Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > AR DA GRAÇA

Monty Python, ou o negócio é fazer rir

Por Norma Couri em 09/07/2014 na edição 806

Jornalistas sabem que nenhum jornal quer investir em profissionais lá fora, correspondentes ou enviados especiais para matérias interessantes como o show de estreia na Arena O2, sudoeste de Londres, dos hilariantes Monthy Python – retornando aos palcos 40 anos depois de marcarem gerações no mundo inteiro. “Achamos que seria divertido tentar ver se ainda somos engraçados”, justificaram os lendários septuagenários britânicos Eric Idle, John Cheese, Terry Gilliam, Michael Palin e Terry Jones (Graham Chapman morreu em 1971). Os ingressos esgotaram em segundos, o último show dos cinco remanescentes foi há 16 anos, em 1998.

Sem especificar os efeitos na plateia, Danilo Venticinque, editor de “Livro” na revista Época (7/7) descreve a pura verdade: “Qualquer fã de música pagaria para ver uma reunião dos Beatles, mesmo que eles não soubessem mais tocar. Para os entusiastas do humor, um encontro do Monty Python tem a mesma relevância histórica. A qualidade do espetáculo é um detalhe”.

Pedro Caiado, no Estado de S.Paulo (1/7) contou a introdução de Mick Jagger no vídeo apresentado na coletiva de imprensa: “Eles ainda estão fazendo comédia? Quem quer vê-los de novo? Um monte de homens velhos enrugados tentando recapturar a juventude”. Jagger envenena: “Eles estão tentando fazer algum dinheiro… Afinal, o melhor deles morreu há muitos anos”.

Pés pelas mãos

Na plateia do primeiro dos dez shows dos comediantes e na coletiva de imprensa, os humoristas Fábio Porchat, colunista do Estadão que foi comemorar o aniversário de 31 anos, e Gregório Duvivier, da Folha de S.Paulo, ambos criadores da Porta dos Fundos, com outros três sócios. Todos estavam em Londres e participaram da entrevista. O arquiteto Manuel Pinto Guimarães escreveu para O Globo (3/7) contando a escapulida da Copa por quatro dias de Marcelo Serrado para assistir ao show de estreia, e o deslumbramento do ator: “Foi como se eu tivesse visto o Pelé jogar”. Foi Manuel Pinto Guimarães quem contou também que o redator de A Grande Família, Mauro Wilson, estava presente.

O que surpreendeu foram as perguntas na coletiva, ao que parece de nenhum jornalista, mas de Fábio Porchat, com o microfone na mão, entre jornalistas do mundo todo, sentindo-se “como um garotinho de 11 anos”. “Eu gaguejei, ri de nervoso, meu inglês se transformou num inglês pior do que o de um imigrante chinês recém-chegado à América e eu comecei a elaborar uma pergunta bem idiota” (Estadão, 1/7). “A coletiva foi bem tranquila, atrasada, sem muita gente, de manhã, com jornalistas não rindo de nenhuma piada, enfim, coletiva de imprensa é igual no todo mundo. Na minha vez o que eu consegui falar é que eu era brasileiro, falei que representava o Estadão… enquanto eu perguntava parecia que estava caindo do alto do Big Ben. A sensação era horrível.”

Porchat perguntou se eles acompanhavam algum tipo de humor novo que tivesse surgido na internet, TV ou cinema, nos últimos anos. “Após uma pausa perfeita de dois segundos e meio, a resposta foi precisa. ‘Não.’ Ponto. Todos rimos. E lá se foi a minha chance… Como jornalista, sou melhor cancelando uma linha de telefone. Não adianta, fã é tudo bobo. Quando a gente é tão fã que trava, a gente não consegue fazer o nosso trabalho. Mas foi o melhor ‘não’ da minha vida.”

Sem importância

Uns dias depois veio o depoimento de Gregório Duvivier na Folha (4/7). “Queria perguntar um trilhão de coisas, mas os jornalistas do mundo inteiro (uns 50) disputavam a palavra. Queria dizer que amava eles… fazer coraçãozinho com as mãos, pedir um beijo para minha mãe… Até que a bola caiu no meu pé como um milagre – operado pelo jornalista Pedro Caiado, que levantou a mão e passou a bola para mim. Perguntei idiotamente ‘Hi, my name is Gregorio Duvivier, I am Brazilian’. Ao que John Cleese cortou ‘you Lucky bastard’”.

A pergunta foi a mesma de Fábio Porchat, se eles assistiam à comédia que se faz hoje em dia. Silêncio enorme. E a mesma resposta: “Não”. Ele insiste. Os entrevistados puxam um ou outro nome, e arrematam: “A parte interessante de ficar velho é que você não precisa mais fingir que se interessa pelas novidades e pode ser feliz apenas relembrando os bons momentos”.

Segundo Duvivier, os Monty Python estavam imitando eles mesmos, e mal, alguns esqueciam o texto, as piadas eram velhas, a dança, arrastada. Mas a felicidade de estar ali foi imensa. Miguel Pinto Guimarães refrescou mais, o visual foi o ponto alto. “Os esquetes foram entremeados por números musicais e pirotécnicos ao melhor estilo West End.”

Mas eu me pergunto por que entre um ator, cinco comediantes, um redator de A Grande Família e um arquiteto não havia mais jornalistas. Dois, sim, mas as perguntas “hi, I am Brazilian” ou a tremida de Porchat só se justificam porque fazem a gente rir – afinal, eles são ótimos nessa peculiaridade. Mas numa coletiva de imprensa não deveria haver mais jornalistas brasileiros, enviados especiais, além dos que por acaso estavam por lá? Ou isso na imprensa de hoje é o que menos importa, quando o tema é comediantes, britânicos ou não? O negócio é fazer rir?

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Norma Couri é jornalista

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