Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > REVISTAS FEMININAS

Mulheres que só pensam em sexo

Por Ligia Martins de Almeida em 30/01/2006 na edição 366

É o que se conclui ao folhear as revistas femininas com suas promessas de mais prazer, mais sucesso e mais beleza: a mulher moderna resolveu todos os problemas com relação à educação dos filhos, já pode pensar em si mesma sem culpa, pode dar prioridade à carreira e pensar em se manter jovem e bonita para sempre. Problemas, se tem, segundo as revistas, é na área do prazer. Cada vez mais a mulher luta pelo seu sagrado direito ao orgasmo.

Embora a mulher continue a grande encarregada da educação dos filhos, a leitura das revistas femininas, hoje em dia, nos leva a uma conclusão: essa preocupação deixou de ser prioridade para a mãe moderna. A grande, única e prioritária preocupação das leitoras – além da forma física e de estar na moda – é sexo. Até mesmo quando se trata dos filhos. Nas revistas disponíveis nas bancas em janeiro, a única matéria sobre filhos que se destaca é a que mostra como lidar com um filho adolescente gay. Claro que o assunto é espinhoso e merece destaque, mas não é, certamente, o único.

Um peso maior

Quem trabalhou em revistas femininas sabe que filhos – e por extensão relações familiares – eram tema obrigatório de toda edição. E que as revistas se orgulhavam de ajudar a dona-de-casa e mãe a criar melhor os filhos. Mulheres que viviam em dúvida sobre as creches, a formação dada pelas escolas, a melhor forma de conciliar o trabalho e a educação dos filhos. As entrevistadas tinham dúvidas, pediam ajuda, queriam diminuir a culpa por pensar numa carreira e em como conciliar sua evolução pessoal com a felicidade dos filhos.

Ou as mulheres resolveram de vez o problema – o que é pouco provável – ou as revistas femininas decretaram que a mulher mudou e não quer mais saber desse tipo de assunto. Uma hipótese ainda mais triste é a de que as jornalistas de revistas femininas acreditem que não há mais espaço para reflexão e discussão de temas nas suas páginas coloridas e caras, perfeitas para destacar roupas, maquiagem e produtos de consumo. Talvez se acredite que o espaço para temas pesados, com cara de tese de mestrado, esteja preenchido pela internet.

A verdade é que, para quem tem dúvidas, tempo e paciência, material não falta na internet. Ao digitar a expressão ‘educação de filhos’, em três ferramentas de busca, o resultado é, no mínimo, assustador: no UOL Busca aparecem 94.941 páginas sobre o tema; 2.310.000 no Google e 1.400.000, no Yahoo.

Esses números servem para provar que tem muita gente pensando no assunto e, o melhor, querendo passar as informações adiante. Mostram que só o fato de a rede aceitar tudo e abrir espaço para o debate não significa que a mídia impressa tenha que retroceder. Mesmo porque a parcela de pessoas conectadas, com tempo para pesquisar, ainda é bem pequena. E prova também que os internautas têm acesso ilimitado à informação, desde que tenham tempo para pesquisar.

Mas, ao contrário de jornais e revistas que têm credibilidade e por isso dão segurança ao leitor, na rede tudo é permitido. Para a leitora fiel de Claudia, Nova, Criativa ou Elle, só para citar algumas, o fato de um assunto aparecer na revista tem um peso maior, como se o problema – ou a solução – tivesse mais relevância porque mereceu espaço na revista.

Uma parcela da luta

Talvez por isso as dietas, a moda e os tratamentos de beleza tenham o peso monumental que têm hoje. São temas com os quais as revistas bombardeiam as leitoras, como num lento e gradual processo de lavagem cerebral. De tanto ouvir falar em botox, cirurgia redutora de peso e outros modismos transformados em ‘tendências’ pelas revistas femininas, as leitoras vão acabar acreditando que isso e o sexo são as únicas coisas realmente importantes na vida. Mas é conversar com duas ou três mães modernas – que trabalham fora, querem fazer carreira, mas não abrem mão da criação dos filhos – para perceber que elas continuam tendo as mesmas dúvidas de sempre.

Querem, por exemplo, saber como limitar o uso do computador pelos filhos, como socializar as crianças que se escondem atrás da máquina para evitar os confrontos inevitáveis da adolescência; perguntam-se se o fato de a menina não ligar para a aparência é normal e, principalmente, questionam-se se estão fazendo o melhor pelos filhos. E aí, quando procuram uma reposta nas boas e confiáveis revistas femininas, não encontram nada. Sobram os programas femininos, os programas de entrevistas e os comportamentos eventualmente discutidos nas novelas ou suplementos de jornais.

Ninguém quer que as revistas femininas tratem a mulher como rainha do lar, a mulher cri-cri de triste memória. Mas seria bom lembrar que, apesar de todo o caminho percorrido, as mulheres ainda têm dupla jornada e dupla carga de culpa, porque acabam carregando os filhos e a casa nas costas. Seria bom lembrar, principalmente, que ao queimar sutiãs em praça pública as feministas não lutavam pelo direito ao orgasmo. A liberdade sexual era apenas uma pequena parcela da luta pela igualdade. Uma luta que, ao que tudo indica, não foi corretamente interpretada pelas revistas que deveriam falar em nome das mulheres e para as mulheres.

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Jornalista

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