Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > PRIMEIRAS-DAMAS

Mulheres simples, mas muito poderosas

Por Ligia Martins de Almeida em 22/02/2005 na edição 317

Severino Cavalcanti, presidente da Câmara dos Deputados, chocou o país ao convidar sua mulher, dona Amélia, para sentar à mesa com ele em sua posse.

Deslumbramento de um político despreparado ou uma história um pouco mais complexa? Felizmente os jornais foram pesquisar o assunto e mostraram, no domingo, que Amélia é bem mais do que ‘a fiel escudeira’ do marido (Jornal da Tarde, São Paulo, 20/2). Criada numa família de políticos, Amélia comemora os 50 anos de casamento vendo o marido chegar a um dos cargos mais importantes do país. E, logo na primeira entrevista, conta muito mais do que foi perguntado, aproveitando para esclarecer as posições da família sobre temas polêmicos como casamento gay e aborto.

As mesmas críticas que o deputado Severino sofreu agora foram feitas ao presidente Lula quando instalou dona Marisa no Palácio do Planalto, com gabinete no mesmo andar que a presidência da República.

O que significa a atitude desses dois políticos, por coincidência nordestinos que, mais do que quebrar o protocolo e as normas vigentes, dão publicamente um testemunho de agradecimento às suas mulheres? Um bom tema para psicólogos, antropólogos e sociólogos.

Mas um tema melhor ainda para a mídia, que limita o assunto a um box. À falta de adjetivos, essas esposas são classificadas como mulheres simples: Amélia é a nordestina de classe alta que deixou o marido fazer carreira embora pudesse ela mesma ter sido candidata; e Marisa é a ex-operária viúva que apoiou o presidente desde o tempo da luta sindical. Por mais simples que sejam essas mulheres (qualificação elogiosa que Amélia recebeu de O Estado de S. Paulo), elas merecem, da mídia, um estudo mais sério.

Como explicar que o presidente da República e agora o presidente da Câmara se exponham a críticas – e eventuais piadas – por revelarem, em público, o tipo de relacionamento que têm com suas mulheres? Como ousam dizer ao mundo que vão, efetivamente, deixar suas mulheres ter voz ativa em suas decisões? Que estranho mundo é esse em que esposas aparecem em público com aquele ar de que estão junto com os maridos para o que der e vier?

Marta no palanque

Em geral os cônjuges são preservados, à exceção de quando são essenciais em estratégias de campanha. Ou nas inevitáveis atividades assistenciais das primeiras-damas em geral. Se a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, ou a ex-prefeita Marta Suplicy, de São Paulo, por exemplo, trouxessem seus cônjuges para situações em que ficasse clara sua influência no governo, a imprensa certamente trataria do assunto com mais freqüência e rigor. A situação da governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho, não deixa de ser um exemplo, embora venha sendo, segundo muitos, poupada pela imprensa. Esse box renderia pauta para várias matérias.

Dona Amélia, que virou box na matéria de página inteira com seu marido, prova que pode até ser simples, mas que tem um excelente senso de oportunidade ao sair falando de suas posições sobre temas polêmicos.

Por exemplo, tratou de esclarecer por que o casal é contra o casamento gay: ‘Não temos nada contra os homossexuais, temos amigos homossexuais maravilhosos. Acho que os gays deveriam ter direito à herança, em caso de morte de um parceiro. É como uma dama de companhia que cuidou de senhora idosa. Entendo que ela deve ter direito a uma herançazinha’.

Uma frase que, nos bons tempos, faria Marta Suplicy subir ao palanque e, em discurso inflamado, mostrar o quanto de discriminação existe na posição de dona Amélia, ao comparar o relacionamento de duas pessoas adultas, movidas por afeto, com a relação patrão-empregado que existe entre uma senhora idosa e sua acompanhante.

Folclore e influência

Uma mulher que mostra tal segurança ao explicar a posição do marido tem todo o direito de subir à mesa da Câmara. É como se o deputado Severino estivesse, com o gesto da posse, mostrando ao mundo a sua melhor assessora.

O que essa senhora mostrou a todos nós é o quanto a imprensa está despreparada para avaliar a verdadeira posição das mulheres na sociedade e, principalmente, como falhamos quando o entrevistado revela seus preconceitos. Ela declarou, o jornalista anotou e não se fala mais nisso. Como se fosse apenas mais um bom tema para piadas.

Ninguém se perguntou quantas donas Amélias e donas Marisas existem, nesse Brasil, agindo como eminência parda de seus maridos, para o bem ou para o mal.

A grande imprensa, com pouco espaço para tanta notícia, acaba esquecendo que quando chega em casa o presidente, o governador, o prefeito vão acabar ouvindo – e, muitas vezes, acatando – a opinião da família sobre suas decisões. E a eventual acompanhante em solenidades tem mais o que revelar do que um vestido novo ou um corte de cabelo perfeito.

Quem sabe dona Amélia vai nos ajudar a refletir e levar um pouco mais a sério a folclórica – mas, com certeza, muito influente – figura da mulher do político?

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Jornalista

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