Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > OLHAR FEMININO

Mulher de verdade não vende revista

Por Ligia Martins de Almeida em 09/11/2004 na edição 302

O assassinato, na Holanda, do cineasta Theo Van Gogh seria apenas mais uma notícia policial, não fosse o motivo: o seu filme Submissão, que retrata a situação das mulheres muçulmanas.

Segundo a notícia da Associated Press – que não mereceu uma linha sequer na imprensa brasileira –, o parente distante de Vincent Van Gogh (tataraneto de Theo, irmão do pintor) tinha recebido várias ameaças de radicais muçulmanos, que prometem matar também o autor do roteiro, um muçulmano radicado na Holanda.

Do cineasta, tudo o que se consegue na internet é a notícia do assassinato. Do filme, nada. Se o filme é forte o suficiente para levar extremistas a cometer um assassinato, por que não mereceu a divulgação internacional a que teria direito? Certamente porque a opressão das mulheres muçulmanas não deve ser um assunto de sucesso. De vez em quando a gente vê um documentário sobre o tema ou lê uma notícia sobre um livro ou reportagem que retrata o assunto. E fica por aí.

Mas como reclamar do fato de se dar pouca – ou nenhuma – importância para a situação de uma imensa parcela da população que ainda é considerada inferior se a imprensa do mundo não discute em profundidade nem a situação das mulheres do Ocidente?

Como protestar se os programas de grande audiência na TV e as revistas femininas parecem ter mais sucesso quanto mais reforçam os estereótipos? Dois exemplos claros são o programa Troca de esposas, do canal People & Arts, e a edição de novembro da revista Claudia.

Pauta esquecida

No programa Troca de esposas, as mulheres deixam sua família e vão para outra casa. Sua função: varrer, lavar, cozinhar, passar roupa, cuidar das crianças e, se for o caso, limpar a sujeira dos cachorros. E, se trabalham fora, fazem tudo isso sem deixar de dar o expediente externo. Em alguns casos, os maridos – que não trabalham – fazem o trabalho doméstico e elas levam broncas e broncas por serem preguiçosas.

Os programas, invariavelmente, terminam com a mesma lição de moral: valorize seu marido e tudo aquilo que você conquistou: uma família para cuidar. Em resumo, mulher, mesmo que tenha uma carreira fora de casa, foi feita para cuidar da casa. E tem que fazer isso de bom-humor, bem vestida e bonita, agradecendo aos céus o privilégio de ter marido e filhos.

Nada diferente da mensagem transmitida nas coloridas páginas das revistas femininas. Na edição de novembro de Claudia, por exemplo, a mensagem subliminar está lá: 37 páginas dedicadas à moda, beleza e dieta. Some-se a isso os anúncios (sobre os mesmos assuntos) e a sensação é de que a revista é de moda e beleza. E que os editores estavam sem nenhuma inspiração para tratar de outros temas. Só isso explica a presença de matérias como ‘Tarô para iniciantes’ ou ‘Mais tempo só para você’.

Depois de mostrar a rotina de mulheres brasileiras que se encaixam direitinho no programa Troca de esposa, vêm os conselhos para aproveitar o tempo que sobra. Preciosidades do tipo monte um álbum de fotos, perca a cabeça, brinque de massinha, liberte seus pés… E por aí vai.

De diferente, só a matéria ‘A produção independente em debate’, sob o chapéu ‘Claudia polêmica’, que discute a situação das mães solteiras por opção. Matéria, aliás, muito curiosa. O crescente número jovens adolescentes de classe pobre, mães solteiras por falta de opção, não chega a ser mencionado.

Mulheres negras

Nesse mundo ideal das revistas femininas, discute-se tudo, menos a situação da maioria das mulheres brasileiras – as excluídas da escola, do trabalho e da cidadania. Nada diferente da imprensa mundial, que desconhece a opressão das mulheres muçulmanas.

Se nas sociedades islâmicas elas são oficialmente consideradas seres humanos de segunda classe, aqui – a acreditar nas publicações dirigidas ao público feminino – as mulheres estão totalmente liberadas, desde que comprem belas roupas, saibam escolher o corte de cabelo e o xampu e estejam sintonizadas com o mundo moderno, aprendendo a reger seu destino pelas cartas.

Para não dizer que a mulher do povo não existe nessa linda revista, um anunciante de sabão em pó salva a pátria, no anúncio em que mostra mulheres negras premiadas pela revista por seu trabalho contra o racismo, os abusos trabalhistas e o trabalho infantil.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/03/2007 Arlete Bernardo

    Sim ,é ridículo porém real, mulher de verdade,que tem valor, que ajuda construir um País, seja pelos seus ideais, ou pelo seu dia-dia no mercado de trabalho ,não da ibop,porque revistas vendem sonhos, e o o povo sofrido ainda que sofrido ainda sonha,o que acaba colaborando com os este tipo de pensamento equívocado,elas também quando tem acesso leem essas revistas;sonham com essa troca de valores,não sou hipócrita leio também, mais somos muito mais do que isso, gostaría de ser conhecida também que pensa grande, não só futilidades…

  2. Comentou em 14/11/2004 Gisele Lemper

    Uma matéria séria, excelente, que serve de exemplo e enriquece nosso jornalismo. Meus parabéns e o abraço da leitora do DF.

  3. Comentou em 13/11/2004 Flávia Pedrosa

    Não consigo entender como, depois de tantas vitórias, aind ahá tanto preconconceito estendido, escondido, enviezado sobre a mulher, mesmo que neste caso, seja ‘sobre véus’ e sobre como perpassar um sistema em que o papel da mulher se resuma, se castre. O tom de criticidade do jornalista desta matéria é loyvável, sobre um tema que não só deve, mas TEM de ser abordado…Parabéns.

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