Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ENTRE ASPAS > TANURE & VARIG

Milton Coelho da Graça

18/10/2005 na edição 351

‘O sr. Nelson Tanure reduziu o tempo dedicado ao comando do seu mini-império de comunicação. Amigos seus revelam que ele está concentrado na busca do controle da Varig, mais intensamente do que tentou anteriormente nos casos da Embratel e da Eletronorte.

******

Publicidade a serviço de quem paga

O governo federal e empresas estatais gastaram com publicidade, em 2004, R$ 971,8 milhões, mais de quatro vezes o investido por toda a indústria automobilística. Mas, enquanto qualquer empresa aberta tem de explicar a seus acionistas como, com quem, quanto e por que gastou com publicidade, o governo (e não apenas o atual mas todos) recusa-se sistematicamente a dar explicações detalhadas.

Sem qualquer dúvida, a publicidade – pelo menos a da administração direta – deveria ser considerada como forma de informação e/ou educação, de interesse para toda a cidadania, e não promoção, freqüentemente mentirosa, de ações do governo. Que tal o Congresso determinar, a partir de 2007 (para não ser interpretada como casuísmo), a administração independente e pluripartidária das verbas publicitárias, o que garantiria o bom uso dessa dinheirama e sem intermediação dos Marcos Valérios da vida?

******

Pizza brotinho com molho de pimenta

A pizza brotinho que encerrou as representações contra os deputados Rodrigo Maia (PFL) e Paulo Pimenta (PT-RS) na Comissão de Sindicância da Câmara foi uma amostra das outras tamanho família, que seriam saboreadas pela rapaziada do mensalão e adjacências, sem a vigilância da imprensa, do Ministério Público e, principalmente, da opinião pública.

Participei na semana passada de um debate organizado pela ONG Voto Consciente, no Rio, com o senador Saturnino Braga e os deputados Chico Alencar, Eduardo Paes e Laura Carneiro. Em certo momento, um deles levantou a possibilidade de que alguns acusados pela CPI do mensalão possam escapar da cassação. As 150 pessoas presentes produziram também uma pequena amostra da reação que isso provocaria na sociedade brasileira.

******

Vale a pena recordar essas lindas frases

A Folha de São Paulo publicou há quase dois meses (14/8, página A-12) ‘as piores desculpas do mensalão’. E é bom a gente não esquecê-las nesta reta final, em que se anunciam tantas renúncias.

Assessor cearense do irmão de José Genoíno, explicando dólares na cueca:

‘O dinheiro veio de verduras vendidas na Ceagesp, pois sou agricultor’.

Do deputado Paulo Rocha, sobre saques de R$ 470 mil feitos por uma assessora:

‘A Anita foi uma vez ao prédio do shopping para realizar exames numa clínica’.

Do prof. Luizinho, sobre a ida da mulher de João Paulo Cunha ao prédio da agência do Banco Rural:

‘A Márcia esteve no Rural para resolver um problema na TV a cabo’.

De Marcos Valério, sobre seus grandes saques em dinheiro no Rural:

‘Tenho fazendas, compro animais. Lido com gado. Há fazendeiros que simplesmente não aceitam cheque.’’



DIRETÓRIO ACADÊMICO
Carlos Chaparro

‘Jornalismo nas fontes – avanço e perigos’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 14/10/05

‘O XIS DA QUESTÃO – Para preservar a confiabilidade do jornalismo como processo e linguagem, é preciso que os jornalistas se comportem como tal, qualquer que seja o lugar ou a instância em que atuem. Quem está nas redações, que faça aflorar os conflitos que interessam à construção da democracia. Quem atua nas fontes, que assuma responsabilidades de interface honesta e criativa entre quem produz os fatos e quem, pelo relato e pelo comentário, lhes deve dar dimensão e significação social.

1. Fontes na telinha

Como contribuição à discussão que vem sendo travada, proponho um desdobramento de reflexões em torno de um momento de aprendizado em que recentemente estive envolvido:

A experiência aconteceu em sala de aula, dois meses atrás. Eu e um grupo de alunos de pós-graduação resolvemos assistir ao Jornal da Band, para uma ‘desconstrução’ crítica do noticiário apresentado pelo ótimo Carlos Nascimento. Uma das questões organizadoras da análise foi a seguinte: ‘Das matérias apresentadas, havia alguma em que não fosse perceptível a participação decisiva de fontes organizadas?’ A resposta a que se chegou: Não!

Por trás da totalidade do noticiário daquela noite havia instituições que, na qualidade de fontes, recheavam de conteúdos o melhor telejornal brasileiro. Na origem das notícias estavam empresas, partidos, governos, parlamentos, ONGs, universidades, escolas, órgãos técnicos, sindicatos, clubes, associações de vários tipos. Representadas por pessoas com desempenho claramente profissional, as instituições-fonte ocupavam espaço próprio no noticiário e, por decorrência, espaço próprio no mundo, perante o qual assumiam importância de protagonistas dos acontecimentos e das polêmicas do dia.

Somente isso? Que nada! Mais do que fontes jornalísticas dando recheio informativo e explicativo às reportagens, as instituições protagonistas do noticiário eram sujeitos sociais em plena atuação. Com razões próprias, legitimadas pela notícia, se inseriam nos conflitos da atualidade que continuamente reelaboram o presente, nos jogos da cultura e da democracia. Jogos dos quais o jornalismo se tornou parte essencial, como linguagem narradora confiável.

Acaso essa participação competente das fontes prejudicou a qualidade do telejornal, naquela noite? Claro que não. Ao contrário: foi uma bela edição do Jornal da Band, com Carlos Nascimento fazendo muito bem o seu trabalho de narrador crítico e independente das brigas da vida e do mundo, com poder de decisão sobre o quê e como noticiar.

Por trás do sucesso de Carlos Nascimento, dando suporte ao brilhantismo e à confiabilidade do apresentador, estava uma equipe de pauteiros, produtores, repórteres e editores – escolhidos a dedo, por sua competência. Para chegar ao sucesso final da apresentação do telejornal, naquela como em todas as noites, a equipe de Carlos Nascimento interagiu intensamente, durante horas, como a interface jornalística (assessoria de imprensa) das instituições protagonistas do noticiário. Quem faz ou já fez telejornalismo sabe que é assim. E porque não há boa notícia sem boa fonte (sábio aforismo, tão velho quanto o próprio jornalismo), não há como negar que parte do sucesso do telejornal pertence às instituições geradoras de conteúdos que o rechearam.

2. Sociedade falante

Me interesso, profissional e academicamente, pela questão da assessoria de imprensa não por causa da atividade em si, mas por estar convencido, desde que me conheço como jornalista, de que a cultura jornalística acolhe e acoberta uma grave besteira, ao desmerecer a importância das fontes nos processos jornalísticos. Nos manuais e dicionários do jornalismo, o termo fonte recebe tratamento de verbete secundário. Além de coisa sem importância, a fonte ainda por cima é tida e apresentada como lado suspeito. Daí, essa aberração arrogante que persiste por aí, de se acreditar que nas redações estão todos os santos e que nas fontes (ou assessorias de imprensa), todos os pecadores.

Não é bem assim, e todos sabemos disso. Mas aí está o preconceito que dá viés moralista às discussões, não na polêmica em torno das fronteiras sindicais da corporação. Como se trata de uma cretinice, nem vale a pena discutir tal preconceito.

A questão essencial é outra, a de saber se continua sustentável a crença de que às redações tradicionais pertence ou deve pertencer o controle do jornalismo, na sua dinâmica de processo e linguagem.

Os mitos que organizam as velhas ‘verdades’ da cultura jornalística dizem que sim senhor, que nas redações estão as fronteiras que delimitam e protegem o verdadeiro jornalismo.

A fisionomia real dos circuitos da notícia, entretanto, diz que não. A notícia corre por aí, solta, em blogs e sites de alcance universal. E se multiplica sem controle pelas redes de informação, das quais as mídias tradicionais apenas fazem parte.

Se nos cenários atuais da notícia há um poder que se consolidou, esse é o poder das fontes. A análise comparativa de jornais e telejornais confirma isso, diariamente. O noticiário preponderante é o mesmo, em jornais e telejornais. Com freqüência que irrita, até manchetes se repetem, na essência e na forma.

Como seria absurdo acreditar que a mesmice do noticiário resulta de acordos entre editores concorrentes, temos de admitir que vivemos tempos novos, com noticiários pautados pelos que, legitimados pela própria regra democrática, e em função dela, geram e controlam os fatos conflitantes da atualidade. Ou seja, as fontes organizadas.

Para a democracia, isso é bom. Como gosto de repetir, é preferível uma sociedade em que os grupos organizados possam exercer o direito discursivo de dizer, a uma sociedade onde apenas os jornalistas das redações tradicionais falem.

Mas a nova fisionomia da notícia pode, sim, representar um perigo para a linguagem jornalística, e para o processo jornalismo, na medida em que o vigor dos discursos particulares pode fraudar os compromissos com a veracidade e os balizamentos éticos que a sociedade exige do jornalismo. Compromissos e balizamentos que interessam às próprias instituições-fonte.

3. Experiência brasileira, um avanço

Para defender e preservar a confiabilidade do jornalismo – como processo e linguagem – é preciso que os próprios jornalistas se comportem como tal, qualquer que seja o lugar ou a instância em que atuem.

Quem está nas redações, que não se limite à reprodução dos que as fontes dizem e fazem, mas que, sem a destruição dos discursos particulares, faça aflorar os conflitos que interessam à construção da democracia. Quem atua nas fontes, que assuma o seu papel e a sua responsabilidade de interface honesta e criativa entre quem produz os fatos e quem os deve relatar e comentar para a sociedade.

Por isso, considero avanço importante, não retrocesso, o fato de haver jornalistas atuando nas fontes, e como jornalistas sendo reconhecidos. Eles podem impor razões jornalísticas à socialização dos discursos institucionais – e é bom lembrar que, nestes tempos novos, o acontecimento vale pela significação discursiva, não pela materialidade dos fatos. É essa significação que dá sentido e valor à notícia.

Assim como o advogado empregado em organizações, o jornalista que atua na fonte deve ser um educador da instituição. E isso me sustenta a convicção de que a experiência brasileira de assessoria de imprensa feita por jornalistas constitui um benefício para o jornalismo. Não um prejuízo.

******

Por falar em advogado, profissão tantas vezes lembrada como exemplo de que ‘coisas diferentes não se misturam’ (advogado é advogado, juiz é juiz, promotor é promotor, argumenta o colega Delmar Marques), considero importante lembrar que, para se chegar a juiz ou promotor, há que preencher o pré-requisito de ser advogado.

Na verdade, juizes, promotores e advogados são operadores do Direito, com prerrogativas que eliminam a possibilidade de qualquer hierarquia entre eles. E porque nenhum deles vive sem os outros, do conflito entre as funções resulta a harmonia da Justiça.

Assim, ao contrário do que Delmar pensa e propõe, quem sabe temos aí uma ótima analogia a fazer, para organizar relações entre jornalistas assessores de imprensa e jornalistas das redações. Que tal, se os entendêssemos, e se eles próprios se entendessem, como operadores do Jornalismo, atuando em campos diferentes, mas em função de um objetivo maior, comum, o da confiabilidade da informação, da análise e da elucidação jornalística?’



CINEMA & JORNALISMO
Antonio Brasil

‘Aula de jornalismo no cinema’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 14/10/05

‘O que seria da democracia sem o jornalismo? E o que seria da ‘vida’ sem o cinema e a TV? Mas Hollywood nem sempre teve uma boa relação com a imprensa e muito menos com a televisão. Nos últimos anos, o jornalista deixou de ser herói para ser retratado como vilão e a TV é culpada por todos os males da sociedade moderna. Mas para o cinema americano existem jornalistas e jornalistas. Aqueles que trabalham para os jornais ainda merecem um certo ‘respeito’. Mas quando um profissional da imprensa comete a heresia maior de trabalhar para TV, os produtores americanos não perdoam. De heróis ou vilões passam a ser simplesmente retratados como malucos, insensíveis, ambiciosos e, muitas vezes, ridículos.

Temos diversos exemplos em filmes como:

Rede de Intrigas (Network, 1976), com direção de Sidney Lumet, mostra o dramático fim da carreira de um importante âncora da TV americana.

O Âncora: a lenda de Ron Burgundy (Anchorman: The Legend of Ron Burgundy, 2004), uma comédia sobre um âncora de TV dos anos 1970 confrontado por uma colega ambiciosa.

Sonho sem limites, (To Die For, 1994), dirigido por Gus Van Sant com Nicole Kidman, uma garota do tempo que faz de tudo para ser tornar uma estrela do jornalismo de TV.

Nos bastidores da notícia, (Broadcast News, 1987) filme que mostra o competitivo mundo dos bastidores da TV a cabo dos EUA, habitado por jornalistas ambiciosos e prontos para tudo. Dirigido por James L Brooks.

Um Amor de Professora, (Teacher’s Pet, 1958) – Um dos meus favoritos! Um editor de jornal que acredita que a melhor escola é a própria vida envia uma carta ríspida a uma professora, sem saber que ela é uma mulher. Obrigado a pedir desculpas por seu chefe, ele acaba se apaixonando por ela. Com Clark Gable e Doris Day. Recebeu duas indicações ao Oscar.

* Produções ainda mais recentes ‘massacraram’ o jornalismo como O preço de uma verdade (Shattered Glass, 2003) – a história de um jornalista que inventava grande parte de suas matérias – e denunciaram o poder da TV de enganar o público como em Mera Coincidência, (Wag the Dog, 1997), com Robert de Niro e Dustin Hoffman sobre o poder da TV para criar notícias falsas e provocar guerras.

God Night and Good Luck

Esta semana, no entanto, pude assistir ao lançamento de um novo filme que procura fazer um pouco mais de justiça aos jornalistas de TV. Mas procura resgatar a importância de um meio de comunicação poderoso, ainda na sua infância, e mudar a história de um país.

Trata-se de Good Night and Good Luck, (Boa Noite e Boa sorte), ver aqui, dirigido por George Clooney sobre a luta de Edward R. Murrow, provavelmente um dos jornalistas mais respeitados nos EUA, contra o macartismo nos anos 50 – um período de caça às bruxas ou comunistas muito parecido com os dias de hoje com a guerra contra os terroristas. Na abertura do Festival de Cinema de Nova Iorque, o diretor George Clooney fez questão de destacar a importância do jornalismo para enfrentar as novas ameaças à democracia: ‘no passado, alguns jornalistas ousaram enfrentar os poderosos e dizer a verdade’. Ele conhece bem o jornalismo e o poder da TV. O filme também não deixa de ser uma homenagem pessoal. O pai de Clooney também foi um ‘âncora’ de uma pequena estação de TV nos EUA.

Porém, mais importante do que retratar Edward Murrow, a ‘primeira estrela’ do jornalismo americano, pai dos futuros âncoras, jornalista-herói que cobriu quase sozinho com o bombardeio de Londres na Segunda Guerra Mundial, o filme na verdade mostra como era ‘emocionante’ trabalhar nos primeiros anos de um novo meio de comunicação, a TV. Naquela época, todos os profissionais de jornalismo da CBS eram oriundos do rádio. A TV estava sendo ‘inventada’. Entre erros e acertos, os jornalistas ‘experimentavam’ com o poder do novo meio.

Não pude deixar de comparar esses tempos pioneiros com os desafios da Internet. A TV também já foi um meio revolucionário e criativo. Hoje, assim como no passado, todos os jornalistas que estão insatisfeitos com o marasmo e os limites impostos pela mídia tradicional migram para a rede. Eles também procuram a oportunidade de criar novas linguagens e experimentar o poder de um novo meio. Nos começo dos anos 50, nos tempos de Edward Murrow, os jornalistas da CBS migravam do rádio para a TV em busca de novos desafios.

Good Night and Good Luck não é mais um filme sobre um jornalista americano no papel de mocinho ou herói em defesa da sociedade lutando contra um o vilão, um político inescrupuloso disposto a tudo. Muitos outros filmes já retrataram o jornalista como herói com muito mais sucesso.

Jornalista super-homem

Aqui entre nós, recomendo um dos filmes menos conhecidos sobre jornalistas, A Hora da Vingança (Deadline USA, 1952) ,com Humphrey Bogart no papel de um editor ameaçado de morte por um gangster e lutando para evitar o fim do seu jornal. É a visão clássica de Hollywood de um jornalista boêmio, herói solitário e defensor intransigente dos objetivos mais dignos da profissão. O discurso final sobre a importância da imprensa na defesa dos seus leitores e da democracia é simplesmente emocionante. ‘Este é o poder da imprensa. E não há nada que possa fazer contra isso’. Uma verdadeira aula de jornalismo.

Esse é o tema central dessa coluna. Além de recomendar bons filmes sobre jornalistas ou sobre a TV, também deveríamos buscar formas criativas de ensinar jornalismo. Além dos livros, textos e longos discursos, há filmes excelentes disponíveis em locadoras ou cinematecas que retratam os desafios da nossa profissão. Creio que todos os jornalistas que gostam de cinema têm listas pessoais com os melhores filmes que tratam do tema. Alguns são clássicos como Cidadão Kane, Todos os homens do presidente (All the President´s Men, 1976), Última hora (The Front Page, 1931), Os gritos do silêncio (The Killing Fields, 1984), O informante (The Insider, 1999) e A montanha dos sete abutres (Ace in the Hole, 1951). Nesses filmes, Hollywood alterna uma visão meio maniqueísta do jornalista como herói ou vilão. Mas também comete alguns exageros. O repórter do Daily News Clark Kent era um verdadeiro Super-Homem (Superman, 1978).

Murrow e Chatô

Esta semana convidei os meus alunos de jornalismo a irem ao cinema. Em vez de um ‘exame’ em sala de aula, terão que assistir a Good Night and Good Luck. A idéia é estimular os futuros jornalistas a pesquisar e discutir o período e o trabalho do jornalista retratado no filme. Em um curso de história do jornalismo, ir ao cinema é sempre uma alternativa bem-vinda para os longos discursos e o grande volume de leituras obrigatórias. Ensinar e aprender jornalismo deveriam ser tão excitantes ou estimulantes como a prática da profissão.

No Brasil, no entanto, o problema é encontrar bons filmes nacionais sobre jornalismo ou jornalistas. Há alguns anos tentei organizar uma mostra de filmes brasileiros sobre jornalismo e não foi uma tarefa fácil. Algumas produções como Cidade de Deus, Jenipapo, Lucio Flavio ou filmes mais antigos como Boca de Ouro, Desafio ou mesmo Terra em Transe retratam o jornalista de maneira ‘confusa’ ou como meros personagens secundários.

Nos últimos dias, a boa notícia vem na forma de documentários. Assim como os americanos reverenciam seus jornalistas famosos como Edward Murrow no cinema, também temos nossos heróis jornalistas. Apesar do atraso e das dificuldades, o diretor João Batista Andrade acaba de lançar ‘Vlado – 30 anos depois’. Trata-se de uma produção independente sobre a morte do diretor de jornalismo da TV Cultura, Vladimir Herzog, torturado pela repressão durante a ditadura militar. Deveria ter exibição obrigatória em bons cursos de jornalismo. O diretor também promete um filme de ficção sobre o mesmo tema.

E que fim levou aquele projeto milionário de levar às nossas telas a vida de um dos nossos mais polêmicos e poderosos ‘jornalistas’, o Chatô? Depois de arrecadar milhões em ‘renúncias fiscais’ ou seja, nosso dinheiro, o projeto também não pode ser visto pelos brasileiros. No Brasil deve ser mesmo muito arriscado retratar jornalistas poderosos. Mesmo depois de mortos, seus fantasmas ainda ameaçam.

E depois reclamam que só temos filmes americanos ou estrangeiros para discutirmos o jornalismo brasileiro!

O cinema brasileiro e as nossas telenovelas, com raras exceções, têm ignorado os profissionais da imprensa. Mas, considerando os riscos, talvez não seja tão mal assim.’

Todos os comentários

ENTRE ASPAS > TANURE & VARIG

Milton Coelho da Graça

18/10/2005 na edição 351

‘O sr. Nelson Tanure reduziu o tempo dedicado ao comando do seu mini-império de comunicação. Amigos seus revelam que ele está concentrado na busca do controle da Varig, mais intensamente do que tentou anteriormente nos casos da Embratel e da Eletronorte.

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Publicidade a serviço de quem paga

O governo federal e empresas estatais gastaram com publicidade, em 2004, R$ 971,8 milhões, mais de quatro vezes o investido por toda a indústria automobilística. Mas, enquanto qualquer empresa aberta tem de explicar a seus acionistas como, com quem, quanto e por que gastou com publicidade, o governo (e não apenas o atual mas todos) recusa-se sistematicamente a dar explicações detalhadas.

Sem qualquer dúvida, a publicidade – pelo menos a da administração direta – deveria ser considerada como forma de informação e/ou educação, de interesse para toda a cidadania, e não promoção, freqüentemente mentirosa, de ações do governo. Que tal o Congresso determinar, a partir de 2007 (para não ser interpretada como casuísmo), a administração independente e pluripartidária das verbas publicitárias, o que garantiria o bom uso dessa dinheirama e sem intermediação dos Marcos Valérios da vida?

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Pizza brotinho com molho de pimenta

A pizza brotinho que encerrou as representações contra os deputados Rodrigo Maia (PFL) e Paulo Pimenta (PT-RS) na Comissão de Sindicância da Câmara foi uma amostra das outras tamanho família, que seriam saboreadas pela rapaziada do mensalão e adjacências, sem a vigilância da imprensa, do Ministério Público e, principalmente, da opinião pública.

Participei na semana passada de um debate organizado pela ONG Voto Consciente, no Rio, com o senador Saturnino Braga e os deputados Chico Alencar, Eduardo Paes e Laura Carneiro. Em certo momento, um deles levantou a possibilidade de que alguns acusados pela CPI do mensalão possam escapar da cassação. As 150 pessoas presentes produziram também uma pequena amostra da reação que isso provocaria na sociedade brasileira.

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Vale a pena recordar essas lindas frases

A Folha de São Paulo publicou há quase dois meses (14/8, página A-12) ‘as piores desculpas do mensalão’. E é bom a gente não esquecê-las nesta reta final, em que se anunciam tantas renúncias.

Assessor cearense do irmão de José Genoíno, explicando dólares na cueca:

‘O dinheiro veio de verduras vendidas na Ceagesp, pois sou agricultor’.

Do deputado Paulo Rocha, sobre saques de R$ 470 mil feitos por uma assessora:

‘A Anita foi uma vez ao prédio do shopping para realizar exames numa clínica’.

Do prof. Luizinho, sobre a ida da mulher de João Paulo Cunha ao prédio da agência do Banco Rural:

‘A Márcia esteve no Rural para resolver um problema na TV a cabo’.

De Marcos Valério, sobre seus grandes saques em dinheiro no Rural:

‘Tenho fazendas, compro animais. Lido com gado. Há fazendeiros que simplesmente não aceitam cheque.’’



DIRETÓRIO ACADÊMICO
Carlos Chaparro

‘Jornalismo nas fontes – avanço e perigos’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 14/10/05

‘O XIS DA QUESTÃO – Para preservar a confiabilidade do jornalismo como processo e linguagem, é preciso que os jornalistas se comportem como tal, qualquer que seja o lugar ou a instância em que atuem. Quem está nas redações, que faça aflorar os conflitos que interessam à construção da democracia. Quem atua nas fontes, que assuma responsabilidades de interface honesta e criativa entre quem produz os fatos e quem, pelo relato e pelo comentário, lhes deve dar dimensão e significação social.

1. Fontes na telinha

Como contribuição à discussão que vem sendo travada, proponho um desdobramento de reflexões em torno de um momento de aprendizado em que recentemente estive envolvido:

A experiência aconteceu em sala de aula, dois meses atrás. Eu e um grupo de alunos de pós-graduação resolvemos assistir ao Jornal da Band, para uma ‘desconstrução’ crítica do noticiário apresentado pelo ótimo Carlos Nascimento. Uma das questões organizadoras da análise foi a seguinte: ‘Das matérias apresentadas, havia alguma em que não fosse perceptível a participação decisiva de fontes organizadas?’ A resposta a que se chegou: Não!

Por trás da totalidade do noticiário daquela noite havia instituições que, na qualidade de fontes, recheavam de conteúdos o melhor telejornal brasileiro. Na origem das notícias estavam empresas, partidos, governos, parlamentos, ONGs, universidades, escolas, órgãos técnicos, sindicatos, clubes, associações de vários tipos. Representadas por pessoas com desempenho claramente profissional, as instituições-fonte ocupavam espaço próprio no noticiário e, por decorrência, espaço próprio no mundo, perante o qual assumiam importância de protagonistas dos acontecimentos e das polêmicas do dia.

Somente isso? Que nada! Mais do que fontes jornalísticas dando recheio informativo e explicativo às reportagens, as instituições protagonistas do noticiário eram sujeitos sociais em plena atuação. Com razões próprias, legitimadas pela notícia, se inseriam nos conflitos da atualidade que continuamente reelaboram o presente, nos jogos da cultura e da democracia. Jogos dos quais o jornalismo se tornou parte essencial, como linguagem narradora confiável.

Acaso essa participação competente das fontes prejudicou a qualidade do telejornal, naquela noite? Claro que não. Ao contrário: foi uma bela edição do Jornal da Band, com Carlos Nascimento fazendo muito bem o seu trabalho de narrador crítico e independente das brigas da vida e do mundo, com poder de decisão sobre o quê e como noticiar.

Por trás do sucesso de Carlos Nascimento, dando suporte ao brilhantismo e à confiabilidade do apresentador, estava uma equipe de pauteiros, produtores, repórteres e editores – escolhidos a dedo, por sua competência. Para chegar ao sucesso final da apresentação do telejornal, naquela como em todas as noites, a equipe de Carlos Nascimento interagiu intensamente, durante horas, como a interface jornalística (assessoria de imprensa) das instituições protagonistas do noticiário. Quem faz ou já fez telejornalismo sabe que é assim. E porque não há boa notícia sem boa fonte (sábio aforismo, tão velho quanto o próprio jornalismo), não há como negar que parte do sucesso do telejornal pertence às instituições geradoras de conteúdos que o rechearam.

2. Sociedade falante

Me interesso, profissional e academicamente, pela questão da assessoria de imprensa não por causa da atividade em si, mas por estar convencido, desde que me conheço como jornalista, de que a cultura jornalística acolhe e acoberta uma grave besteira, ao desmerecer a importância das fontes nos processos jornalísticos. Nos manuais e dicionários do jornalismo, o termo fonte recebe tratamento de verbete secundário. Além de coisa sem importância, a fonte ainda por cima é tida e apresentada como lado suspeito. Daí, essa aberração arrogante que persiste por aí, de se acreditar que nas redações estão todos os santos e que nas fontes (ou assessorias de imprensa), todos os pecadores.

Não é bem assim, e todos sabemos disso. Mas aí está o preconceito que dá viés moralista às discussões, não na polêmica em torno das fronteiras sindicais da corporação. Como se trata de uma cretinice, nem vale a pena discutir tal preconceito.

A questão essencial é outra, a de saber se continua sustentável a crença de que às redações tradicionais pertence ou deve pertencer o controle do jornalismo, na sua dinâmica de processo e linguagem.

Os mitos que organizam as velhas ‘verdades’ da cultura jornalística dizem que sim senhor, que nas redações estão as fronteiras que delimitam e protegem o verdadeiro jornalismo.

A fisionomia real dos circuitos da notícia, entretanto, diz que não. A notícia corre por aí, solta, em blogs e sites de alcance universal. E se multiplica sem controle pelas redes de informação, das quais as mídias tradicionais apenas fazem parte.

Se nos cenários atuais da notícia há um poder que se consolidou, esse é o poder das fontes. A análise comparativa de jornais e telejornais confirma isso, diariamente. O noticiário preponderante é o mesmo, em jornais e telejornais. Com freqüência que irrita, até manchetes se repetem, na essência e na forma.

Como seria absurdo acreditar que a mesmice do noticiário resulta de acordos entre editores concorrentes, temos de admitir que vivemos tempos novos, com noticiários pautados pelos que, legitimados pela própria regra democrática, e em função dela, geram e controlam os fatos conflitantes da atualidade. Ou seja, as fontes organizadas.

Para a democracia, isso é bom. Como gosto de repetir, é preferível uma sociedade em que os grupos organizados possam exercer o direito discursivo de dizer, a uma sociedade onde apenas os jornalistas das redações tradicionais falem.

Mas a nova fisionomia da notícia pode, sim, representar um perigo para a linguagem jornalística, e para o processo jornalismo, na medida em que o vigor dos discursos particulares pode fraudar os compromissos com a veracidade e os balizamentos éticos que a sociedade exige do jornalismo. Compromissos e balizamentos que interessam às próprias instituições-fonte.

3. Experiência brasileira, um avanço

Para defender e preservar a confiabilidade do jornalismo – como processo e linguagem – é preciso que os próprios jornalistas se comportem como tal, qualquer que seja o lugar ou a instância em que atuem.

Quem está nas redações, que não se limite à reprodução dos que as fontes dizem e fazem, mas que, sem a destruição dos discursos particulares, faça aflorar os conflitos que interessam à construção da democracia. Quem atua nas fontes, que assuma o seu papel e a sua responsabilidade de interface honesta e criativa entre quem produz os fatos e quem os deve relatar e comentar para a sociedade.

Por isso, considero avanço importante, não retrocesso, o fato de haver jornalistas atuando nas fontes, e como jornalistas sendo reconhecidos. Eles podem impor razões jornalísticas à socialização dos discursos institucionais – e é bom lembrar que, nestes tempos novos, o acontecimento vale pela significação discursiva, não pela materialidade dos fatos. É essa significação que dá sentido e valor à notícia.

Assim como o advogado empregado em organizações, o jornalista que atua na fonte deve ser um educador da instituição. E isso me sustenta a convicção de que a experiência brasileira de assessoria de imprensa feita por jornalistas constitui um benefício para o jornalismo. Não um prejuízo.

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Por falar em advogado, profissão tantas vezes lembrada como exemplo de que ‘coisas diferentes não se misturam’ (advogado é advogado, juiz é juiz, promotor é promotor, argumenta o colega Delmar Marques), considero importante lembrar que, para se chegar a juiz ou promotor, há que preencher o pré-requisito de ser advogado.

Na verdade, juizes, promotores e advogados são operadores do Direito, com prerrogativas que eliminam a possibilidade de qualquer hierarquia entre eles. E porque nenhum deles vive sem os outros, do conflito entre as funções resulta a harmonia da Justiça.

Assim, ao contrário do que Delmar pensa e propõe, quem sabe temos aí uma ótima analogia a fazer, para organizar relações entre jornalistas assessores de imprensa e jornalistas das redações. Que tal, se os entendêssemos, e se eles próprios se entendessem, como operadores do Jornalismo, atuando em campos diferentes, mas em função de um objetivo maior, comum, o da confiabilidade da informação, da análise e da elucidação jornalística?’



CINEMA & JORNALISMO
Antonio Brasil

‘Aula de jornalismo no cinema’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 14/10/05

‘O que seria da democracia sem o jornalismo? E o que seria da ‘vida’ sem o cinema e a TV? Mas Hollywood nem sempre teve uma boa relação com a imprensa e muito menos com a televisão. Nos últimos anos, o jornalista deixou de ser herói para ser retratado como vilão e a TV é culpada por todos os males da sociedade moderna. Mas para o cinema americano existem jornalistas e jornalistas. Aqueles que trabalham para os jornais ainda merecem um certo ‘respeito’. Mas quando um profissional da imprensa comete a heresia maior de trabalhar para TV, os produtores americanos não perdoam. De heróis ou vilões passam a ser simplesmente retratados como malucos, insensíveis, ambiciosos e, muitas vezes, ridículos.

Temos diversos exemplos em filmes como:

Rede de Intrigas (Network, 1976), com direção de Sidney Lumet, mostra o dramático fim da carreira de um importante âncora da TV americana.

O Âncora: a lenda de Ron Burgundy (Anchorman: The Legend of Ron Burgundy, 2004), uma comédia sobre um âncora de TV dos anos 1970 confrontado por uma colega ambiciosa.

Sonho sem limites, (To Die For, 1994), dirigido por Gus Van Sant com Nicole Kidman, uma garota do tempo que faz de tudo para ser tornar uma estrela do jornalismo de TV.

Nos bastidores da notícia, (Broadcast News, 1987) filme que mostra o competitivo mundo dos bastidores da TV a cabo dos EUA, habitado por jornalistas ambiciosos e prontos para tudo. Dirigido por James L Brooks.

Um Amor de Professora, (Teacher’s Pet, 1958) – Um dos meus favoritos! Um editor de jornal que acredita que a melhor escola é a própria vida envia uma carta ríspida a uma professora, sem saber que ela é uma mulher. Obrigado a pedir desculpas por seu chefe, ele acaba se apaixonando por ela. Com Clark Gable e Doris Day. Recebeu duas indicações ao Oscar.

* Produções ainda mais recentes ‘massacraram’ o jornalismo como O preço de uma verdade (Shattered Glass, 2003) – a história de um jornalista que inventava grande parte de suas matérias – e denunciaram o poder da TV de enganar o público como em Mera Coincidência, (Wag the Dog, 1997), com Robert de Niro e Dustin Hoffman sobre o poder da TV para criar notícias falsas e provocar guerras.

God Night and Good Luck

Esta semana, no entanto, pude assistir ao lançamento de um novo filme que procura fazer um pouco mais de justiça aos jornalistas de TV. Mas procura resgatar a importância de um meio de comunicação poderoso, ainda na sua infância, e mudar a história de um país.

Trata-se de Good Night and Good Luck, (Boa Noite e Boa sorte), ver aqui, dirigido por George Clooney sobre a luta de Edward R. Murrow, provavelmente um dos jornalistas mais respeitados nos EUA, contra o macartismo nos anos 50 – um período de caça às bruxas ou comunistas muito parecido com os dias de hoje com a guerra contra os terroristas. Na abertura do Festival de Cinema de Nova Iorque, o diretor George Clooney fez questão de destacar a importância do jornalismo para enfrentar as novas ameaças à democracia: ‘no passado, alguns jornalistas ousaram enfrentar os poderosos e dizer a verdade’. Ele conhece bem o jornalismo e o poder da TV. O filme também não deixa de ser uma homenagem pessoal. O pai de Clooney também foi um ‘âncora’ de uma pequena estação de TV nos EUA.

Porém, mais importante do que retratar Edward Murrow, a ‘primeira estrela’ do jornalismo americano, pai dos futuros âncoras, jornalista-herói que cobriu quase sozinho com o bombardeio de Londres na Segunda Guerra Mundial, o filme na verdade mostra como era ‘emocionante’ trabalhar nos primeiros anos de um novo meio de comunicação, a TV. Naquela época, todos os profissionais de jornalismo da CBS eram oriundos do rádio. A TV estava sendo ‘inventada’. Entre erros e acertos, os jornalistas ‘experimentavam’ com o poder do novo meio.

Não pude deixar de comparar esses tempos pioneiros com os desafios da Internet. A TV também já foi um meio revolucionário e criativo. Hoje, assim como no passado, todos os jornalistas que estão insatisfeitos com o marasmo e os limites impostos pela mídia tradicional migram para a rede. Eles também procuram a oportunidade de criar novas linguagens e experimentar o poder de um novo meio. Nos começo dos anos 50, nos tempos de Edward Murrow, os jornalistas da CBS migravam do rádio para a TV em busca de novos desafios.

Good Night and Good Luck não é mais um filme sobre um jornalista americano no papel de mocinho ou herói em defesa da sociedade lutando contra um o vilão, um político inescrupuloso disposto a tudo. Muitos outros filmes já retrataram o jornalista como herói com muito mais sucesso.

Jornalista super-homem

Aqui entre nós, recomendo um dos filmes menos conhecidos sobre jornalistas, A Hora da Vingança (Deadline USA, 1952) ,com Humphrey Bogart no papel de um editor ameaçado de morte por um gangster e lutando para evitar o fim do seu jornal. É a visão clássica de Hollywood de um jornalista boêmio, herói solitário e defensor intransigente dos objetivos mais dignos da profissão. O discurso final sobre a importância da imprensa na defesa dos seus leitores e da democracia é simplesmente emocionante. ‘Este é o poder da imprensa. E não há nada que possa fazer contra isso’. Uma verdadeira aula de jornalismo.

Esse é o tema central dessa coluna. Além de recomendar bons filmes sobre jornalistas ou sobre a TV, também deveríamos buscar formas criativas de ensinar jornalismo. Além dos livros, textos e longos discursos, há filmes excelentes disponíveis em locadoras ou cinematecas que retratam os desafios da nossa profissão. Creio que todos os jornalistas que gostam de cinema têm listas pessoais com os melhores filmes que tratam do tema. Alguns são clássicos como Cidadão Kane, Todos os homens do presidente (All the President´s Men, 1976), Última hora (The Front Page, 1931), Os gritos do silêncio (The Killing Fields, 1984), O informante (The Insider, 1999) e A montanha dos sete abutres (Ace in the Hole, 1951). Nesses filmes, Hollywood alterna uma visão meio maniqueísta do jornalista como herói ou vilão. Mas também comete alguns exageros. O repórter do Daily News Clark Kent era um verdadeiro Super-Homem (Superman, 1978).

Murrow e Chatô

Esta semana convidei os meus alunos de jornalismo a irem ao cinema. Em vez de um ‘exame’ em sala de aula, terão que assistir a Good Night and Good Luck. A idéia é estimular os futuros jornalistas a pesquisar e discutir o período e o trabalho do jornalista retratado no filme. Em um curso de história do jornalismo, ir ao cinema é sempre uma alternativa bem-vinda para os longos discursos e o grande volume de leituras obrigatórias. Ensinar e aprender jornalismo deveriam ser tão excitantes ou estimulantes como a prática da profissão.

No Brasil, no entanto, o problema é encontrar bons filmes nacionais sobre jornalismo ou jornalistas. Há alguns anos tentei organizar uma mostra de filmes brasileiros sobre jornalismo e não foi uma tarefa fácil. Algumas produções como Cidade de Deus, Jenipapo, Lucio Flavio ou filmes mais antigos como Boca de Ouro, Desafio ou mesmo Terra em Transe retratam o jornalista de maneira ‘confusa’ ou como meros personagens secundários.

Nos últimos dias, a boa notícia vem na forma de documentários. Assim como os americanos reverenciam seus jornalistas famosos como Edward Murrow no cinema, também temos nossos heróis jornalistas. Apesar do atraso e das dificuldades, o diretor João Batista Andrade acaba de lançar ‘Vlado – 30 anos depois’. Trata-se de uma produção independente sobre a morte do diretor de jornalismo da TV Cultura, Vladimir Herzog, torturado pela repressão durante a ditadura militar. Deveria ter exibição obrigatória em bons cursos de jornalismo. O diretor também promete um filme de ficção sobre o mesmo tema.

E que fim levou aquele projeto milionário de levar às nossas telas a vida de um dos nossos mais polêmicos e poderosos ‘jornalistas’, o Chatô? Depois de arrecadar milhões em ‘renúncias fiscais’ ou seja, nosso dinheiro, o projeto também não pode ser visto pelos brasileiros. No Brasil deve ser mesmo muito arriscado retratar jornalistas poderosos. Mesmo depois de mortos, seus fantasmas ainda ameaçam.

E depois reclamam que só temos filmes americanos ou estrangeiros para discutirmos o jornalismo brasileiro!

O cinema brasileiro e as nossas telenovelas, com raras exceções, têm ignorado os profissionais da imprensa. Mas, considerando os riscos, talvez não seja tão mal assim.’

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