todos serviçais do mercado. Todos os telejornais a que eu tenho assistido, todos os jornais que eu tenho lido, só falam numa coisa – chega até a ser uma redundância: salvar o mercado. Este é como alguma pessoa que cometeu um pecado gravíssimo e os sacerdotes midiáticos estão fazendo de tudo para salvá-lo. Acontece que, assim como a salvação religiosa é uma ilusão, a salvação do mercado também é grande ilusão.

Caridade pública

O pior para nós é que se for para salvar esse monstro, vamos ter que condenar a humanidade como um todo. A mídia, com todo seu esforço para salvar o monstro kafkiano, está se auto-flagelando e flagelando toda humanidade. Não é à toa que na ‘semana santa’ católica vimos tanto auto-flagelo pela TV. A revolução não será televisionada, mas o sacrifício enquanto ideologia de resignação é televisionado a todo instante. Por sinal, eu não agüento mais ligar o rádio e a TV e ouvir e ver fanáticos religiosos veiculando suas mensagens opacas e opiantes. Há uma veiculação do nada, mas sobre uma perspectiva de construção humana, e uma saída para o capitalismo, este grande flagelo imposto aos trabalhadores, não há uma proposta de resolução.

O Fórum Econômico Mundial, na sua seção latino-americana, se reuniu no Rio de Janeiro, nesta semana, e pelo visto, o encontro parecia mais uma ‘Torre de Babel.’ Para começar, um dos convidados foi um grão-sacerdote do neoliberalismo, o ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso. Este é um defensor ortodoxo dos dogmas do mercado e estava ali justamente para defender a vida do deus mercado. O nosso ex-presidente estava ali como um Diógenes, com uma lanterna na mão, meio que a procurar: onde está o mercado, onde está o mercado? Do outro lado, o atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, como que uma voz ‘clamando no deserto’, cobrava por uma nova ordem mundial. Pelo que parece, eles ‘choveram no molhado’, discutindo o óbvio. Mas nesta parvoíce não se propôs nenhuma solução plausível para o imbróglio que o mundo está metido.

Eu não sei o que esse povo quer, discutindo coisas estéreis. A ordem do momento é: não raciocinai! Recentemente, fui convidado a colaborar na formulação de um projeto de políticas públicas para o governo da Bahia chamado ‘Terra de Valor’; depois mudou de nome para ‘Gente de Valor’. Para minha grande surpresa, o termo políticas públicas não poderia ser usado como referência ao projeto. O que ficava implícito e a nomenclatura que mais se adequava para este projeto era caridade pública, mesmo porque o projeto era financiado pelo Fida (Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola) e deveria seguir fidedignamente todos os ditames do Fundo.

O ‘moinho satânico’

Fui tentar fazer uma análise de conjuntura a partir de clássicos, como Sergio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Gaudêncio Frigotto, István Mészáros etc. e fui rechaçado veementemente. Falaram-me que ali não era espaço para se filosofar. A coisa tem que funcionar assim, ninguém pode blasfemar contra o deus mercado. Ai de um reles filósofo que se meta a querer refletir. Se preciso for, vamos nos sacrificar na tentativa em vão de salvar o deus mercado que está morto. Ah! O resultado da minha participação no tal projeto foi a minha demissão precoce, já no primeiro mês, simplesmente porque não concordei com a tecnoburocracia autoritária.

Há, nos governos, um misto de interesse de classe e hipocrisia caritativa. Os articulistas dos principais semanários também exaltam a pregação bajuladora de que o mercado, com os seus programas assistenciais do tipo ‘Criança Esperança’, poderá ajudar os pobres trabalhadores do Brasil. Façamos o que fizermos, o mercado nunca foi, não é, nem nunca pode ser o marco regulador das relações humanas sociais. Não, pelo menos, da humanidade social. Como diria Karl Polanyi apud Mészáros, 902:

‘Certamente, permitir que o mecanismo de mercado seja o único diretor do destino dos seres humanos e do seu ambiente natural, de fato até mesmo do volume e do uso do seu poder aquisitivo, resultaria na demolição da sociedade. A mercadoria chamada `força de trabalho´ não pode ser jogada de um lado para outro, não pode ser usada indiscriminadamente, nem mesmo deixada sem uso, sem também afetar o individuo humano que vem a ser o portador desta mercadoria peculiar. Ao dispor da força de trabalho de um homem, o sistema dispõe também da entidade física, psicológica e moral do `homem´ fixado àquele rótulo. Roubado da cobertura protetora das instituições culturais, os seres humanos pereceriam sob os efeitos da exposição social; morreriam como vítimas do agudo deslocamento social por meio do vício, perversão, crime e fome. A natureza seria reduzida a seus elementos, o ambiente que nos cerca e as paisagens seriam destruídos, rios poluídos, a segurança militar posta em risco, destruída a capacidade de produzir alimentos e matérias-primas. Finalmente, a administração do poder aquisitivo pelo mercado predominante liquidaria empreendimentos empresariais, pois a escassez e a sobra de dinheiro provariam ser tão desastrosa para os negócios quanto as inundações e secas na sociedade primitiva. Evidentemente, o trabalho, terra e mercado de moedas são essenciais a uma economia de mercado. Mas nenhuma sociedade poderia resistir aos efeitos de um tal sistema de ficções cruas, mesmo por um período muito curto de tempo, a menos que sua substancia natural e humana, como também sua organização empresarial, fossem protegidas contra as devastações deste moinho satânico.’

A animalização do homem

Concluindo, fazer a defesa de um sistema troglodita destes, que mantém mais de um bilhão de pessoas no mundo abaixo da linha da pobreza, sem a mínima soberania alimentar, sem saúde, educação e cultura, lazer, moradia etc. Em suma: numa condição de desumanidade total. Defender toda esta barbárie, é, no mínimo irracional. O jornalista Joelmir Beting, num de seus editoriais do Jornal da Band, exalta a esmola dada pelo governo estadunidense a Cuba. Beting afirma com muita empáfia que a economia cubana está agonizando.

Penso que o nosso ilustre jornalista nunca desembarcou no aeroporto de Havana e se desembarcou, não leu a fachada ao lado: ‘Neste momento, milhões de crianças estão morrendo de fome em todo o mundo; em Cuba não tem nenhuma.’ Esta proposição poderá até ser retórica do Fidel, mas não se justifica uma crítica ao líder cubano usando como antítese um sistema reprodutivo orientado para a expansão e dirigido para a acumulação, mergulhado numa crise cada vez mais profunda que não apenas escravizou a humanidade em seu ‘moinho satânico’, como ainda ameaça diretamente a sua destruição.

A mídia é livre, mas não significa que a sua liberdade se traduza em irracionalidade, no uso para defender as incongruências do capital. Até pode fazer, mas que esteja aberta às críticas. No caso específico desta mídia, está defendendo o capital, ela age de uma forma irracional. Podemos, devemos e precisamos ser livres, termos uma mídia livre. Esta é uma prerrogativa de Maquiavel propositada no livro XXV de O Príncipe, mas é uma condition sine qua non lutarmos por e termos justiça. Não tem como concebermos uma liberdade diante de injustiças. Este tipo de liberdade é uma falácia. A liberdade que os sacerdotes do mercado almejam é justamente a liberdade de praticar a injustiça e a exploração ao ser humano, com toda irresponsabilidade e sem o mínimo de controle – o laissez faire.

Nesta parafernália, já não sabemos o que mata mais, se é o trânsito, a fome, a guerra, as chacinas nas periferias das grandes cidades, a violência no campo ou se é a nossa pusilanimidade em enfrentar e confrontar a tragédia; parece até a tragédia grega, a mais profunda melancolia, a música brega, o religioso fundamentalista e os medíocres atores de comédia estão com suas agendas cheias, todos veiculando o besteirol; os enlatados de Hollywood veiculam a naturalização da violência e a animalização do homem; se aparece alguém querendo mudar vem logo a ordem de cima: peguem esse idiota e enterrem.

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Filósofo e educador

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