Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº931

FEITOS & DESFEITAS > Lava jato

As mulheres da corrupção (para não falar só dos homens)

Por Alberto Dines em 12/12/2016 na edição 928

Onde estão as nossas Carmens Lucias, espelhadas na presidente do Supremo Tribunal Federal? Elegantes, discretas, distintas, convidando à conciliação e prudência, alertando ao país que é ” democracia ou guerra”? Para não citar o que previu Levi-Strauss , para quem o Brasil vai sair da barbárie para a decadência sem conhecer a civilização. 

Enquanto o país mergulhava no buraco negro da corrupção, da dívida e da ética na política e na economia, a prisão da ex-primeira-dama carioca Adriana  Ancelmo , encarcerada numa cela de 6m2 em Bangú , jogava luz no que acontecia do lado de lá. E eram muitos lados de lá.

A quebra de sigilo do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, revela um e-mail de fevereiro de 2009 recebido da filha e publicitária Danielle : “Dad, mesmo eu indo viajar, infelizmente não tenho cacife para comprar tudo que gostaria”. Junto, uma listinha de compras que incluía uma bolsa Balenciaga, sapatilhas Tony Burch, um trench coat inglês da Burberry, óculos Ray Ban e camisas polo Ralph Lauren “para trabalhar”.

Danielle gastou U$5,000 em 11 dias com musicais, vestidos, computador, vitaminas, produtos de beleza. A Polícia Federal analisa se o cartão de crédito que pagou as contas era abastecido com propina já que não aparece o nome de Cunha que usava e-mails com o codinome Carlos Trípoli.

Nenhum espanto, a mulher de Cunha, Claudia Cruz, gastou U$ 1 milhão em oito anos em lojas de grife e jantares em restaurantes 5 estrelas pelo mundo.

A farra dos guardanapos

Riqueza, o apelido de Adriana Ancelmo, gastava em joalherias como H Stern que vendia a domicílio para garantir a privacidade na venda de 460 peças em dinheiro vivo no valor de R$7 milhões. O ex-governador Anthony Garotinho se especializou em flagrar os luxos do casal Sergio Cabral , seu desafeto, como a foto de Riqueza em Paris exibindo a sola vermelha do sapato Louboutin que , no barato , custa R$ 15.000, 00. Foi num jantar no hotel Ritz no episódio conhecido como “a farra dos guardanapos”. O anel de ouro e brilhantes da Van Chefe &Arpels exibido em outras fotos foi só um mimo de R$800 mil bancado pelo amigo e empresário Fernando Cavendish, em Mônaco.

O estado estava à beira da inadimplência , o governador comprava joias para Riqueza , recompensando as joalherias com isenção fiscal das compras efetuadas pelo casal. Só a Antonio Bernardo , onde Riqueza era conhecida como Lurdinha, recebeu isenção de R$39,8 milhões.

Sergio Cabral gostava tanto de presentear joias que até Madonna ganhou uma, da H.Stern, isenção se R$113 mil nessa compra.

O próprio  nome era camuflado , em algumas ocasiões Cabral era Ramos Filho, noutras Nelma de Sá Saraca, invenção então associada à ex-secretária do histórico tabloide de humor 0 Pasquim, e ao musical “Sassaricando”, ambos com Sergio Cabral ,pai , na sua criação . Mas Nelma de Sá Saraca era empregada de Cabral e mora num quarto e sala de 30 m2 em Maricá.

Alto luxo, lavagem  de dinheiro, Riqueza tinha papel central no esquema de corrupção do marido que desviou pelo menos R$224 milhões na construção do Rio Maravilha da Copa, as obras do Maracanã, Arco Metropolitano, a reconstrução das favelas e da Comperj . O escritório de Adriana escondia o dinheiro ilegal ganho pelos 5% cobrados nos contratos celebrados  com empreiteiros, mais 1% de “taxa de oxigenação” para a Secretaria de Obras. Sete dos maiores contratos do escritório de Adriana entre 2008 e 2015 foram fechados com empresas que recebiam, no mesmo período, benefícios fiscais de R$ 140 bilhões do governo fluminense. As propinas de R$300 mil eram entregues toda semana no seu escritório, no centro do Rio.

O Rio é estado refém , não mais de um corsário como  Dugway-Troin  em 1711, mas dos  luxos descabidos e deslumbrados de seus governantes. Que agora pedem o sacrifício da população. O quebra quebra da semana passada ao som de bombas e violinos é a revolta pela descoberta do que se passava no refúgio do lar do Leblon, nas viagens à Europa e na lancha “Manhattan Rio” de R$5 ,3 milhões.

O desemprego aumentava, os salários não compareciam , e o 13º  e a aposentadoria viravam pó ao lado do brilho das joias de Riqueza. O Rio virou praça de guerra, aquela guerra de que Carmem Lucia falava. E a Polícia Federal, que quanto mais escava, mais joias encontra, diz que estar entre quatro paredes é bom para a segurança de Riqueza, ” do jeito que o povo chegou ao limite da paciência…” 

E Riqueza é apenas uma pontinha da lavagem do Lava-Jato de onde, parece, quase não vai sobrar ninguém, dos dois sexos, na política pátria. Os mais novos integrantes da lista são: Caju(Romero Jucá), Justiça (Renan Calheiros), Kafka (Kassab), Mineirinho(Aécio), Angorá(Moreira Franco), Babel (Geddel Vieira Lima), Caranguejo (Eduardo Cunha), Botafogo (Rodrigo Maia)….

***
Alberto Dines é jornalista, escritor e cofundador do Observatório da Imprensa

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