Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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FEITOS & DESFEITAS > SENSACIONALISMO

Mulheres bandidas na mídia

Por Ligia Martins de Almeida em 25/03/2008 na edição 478

Duas mulheres foram destaque na mídia na semana passada: a goiana que foi presa por torturar meninas em sua casa e a cafetina brasileira deportada dos Estados Unidos depois de fazer parte da investigação que resultou na renúncia do ex-governador de Nova York.

Essas duas mulheres bandidas parecem satisfazer os requisitos da mídia para falar de mulheres: uma porque é um verdadeiro monstro e, a outra, porque se envolveu num escândalo sexual com uma autoridade.

O crime da goiana tinha que ser denunciado. Mas os leitores poderiam ser poupados dos detalhes sórdidos e cruéis envolvendo crianças, não precisavam ver a foto da criança algemada. Embora tenha o rosto disfarçado por efeitos de Photoshop, é possível identificar a menina ilustrando a matéria ‘Detalhes do drama que chocou o País’ (O Estado de S.Paulo, 24/3/2008).

Em vez de se deliciarem relatando a tortura a que as crianças eram submetidas, os jornais poderiam fazer matérias mostrando por que mães bem-intencionadas entregam os filhos para estranhos com a esperança de que tenham uma vida melhor. Mas os pauteiros dirão que não é isso que os leitores querem. Dirão que os leitores gostam de tragédia e não estão dispostos a ler matérias que obrigam a pensar. Nesses tempos de reality shows e culto a celebridades, até os jornais mais sérios parecem ter aderido de vez ao sensacionalismo.

‘Sensualidade’ e voyeurismo

Sensacionalismo que acaba transformando uma ex-presidiária, que corria o risco de pegar pena de prisão perpétua, em celebridade instantânea. Na matéria ‘Volta ao Brasil a capixaba que derrubou o governador de Nova York’ (Estado de S.Paulo 24/3/2008), ficamos sabendo sobre as condições de viagem da deportada, suas finanças e a expectativa da família.

A Folha Online (24/03/2008), preferiu um enfoque um pouco mais apimentado. Na matéria ‘Cafetina diz sentir pena de prostituta que saía com governador de NY’, relata o comentário que ela fez aos jornalistas:

‘`Vou esclarecer toda a verdade´, disse Andréia no saguão do aeroporto. `Lá fora todo mundo é corrupto´, completou. Assediada pela imprensa, a cafetina disse: `Eu amo todos vocês´, sem dar entrevista. Segundo a Polícia Federal, ela preencheu um formulário sobre sua deportação e foi liberada. De acordo com o tablóide nova-iorquino Daily News, que a acompanhou no vôo até São Paulo – vôo esse em que também estava Pelé –, Andréia disse sentir `pena de Ashley Alexandra Dupre, a prostituta de 22 anos que tinha encontros com Spitzer´’.

Os dois casos deverão continuar rendendo matérias na próxima semana. A torturadora goiana, com toda certeza, terá vida mais curta na mídia. Se não houver mais crianças para denunciar maus-tratos, a mídia vai perder o interesse. Já a prostituta cafetina terá vida mais longa. Além do prometido livro, podemos esperar fotos explícitas na Playboy, que não perde chance de explorar a ‘sensualidade’ feminina e o voyeurismo de seus leitores.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/03/2008 Hélcio Lunes

    Cara jornalista: Digite no Google apenas duas palavras, ‘loura egua’ e você encontrará mais exemplos de ‘mulheres bandidas’ abordadas pela mídia!

  2. Comentou em 27/03/2008 Marcelo Ramos

    É, mais um conceito ficou relativizado. Quem é mais bandido, o jornalista que plantou a história no NYP ou a mulher, que agora conseguiu contrato com a Playboy? Engraçado, o povo não percebe mas está sendo enrolado. Existe falta de conteúdo, então a gente cria. Pensei que isso fosse tarefa da publicidade, não dos jornalistas.

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