Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ENTRE ASPAS > JULGAMENTOS JORNALÍSTICOS

Morder e soprar as autoridades segundo as próprias necessidades

Por Fábio de Oliveira Ribeiro em 05/09/2011 na edição 658

Semana passada, o deputado Protógenes Queiroz postou a seguinte mensagem no Twitter:

ProtogenesQ

Absolvicao do banqueiro bandido DD no STJ, morte da juíza no RJ, agora absolvicao da deputada Jaqueline na Camara. Vamos às ruas dia 7 setembro.”

Em poucas palavras, o ex-delegado resumiu o estado das coisas judiciárias no Brasil. O banqueiro famoso e, segundo alguns, infame, foi julgado com “rigor técnico” pelo STJ, muito embora neste caso não se possa saber exatamente o que quer dizer a expressão “rigor técnico”. A deputada foi julgada pelos seus pares, muitos dos quais já demonstraram as mesmas inclinações desonestas que ela num passado recente e distante. O TJRJ julgou que a juíza não precisava de segurança e ela foi executada pelos criminosos que julgou ou julgaria.

Julgamentos, portanto, nós temos muitos. Mas a qualidade dos mesmos é muito duvidosa. Assim no Judiciário, assim na imprensa, que julga ser necessário morder e assoprar as autoridades segundo suas próprias necessidades. Quando os juízes usam a pena para calar a imprensa, os jornalistas se levantam em coro e com eloquência em defesa da liberdade de imprensa. Mas quando estão livres para exercer sua profissão com a devida liberdade, acabam vendo seu trabalho julgado inadequado ou inoportuno por editorias que fazem considerações políticas, partidárias, empresariais, financeiras etc…

Pergunta pertinente que não é feita

Um exemplo de como a mídia também faz julgamentos seletivos. A imprensa noticiou que os EUA pediram desculpas pelas experiências que realizaram na Guatemala durante os anos 1940.

A atitude dos EUA, neste caso, até parece louvável, como deu a entender a cobertura do episódio. Entretanto, este pedido de desculpas mereceria elogios se, e somente se, nos últimos anos os EUA não tivessem cometido atrocidades semelhantes em outros lugares. O emprego de toneladas de munição fabricada com urânio empobrecidono Iraque é fato notório. O resultado: uma verdadeira epidemia de deformidades infantistem sido minimizada pela mídia. Na imprensa brasileira a questão virou quase tabu. Na imprensa portuguesa, entretanto, é possível ver reações jornalísticas adequadas.

A imprensa brasileira parece não querer ou não conseguir ligar os dois pontos da história norte-americana. De fato, apesar de pedir desculpas aos guatemaltecos, os EUA seguem fazendo em outros lugares o que fizeram na Guatemala. Obama disse ao presidente da Guatemala que os “…estudos contrariam os valores norte-americanos”. O uso de munição com urânio empobrecido, cujos resíduos provocam o nascimento de crianças deformadas e outros problemas de saúde, não contraria os valores norte-americanos? Esta pergunta é pertinente, mas não tem sido feita. Por que esta pergunta não pode ser feita? Esta é a verdadeira questão.

***

[Fábio de Oliveira Ribeiroé advogado, Osasco, SP]

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