Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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MinC apoia produção cultural norte-americana

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 17/05/2011 na edição 642

Vi no cinema a propaganda da vinda dos personagens da Disney ao Brasil. O evento é apoiado pelo Ministério da Cultura. Não tenho nada contra a vinda da Disney ao Brasil. Não gosto de censura. Mesmo assim não vejo porque o Ministério da Cultura deva apoiar ou financiar este evento. A Disney é uma empresa privada que visa ao lucro. Vai onde pode abocanhar uns tostões dos seus ‘consumidores’. O governo brasileiro não precisa apoiar ou financiar um evento desta natureza, ainda mais quando a empresa em questão é financeiramente bem sucedida e tem alcance global.

O Ministério da Cultura deve, em tese, promover a cultura brasileira. Portanto, seria mais lógico o MinC apoiar ou financiar a ida de artistas brasileiros aos EUA do que fazer justamente o contrário. Os que defendem que o MinC deve apoiar a difusão da produção cultural de outros países no Brasil se esquecem de algo importante. Há uma diferença entre ‘cultura’ e ‘cultura etnológica’. Como disse em outro lugar:

‘O próprio conceito de cultura, que vem sido construído ao longo dos séculos, sofre a pressão da modernização das sociedades europeias. Para o senso comum e parte da crítica especializada, não há ou não deveria haver distinção entre `cultura´ e `cultura etnológica´, pois a hierarquia entre obras de arte não pode ser feita com base em critérios objetivos. Além disto, as massas não têm acesso à cultura da elite, de maneira que não seria justo depreciar a `cultura etnológica´. Como acreditam que `… só há enriquecimento pessoal na cultura de qualidade´, os autores [do livro resenhado] entendem que a distinção não só é necessária, como essencial. A `cultura de massas ou etnológica´ é tóxica e produz a crise ocidental justamente porque não é capaz enriquecer humanisticamente seus destinatários.

O lixo tóxico cultural

No fundo, os autores sugerem a seguinte questão: o que vem primeiro, o lucro dos produtores da cultura etnológica, ou as necessidades humanísticas dos destinatários desta produção cultural?

Cedo ou tarde, o Brasil também será obrigado a responder a essa pergunta. Há muito, optamos pela valorização da `cultura de massas´. A televisão brasileira intoxica diariamente os telespectadores com programas de conteúdo duvidoso (para não dizer asqueroso, mesmo). Os cinemas exibem qualquer porcaria, desde que seja made in USA. Nas rádios, dominadas por rocks estrangeiros, programas evangélicos e gospel, a música brasileira é um produto raro (certamente porque o Brasil é um lugar exótico e distante, cujos músicos só fazem sucesso na Europa e EUA). Música clássica brasileira, então, é `mosca branca´ cujos acordes só voam nas ondas das rádios públicas de limitado alcance territorial’ – http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=423AZL002

Ao que parece, a atual ministra da Cultura não se interessa muito por sutilezas culturais ou teóricas. O debate sobre se Estado brasileiro deve apoiar e promover a ‘cultura brasileira’, proporcionar aos cidadãos brasileiros acesso à ‘cultura estrangeira’ ou apenas incentivar o consumo de ‘cultura etnológica gringa’ no Brasil está encerrado. A ministra da Cultura já decidiu. Disney vem ao Brasil com apoio do MinC. Os consumidores do lixo tóxico cultural gringo certamente vão agradecer-lhe.

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Advogado, Osasco, SP

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