Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA E MISÉRIA

Miopia e jornalismo preguiçoso

Por Marcilene Forechi em 03/02/2004 na edição 262

A matéria estava bem feita. Texto bom, boa voz do repórter, cabeça, passagem, depoimento, boas imagens. O assunto também era bom. Novo, de interesse da população. Mas, bastou ouvir a manchete na voz sorridente do apresentador do telejornal local para que eu sentisse um certo desconforto. Talvez, justamente, por acreditar na importância do assunto e achar estranho o tom festivo com ele foi tratado.

Antes do intervalo comercial, a manchete anunciava, como já disse, num tom que denunciava uma notícia boa: ‘Crianças vão à escola nas férias, mas não para estudar’. De volta o noticiário, a manchete é repetida e entram as imagens simultâneas à voz do repórter. A prefeitura de uma das cidades da região metropolitana resolveu abrir as portas das escolas municipais neste mês de janeiro para servir almoço a crianças e adultos. No dia da reportagem, o cardápio era frango com legumes, arroz, feijão e macarrão.

O texto deixava claro que algumas ou muitas daquelas pessoas não tinham o que comer em casa, por isso, a atitude da prefeitura era muito bem-vinda. E o repórter destacava o fato de as crianças estarem acompanhadas dos pais. Um dos depoimentos, e este me deixou ainda mais incomodada, foi de uma catadora de papel, na fila da comida com três dos seus oito filhos. ‘Nem ligo se eu não puder comer. Se sobrar comida para os meus filhos, está bom’, foi o que disse ao repórter.

Meu desconforto aumentou ao perceber que o importante era a atitude da prefeitura (que, não tenho dúvidas, é extremamente importante) e que aquela pessoa, jogada no mundo do não-ser, não importava a não ser pelo fato de estar na fila para justificar a atitude do prefeito e a produção da reportagem.

Mais uma ou duas pessoas foram ouvidas, entre elas o secretário de Educação (ou teria sido o de Ação Social?) do município. Matéria feita, o sorriso nos lábios do apresentador denunciava uma certeza de dever cumprido. E eu pensei: será possível que ninguém se interesse por estas pessoas, que ninguém queira saber de onde elas vêm?

Aí comecei a pensar no Programa Fome Zero do governo federal, uma das principais, se não a principal, bandeira do presidente Lula. Nenhuma menção sequer ao programa, à distribuição de cestas básicas, à arrecadação de alimentos do programa, ao número de pessoas em situação de extrema miséria.

Depois, silêncio

Passados alguns minutos, pensei no que o secretário disse sobre a importância de as crianças comerem também nas férias. Mas quem disse que elas freqüentam a escola ao longo do período letivo? Ninguém disse, tampouco foi perguntado. Será que uma mãe que tem oito filhos, não tem emprego nem o que comer e que passa os dias nas ruas – provavelmente acompanhada dos filhos mais novos – revirando lixo em busca de papelão que possa ser transformado em dinheiro lembrou de fazer a rematrícula de pelo menos um deles? Ou seria melhor perguntar se algum deles chegou a ser matriculado e a freqüentar a escola?)? E se lembrou, ela estará em casa para enviá-los todos os dias à escola? Nada disso parece importar. Não ter o que comer foi tratado como assunto banal, corriqueiro e sem muita importância.

Noutro dia, a capa de um jornal estampava a foto de uma mulher sentada numa calçada pública da cidade, com um bebê no colo ao lado de um carrinho. A manchete sugeria algo como ‘mãe passa as noites na rua com filho’. Na legenda, a informação de que o carrinho de bebê e a garrafa de cachaça eram tudo o que ela tinha.

Tomada de curiosidade, abri na página indicada e outras informações me deixaram paralisada. A mulher, de 33 anos, se não me engano, acreditava estar grávida de novo e não pretendia ter o filho, o quarto, segundo continuava informando o texto. Num apelo, que o repórter deve ter acreditado ser o mais importante, ela dizia que tudo o que queria era ter ‘um barraco’ para viver com o filho. E, alguns depoimentos depois, de autoridades responsáveis pelo bem-estar, a matéria terminava.

Vasculhei o jornal nos dias seguintes à procura de mais informações. Afinal, o que teria sido feito da mulher e do filho (um bebê gorducho e sorridente, como fez questão de destacar o repórter)? E os tantos outros moradores de rua da cidade, por onde eles andam? Com certeza eles não fazem parte das estatísticas que engrossam os relatórios oficiais e que fazem a festa dos pauteiros e chefes de reportagem de plantão. Melhor falar do discurso do presidente em Genebra sobre o pacto para acabar com a fome no mundo.

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(*) Jornalista em Vitória

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