Terça-feira, 23 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1047
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Muito barulho por nada

Por Luiz Antonio Magalhães em 10/06/2009 na edição 541

A celeuma é grande, mas a questão é simples. A Petrobras tem todo o direito de editar um blog, algo absolutamente legal e normal. É na verdade uma extensão do site da empresa – no fundo é a mesmíssima coisa, do ponto de vista formal, com a diferença que a atualização é mais frequente. Qualquer empresa tem este direito líquido e certo. Os jornalões estão beirando a histeria porque o blog da Petrobras está publicando informações sobre as pautas que estes veículos pretendem realizar, incluindo aí as questões enviadas pelos jornalistas.


Muito barulho por nada, como diria o bardo. É evidente que as perguntas idiotas dos jornalistas expõem os jornais ao ridículo, mas é bom e salutar que este tipo de coisa acabe aparecendo – tudo que a sociedade precisa é justamente de transparência.


Chega a ser engraçado: a imprensa prega a transparência dos três Poderes, faz um escarcéu danado para que tudo, até informações confidenciais do Estado, seja revelado ao público, então por que não aceita ser um pouquinho transparente também? Um repórter endereçou perguntas para uma estatal, empresa mista ou órgão público? Que a pergunta seja tão pública quanto a resposta. É simples assim.


Como bem lembrou em seu blog o jornalista Ivson de Sá, o trabalho será grande, mas o ideal é a Petrobras aceitar o desafio e responder a todas as demandas da imprensa por meio de seu blog, às claras, em público. Com todo mundo olhando, inclusive os colegas dos veículos concorrentes.


Regra e exceção


O que os jornalistas e seus patrões querem esconder? A própria ignorância? Alguns jornais reclamam que a exposição das pautas acabaria com os chamados ‘furos’. Bobagem, ninguém dá furo de reportagem com informação de assessoria de imprensa de empresa alguma. Furos são informações que os repórteres conseguem por meio de suas fontes, e assessoria de imprensa não é fonte, é a voz oficial da companhia ou repartição pública.


Este observador é totalmente favorável à exposição do (péssimo) nível das questões e pautas que chegam às assessorias de comunicação (da Petrobras ou de qualquer outra empresa), quem sabe assim pudesse ficar mais claro para o leitor o gato que está comprando por lebre.


Sim, o jornalismo brasileiro é muito ruim, realizado em geral por focas despreparados e que mal sabem escrever em português. Alguns poucos abnegados, em geral com melhor qualificação, que trabalham nas redações costumam salvar os textos, mas na propositura da pauta, nas questões enviadas para as assessorias, fica patente a desqualificação de boa parte dos profissionais que trabalham nos jornais, revistas e no telejornalismo do país – ruindade esta cuja origem não cabe aqui discutir, seria tema de um artigo inteiro. Questionários com erros crassos de português são regra, não exceção.


Portanto, congratulações efusivas à Petrobras: apesar de seus motivos muito particulares (e, dizem, até suspeitos), a companhia está oferecendo, de graça, uma das melhores contribuições à melhoria do jornalismo tupiniquim que alguém jamais poderia imaginar.


Dois mais dois


Quanto à posição do patronato, por fim, o ridículo é tão grande que causa até espanto. Os donos de veículos de comunicação gostam mesmo é de fazer negócios e jornalismo na sombra. Não existe nenhum empecilho nem regra escrita em qualquer lugar que diga como uma empresa, pública ou privada, deva proceder na relação com a imprensa. A conversa mole de que existe toda uma prática consagrada ou que a ‘mediação’ é algo inerente ao jornalismo não passa, como dizem os americanos, de bullshit.


No caso específico da relação com governos e empresas privadas, quanto menor a mediação, melhor. Não há nenhuma lógica na alegação de que a apuração jornalística deva ser feita secretamente, às escuras, por meio de combinações o mais das vezes suspeitas com as assessorias de imprensa. Ao repórter cabe buscar a verdade dos fatos com suas fontes, e a uma assessoria de comunicação de um órgão público cabe apenas informar a posição da empresa sobre assuntos a ela pertinentes. O jornalista deve apurar, ir além das fontes oficiais e dialogar com elas quando necessário. Já a assessoria deve prestar as mesmas informações ao jornalista que apresentaria ao distinto público – afinal ele, o jornalista, é apenas um ‘mediador’.


De tudo isto decorre que deveria ser regra para órgãos públicos, autarquias e empresas estatais a publicidade de suas relações com a imprensa. Como dois e dois são quatro: um pergunta, o outro responde e todo mundo fica sabendo. Inverter a questão e acusar a Petrobras de ferir a liberdade de expressão ou qualquer patacoada semelhante é algo que realmente deveria envergonhar os barões da mídia brasileira.

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