Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > COMUNICAÇÃO & SOCIEDADE

Mídia e ser humano, juntos até que a morte os separe

Por Selma Rizzetto Tronco em 17/06/2008 na edição 490

Acorda. Liga o rádio ao tomar banho. Desliga. Liga a TV enquanto toma café. Desliga. Liga o rádio ao entrar no carro rumo ao trabalho. Desliga. Chega, liga, sai, desliga. Só que mesmo assim não nos desligamos. É inevitável não espiar as manchetes dos jornais nas bancas, ver o que está passando na TV do bar, entrar rápido na internet para ler as últimas notícias de um portal. Portanto, na teoria até podemos nos desconectar da mídia, mas na prática isso é difícil.

Notícias e mais notícias disputam espaço e a atenção de um público ávido por saber os últimos acontecimentos terráqueos. ‘O mundo em um minuto’ ou as manchetes dos telejornais oferecem um resumo das informações do noticiário para quem deseja saber de tudo em pouco tempo. Em meio a essa antítese protagonizada pelo ‘muito’ do volume de informações em contraposição a uma ‘pequena’ fração de minutos ou segundos, ampara-se uma grande parte da estrutura midiática com a qual convivemos diariamente.

Os limites desse cenário parecem não existir ou, quando presentes, são facilmente quebrados por uma notícia extraordinária que interrompe um filme. Se não estivermos muito atentos, não saberemos se as imagens são de um filme (entretenimento) ou da vida real (realidade que muitas vezes beira o entretenimento). Um provocante exemplo de como essas esferas se entremeiam é observado na aproximação entre real e ficção que ocorre no livro O último leitor, do mexicano David Toscana. O desfecho da morte de uma garota na vida real já estava traçado em um livro de ‘ficção’.

Vicissitudes do dia-a-dia

A questão das Mídias sem limite, título do livro do sociólogo estadunidense Todd Gitlin, evidencia que o assunto rende muitas discussões. Um bom exemplo de como a televisão nos mobiliza é constatado quando muita gente pára imediatamente o que está fazendo ao escutar a música do plantão da Rede Globo. Receber uma informação em ‘primeira mão’, mesmo que esse ineditismo esteja presente na vida de milhões de pessoas e não seja exclusivo de um ser, é algo atraente.

Estamos imersos em uma torrente de sons e imagens. Esse conceito, desenvolvido por Gitlin, revela a imensidão de informações que invadem as diferentes mídias 24 horas por dia. Não há pausa ou descanso. Durante nossas madrugadas, as Bolsas de Valores do outro lado do mundo estão operando e nossos acionistas já se devem levantar conectados a alguma mídia que forneça dados atualizados sobre as movimentações financeiras.

Além dessa situação mais evidente em que a mídia funciona como mais um instrumento de trabalho profissional, ela também atua em outras frentes de sentidos. A sensação de simplesmente estar conectado, de participar de uma transmissão de jornal, de forma passiva ou ativa, enviando vídeos e fotos para o veículo de comunicação, faz reafirmar a condição de estarmos vivos, atualizados, equipados com informações de todos os cantos do universo.

A existência das mídias também contribui para o preenchimento de algo que parece estar carente de sentimentos expressivos. Um ego que, corroído pelas vicissitudes do dia-a-dia, não se sente completo e que, para amenizar essa situação de buscas incansáveis e intermináveis do ser humano, recebe através da mídia um conteúdo que o satisfaça pelo menos por alguns momentos.

Simbiose midiática

E de que espécie seria esse conteúdo? Muitas variações se encontram presentes nessa questão, porém quando o universo pesquisado trata de crianças ocorre uma distinção importante. Discernir que tipo de programa está passando na TV parece ser uma tarefa árdua para quem ainda não coloca em prática esse verbo com clareza. Essa situação pode ser evidenciada pelo seguinte exemplo: em um documentário da BBC, exibido em 2008 pelo canal GNT, intitulado ‘A TV é uma boa babá eletrônica?’, vemos crianças ‘hipnotizadas’ ao assistirem televisão. Quando os produtores perguntam o que elas estão vendo obtêm respostas como ‘não sei…’, seguidas por um sorriso e um olhar ligeiro de volta ao aparelho.

Promessas de conteúdos personalizados, transmitidos de diversas formas, também começaram a invadir as mídias brasileiras. Em maio deste ano, o portal UOL lançou ‘o novo site UOL Notícias’. O site traz diferentes possibilidades para acompanhar os últimos acontecimentos, como através de e-mail, podcasts, mensagens de texto via celular, clipping de notícias e rss. A seleção de assuntos do interesse de cada um também é aventada.

Apesar disso, Gitlin defende a idéia de que ‘nosso negócio principal não é informação, mas satisfação […]’. Cenas de programas ou mesmo propagandas que evocam o humor e o erotismo são recebidas com prazer pelo público durante um conteúdo de caráter informativo.

De segunda a sexta-feira, às 6h da manhã, na rádio BandNews, muitas vezes quem abre o jornal não é uma notícia ou a voz do locutor, mas sim um cacarejar de um galo, apelidado de ‘galinho’ que, inevitavelmente, suscita risos nos ouvintes por suas inesperadas participações durante o programa. Agora o personagem tem até comunidade no Orkut, o que não deixa também de evidenciar uma simbiose midiática.

Sensação de saber e superioridade

Ainda utilizando esse jornal apresentado pelo radialista Luiz Megale como exemplo, destacamos outro papel das mídias, o de solidariedade. Diariamente, ele junta-se aos ouvintes, repórteres e funcionários da rádio que ‘acordam com os galos e as minhocas’, ou seja, bem cedo. O pronome pessoal ‘nós’ é usado com freqüência nas transmissões e com isso partilha-se uma condição comum. A sensação de estar inserido num grupo nos conforta um pouco perante a situação de termos que acordar muito cedo para trabalhar, estudar ou cumprir diversas tarefas. A única coisa que devemos fazer para receber esse afago é ligar o rádio.

Com apenas um toque também podemos mudar de estado de espírito. Em um mundo cheio de regras e limitações, onde muitos se situam na condição de subordinados, ou seja, sem um poder de mando efetivo, controlamos as mídias com botões que nos aproximam do que gostaríamos de poder fazer cotidianamente.

A TV é capaz de nos proporcionar uma idéia de real ideal. Se você cansou de ver um cara em um filme, zapeie e se depare com uma bela mulher em segundos. No dia-a-dia de trabalho seria algo como: desapareça da frente do seu chefe no escritório e vá se encontrar com aquela garota que sempre sonhou em um passe de mágica.

Essa idéia de satisfação x informação também aparece claramente quando nos deparamos com flashs de notícias nos mais diversos ambientes, como dentro de elevadores. Afinal, ao subir alguns andares de um prédio e saber que a ‘Petrobrás vai investir na exploração de petróleo na camada pré-sal’ não deixa de ser algo superficial e que depois de pouco tempo provavelmente será esquecido. Apesar disso, se alguém falar sobre esse assunto não perdemos a oportunidade de dizer: ‘Ah sim, eu sei, li algo a respeito’. Uma sensação momentânea de saber e superioridade tomará conta de nossa mente e proporcionará gotas de prazer. Mesmo que esse instante se desvaneça em segundos, ele existiu e nos torna um ser contemporâneo e atualizado.

Intersecção com o comércio

Todd Gitlin também apresenta em seu livro uma pesquisa de 1999 que classificou 42% dos lares estadunidenses como ‘moradias com televisão constante’, ou seja, a televisão fica ligada, mesmo sem ninguém vendo, a maior parte do tempo. Não raro, observa-se esse fenômeno atualmente em casas brasileiras, onde visitas a parentes nos finais de semana são acompanhadas pelo burburinho da TV ligada. O seu campo de visão também pode compreender o seguinte cenário: à direita um tio, à esquerda um primo e à frente a apresentadora Angélica.

Uma televisão ligada é capaz de disfarçar a sensação de estar só ou de vazio, mesmo quando há um grupo. Caso aconteça uma pausa numa conversa, pelos mais diversos motivos, não haverá silêncio. Essa palavra é automaticamente abolida quando a TV está em pleno funcionamento.

O aparelho também é companhia certa para um solitário taxista que, ao esperar passageiros num ponto em São Paulo, mantinha um pequeno televisor ligado. Não importa se ele nem assistia ao programa de fofocas vespertino, o que interessa é que alguém falava com ele. Além disso, se algo muito inusitado acontecesse, ele seria um dos primeiros a saber do ocorrido.

Essa avalanche de imagens e sons se expande para vários âmbitos de nossas vidas e não se restringe apenas àqueles momentos em que vemos TV ou lemos revistas. Somos tomados por uma grande profusão de produtos relacionados a programas ou modas, incitados pela mídia. Não é difícil deparar com objetos como cadernos, salgadinhos, mochilas e todo um vestuário com a marca de algum filme ou que lembra os usados pelos atores da telenovela. Esse fenômeno ressalta a intersecção existente entre mídia e comércio que se configura como uma das engrenagens que move o sistema capitalista.

‘Respeite os demais usuários’

Tudo mais rápido e sem profundidade: outra característica do capitalismo que também resvala no campo das informações e entretenimento que recebemos. Até pela falta de tempo que acompanha a população no dia-a-dia, há aqueles que assinam publicações que vão, de forma geral, ao encontro de idéias já estabelecidas e classificadas como corretas. As mídias têm o poder de reafirmar idéias, mostrando ao indivíduo que seus pensamentos com certeza se enquadram dentro da sociedade.

Todd Gitlin, ainda em seu livro Mídias sem limite, também aborda o tema da atração exercida pelos meios de comunicação. As mídias são atraentes porque prometem conhecimento e também uma excitação mental. Afinal, quem não se fixa no desfecho de um filme ou experimenta sensações que variam entre prazer, repulsa e espanto em um programa de variedades?

Diferentes estados mentais que, após a disseminação de aparelhos sonoros portáteis e um maior índice de alfabetização, passaram a existir nos mais variados momentos e locais da vida. As pessoas compram uma revista de viagem e pensam: como seria estar em tal lugar? Lêem um romance e se envolvem tanto na história que o tempo parece voar, assim como a imaginação. Escutam uma música e relembram bons momentos. Essa característica de transportar mentalmente as pessoas para outra realidade funciona como mais um atrativo que conecta as pessoas a algum meio de comunicação.

O único detalhe é que as fronteiras entre a esfera pública e a individualidade de cada um se misturam constantemente. Durante a programação dos monitores LCD instalados em trens do metrô de São Paulo já existe o seguinte alerta: ‘Abaixe o volume de sua música. Respeite os demais usuários’. Apesar disso, esse é apenas mais um lugar onde, querendo ou não, somos obrigados a escutar sons alheios à nossa vontade, assim como em salas de espera ou locais que possuem uma televisão ligada sem que possamos interferir no volume ou no canal.

Análises presentes e futuras

Atualmente, para suprir a necessidade de estar conectado constantemente, há carros que já possuem, além de rádio, televisores. Essa modernidade também pode ser prejudicial a partir do momento em que há a possibilidade de ocorrerem conseqüências graves. Caso o motorista se distraia muito, o prazer da modernidade pode se reverter na causa de uma tragicidade.

Ainda assim, mesmo com tanta informação circulante, nota-se a presença de algumas lacunas que, se preenchidas, poderiam ajudar em uma melhor compreensão das diferenças humanas. Por exemplo, em um documentário exibido por um canal de televisão a cabo em maio de 2008, uma índia xerente (tribo indígena que habita o centro do Tocantins) fala sobre o preconceito que enfrentou ao cursar Filosofia em uma faculdade. Pelo fato de ser índia, era considerada menos inteligente do que os demais.

Essa deterioração mental que faz parte da população brasileira estigmatizar uma pessoa autóctone e, muitas vezes, glorificar comportamentos e artistas de outros países classificados como desenvolvidos, é algo excruciante. Com certeza, a falta de divulgação de informações e da própria cultura indígena pela mídia contribui para a existência desse cenário. Não há muitas formas de escapar da torrente cultural emergente dos EUA, mas há alternativas. O documentário citado já é um exemplo.

Essa torrente imensurável de imagens e sons que invade nossa realidade é louvável e fruto dos avanços tecnológicos disseminados pela humanidade. Esse panorama prevê uma era em que o homem sucumbirá a tantas informações e sua mente entrará em colapso. Ainda é cedo para julgar qual das duas sentenças anteriores está correta. Ambas contêm elementos que se encaixam em análises presentes e futuras da mídia. Inverter o subtítulo do livro de Gitlin para ‘como dominamos a torrente de imagens e sons em nossas vidas’ contribuirá para que o casamento entre a mídia e o ser humano seja duradouro e gratificante para ambas as partes. Do contrário, um divórcio forçado poderá criar sérios obstáculos entre nossas vidas e a forma com que lidamos com os meios de comunicação.

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Estudante de Jornalismo da UniFiamFaam, São Paulo, SP

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