Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > ENTREVISTA / MARCOS DE CASTRO

Na leitura, o caminho do bom texto

Por José Reinaldo Marques em 24/04/2006 na edição 378

Professor de Português, escritor, tradutor e jornalista há mais de 40 anos, Marcos de Castro – licenciado em Letras Clássicas pela Faculdade Nacional de Filosofia da antiga Universidade do Brasil – considera a leitura um hábito essencial. Seu grande sonho, diz, é ver a maioria dos jovens brasileiros interessada nas obras dos grandes autores nacionais.

Pensando nisso – e atendendo a um apelo do amigo Moacir Japiassu, também jornalista e escritor – Marcos lançou recentemente o livro Caminhos para a leitura, que reúne 25 artigos com biografias e antologias de autores como Machado de Assis, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade e Aluízio Azevedo. Sua entrevista:

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Desde quando a leitura é um item básico na sua vida?

Marcos de Castro – Nasci numa casa que tinha estantes espalhadas por todos os cômodos e livros do chão até o teto. Então, eu me habituei a ler desde pequeno. Nessa ocasião, morávamos em São Paulo. Meu pai era carioca, mas formou-se em Engenharia e foi trabalhar em ferrovias. Ao longo da linha, foram nascendo os filhos: eu em Uberaba, outro em Campinas, outro em Franca.

Quando foi sua aproximação com o jornalismo?

M. de C. – Eu estudava Letras Clássicas, na velha Faculdade Nacional de Filosofia, e precisava ganhar um dinheirinho. Na época, não pensava em ser jornalista, mas pedi a um cunhado, que trabalhava na Tribuna da Imprensa, que me conseguisse um lugar de revisor. Embora não soubesse aqueles sinais e convenções, tinha condições de fazer o trabalho. 

Então a revisão foi a sua porta de entrada na imprensa?

M. de C. – Sim. Meu primo me apresentou ao Gabriel Chaves de Melo, que era o chefe da revisão da Tribuna e estava também assumindo a direção de redação (naquele tempo não se usava o termo editor) da revista Maquis, do Amaral Neto. Ele estava com um arquivo fotográfico bagunçado e perguntou se eu não queria ajudá-lo. Não havia salário, mas teria um pró-laborezinho, ou coisa assim. Quando comecei a trabalhar, em 1958, o Amaral Neto lançou O Brasil em Jornal, sobre História, em que a gente publicava o fato como se estivesse ocorrendo naquele momento, algo como ‘Frota de Cabral avista novas terras e o Monte Pascoal’. Era uma imitação do francês Le Journal de Monde. Fez muito sucesso e tinha uma redação de elite.

Quem eram seus colegas?

M. de C. – Lá estavam craques como Cláudio Soares, que era professor de História e jornalista de altíssimo nível; Rubem Azevedo Lima, que tinha acabado de ganhar 400 mil cruzeiros num programa de televisão famoso da época, O céu é o limite, respondendo sobre história do Rio de Janeiro; e o Zuenir Ventura, que foi meu colega de faculdade. Trabalhei lá por uns cinco ou seis meses, até que um dia apareceu o Carlos Lemos, no início de 1959. Ele estava completando a grande reforma gráfica e editorial do Jornal do Brasil, que foi – acho eu – o passo mais importante da imprensa brasileira no século 20, com Odylo Costa, filho à frente. Lemos fora nomeado chefe de Esportes e foi lá buscar Cláudio Soares, com quem eu tinha trabalhado na Tribuna.

Eles o levaram para o JB?

M. de C. – O Cláudio recusou o convite. Era professor de História em dois ou três colégios e, à tarde, ainda tinha o trabalho na Tribuna da Imprensa. Então, virou-se para o Lemos e disse: ‘Eu não posso trabalhar de noite, mas, se você quiser, leva esse garoto aqui, o Marcos, que está começando. Acho que ele tem condições para o cargo’. Acabei fazendo o caminho inverso da grande maioria dos jornalistas: em vez de repórter, virei logo copidesque, que tinha a função de reescrever toda a matéria.

O Jornal do Brasil tinha o padrão gráfico determinado pelo Amílcar de Castro – grande artista e diagramador maravilhoso – que nos obrigava a fazer lead e sublead. O JB criou também o sublead porque antes eram dois blocos de cinco linhas, uma diagramação horrível, totalmente verticalizada. Reescrevíamos inteiramente os textos, em primeiro lugar, para adaptá-los ao projeto gráfico; depois, porque os repórteres, realmente, não eram de alto nível. As matérias chegavam cheias de erros, precisando de muito mais do que o que hoje se chama de uma ‘copidescada’.

E como foi a sua passagem pela redação da revista Realidade?

M. de C. – O período de dois anos (1967-1969) em que trabalhei na Realidade foi o melhor de minha carreira, se é que se pode dizer que tenho uma carreira. Lá, era dignamente remunerado para fazer apenas uma reportagem por mês, trabalhei com gente como José Hamílton Ribeiro e Luiz Fernando Mercadante e ganhei um dos meus prêmios Esso, na categoria Informação Científica (1969). O outro, de Reportagem Esportiva, ganhei no JB (1963), numa parceria com meu saudoso companheiro Dácio de Almeida. Pela Realidade, viajei muito e fui o único repórter brasileiro a entrevistar Chiang Kai-Chek, ditador de Formosa – que hoje os jornais chamam colonialisticamente de Taiwan, quebrando uma tradição de mais de 400 anos na língua portuguesa.

No seu mais recente livro, Caminhos para a leitura, você diz que pretende ajudar os jovens jornalistas a conhecer os clássicos da literatura brasileira. Como espera alcançar este objetivo?

M. de C. – Acho a leitura essencial para o jornalista, que, afinal, vive das palavras. Ninguém escreve bem se não lê os bons autores de sua língua. E um bom redator não pode deixar de ler os grandes mestres, como Machado de Assis e José de Alencar. Se você pegar Machado, por exemplo, vai ter toda a vida do Rio antigo e conhecê-lo muito melhor do que num chato livro de História. Com escritores como ele, o cidadão mergulha fundo na história da cidade e do país.

O que considera mais interessante em seu livro?

M. de C. – Ele tem um pequeno estudo – não é crítica, que eu não sou crítico literário – sobre cada autor. A esse pequeno estudo, acrescento uma antologia, um trecho de cada escritor. Acho que isso pode levar os jovens a se reencontrarem com a leitura. Sobretudo, também, porque os críticos literários acham que a obra literária é uma coisa inteiramente à parte, que não tem nada a ver com a biografia do autor.

Acho muito importante, por exemplo, o sujeito que lê o nosso grande Lima Barreto saber que ele era negro, suburbano, pobre, bêbado e louco, duas vezes internado no hospício onde seu pai já tinha estado, na Praia Vermelha, diante do que é, hoje, o Iate Clube Brasileiro.

A idéia foi mesmo do romancista Moacir Japiassu?

M. de C. – Ele é culpado pela existência do livro porque tinha uma bonita e crítica revista chamada Jornal dos Jornais. Quando foi lançar o nº 1 da publicação, o Japiassu me telefonou, dizendo: ‘Marcos, eu quero que você faça um artigo por mês sobre um escritor de língua portuguesa. Sabe por quê?’ – e aí ele repetia o que sempre digo – ‘Porque os jovens não estão lendo nada. Eu quero que, através da nossa revista, eles comecem a penetrar no espírito do autor, para que, a partir daí, se interessem pelos livros desses autores.’ Escrevi durante quase dois anos para a revista. Quando ela fechou, falei com a Luciana Villas-Boas, da Record, e ofereci os artigos. Ela disse: ‘Tem 21 artigos. Faz mais quatro que a gente publica esse livro.’

Seu penúltimo livro, A imprensa e o caos na ortografia, sugere que os textos jornalísticos também estão ruins.

M. de C. – Além de ruins, estão coalhados de erros. Por exemplo, acabo de ler uma matéria em que a repórter se refere à roda dos expostos, onde as mulheres pobres abandonavam crianças. A repórter diz que esse recurso já existia no século 19, como está – segundo ela – escrito no conto ‘Relíquias de casa velha’, de Machado de Assis. Ora, ‘Relíquias de casa velha’ não é um conto, é um livro de contos.

Quais são, como você diz, as principais batatadas da imprensa com o idioma?

M. de C. – Em A imprensa e o caos na ortografia, apresento uma coleção de 70 a 80 batatadas. Como a expressão ‘vítima fatal’. Fatal é um adjetivo que significa ‘que mata’. Assim, uma doença fatal é uma doença que mata. Ora, a vítima não mata, fatal é o acidente.

O que acha de se incorporar à língua vocábulos de outros idiomas?

M. de C. – Quando necessários, vocábulos de outros idiomas enriquecem uma língua. Por exemplo, quando o abajur chegou aqui, não tínhamos uma palavra para ele. A palavra criada em função da tecnologia que vem de fora é aceitável. Agora, acho absolutamente desnecessária a expressão delivery, uma vez que temos a tão comum entrega em domicílio. 

O que isso traz de ruim?

M. de C. – É ruim por ser absolutamente inútil. Outro dia chegou aqui um rapazinho fazendo entrega de supermercado e dizendo que era o ‘delivéri’, deturpando a pronúncia. Ele não tem obrigação de saber inglês. Estamos por aí com essa estupidez de delivery, um termo absolutamente inútil forçado pelo comércio, que quer ser copiador dos americanos. A imprensa contribui por não fazer uma triagem, não usar apenas os termos essenciais. A Economia importou muitos vocábulos estrangeiros.

Você assina a coluna ‘Boca-de-cuia’ no Jornal dos Sports. Desde quando tem atração pela crônica esportiva?

M. de C. – Na grande imprensa, eu comecei na editoria de Esporte, trabalhando com uma equipe de primeiríssimo nível: o editor era Carlos Lemos, o subeditor era Janio de Freitas e o time de copidesques tinha o Sérgio Noronha e o Fernando Horácio. Em seguida, incorporou-se à equipe o Armando Nogueira. Quando ele entrava em férias, eu era chamado para interino da coluna, que se chamava ‘Na grande área’. Desde então tenho essa quedinha pelo esporte em geral, particularmente pelo Flamengo.

Qual é o cronista esportivo cujo texto você mais admira? Por quê?

M. de C. – Gosto muito do Armando Nogueira, que acabo de citar e que tem um texto primoroso, e também do Fernando Calazans, que é um sujeito que você logo percebe que conhece o idioma, que lê e sabe escrever. Isto é muito importante para mim.

No artigo ‘Carrinhos e malas’, para o JS, você critica o fato de os comentaristas esportivos abusarem de termos impróprios, principalmente na TV. A imprensa esportiva comete muitas batatadas?

M. de C. – Tanto quanto as outras editorias. Ela não é nem melhor nem pior do que a imprensa da área policial ou de política. Acho que ela tem a mania de repetir velhas coisas, como pelota e árbitro, quando é muito mais fácil você falar bola e juiz. E há os que querem seguir uma coisa rígida, a denominação técnica oficial; então, dizem ‘o assistente’. Por que, se é mais simples transmitir para o leitor ou para o telespectador a expressão ‘bandeirinha’? 

Como você avalia a participação do jovem brasileiro na política?

M. de C. – A ditadura deixou, até hoje, seqüelas muito graves nesse sentido. Acho que o jovem brasileiro não participa como no tempo da campanha ‘O petróleo é nosso’ e de muitas outras que surgiram. Pouco a pouco, porém, com a democracia estabelecida e estratificada no País, acho que a tendência é melhorar cada vez mais, cada vez o jovem participar mais.

Você gosta do jornalismo político nacional?

M. de C. – Gosto. Não sei se é saudosismo ou um pouco de velhice, mas lembro que o Jornal do Brasil tinha colunistas como o Castelinho (Carlos Castelo Branco) e o Heráclito Sales, que eram não só homens de grande saber, como amavam seu idioma, conheciam profundamente sua língua; enfim, eram homens de cultura. Acho que a nossa crônica política caiu um pouco de lá para cá. Castelinho era tão hábil que, mesmo no auge da ditadura, conseguia usar as entrelinhas de sua coluna.

O que você acha que provocou essa queda de qualidade nas colunas políticas?

M. de C. – Acho que é a falta de leitura. Hoje, você não tem um colunista do nível do Castelinho ou do Heráclito. Ou ainda, antes deles, do velho Prudente de Moraes, neto, que foi Presidente da nossa ABI e se assinava Pedro Dantas. Ele era um cronista político finíssimo, de altíssimo nível. Posso juntar a Heráclito Sales e Castelinho o nome de Pedro Dantas, seria uma injustiça se não juntasse o nome dele.

O multiculturalismo é um tema que vem sendo muito debatido atualmente. Você acha que os veículos de comunicação dão a devida atenção ao assunto?

M. de C. – Nós temos hoje nos jornais os segundos cadernos, coisa que a reforma do Jornal do Brasil fundou na imprensa. O ‘Caderno B’ foi o primeiro deles, até então não existia isso. E, a partir dele, todo grande jornal do país tem o primeiro caderno – com notícias de política, economia, polícia, esportes etc. – e o segundo – com lazer e cultura. Essa criação do Reinaldo Jardim é uma criação do Jornal do Brasil na época da reforma. Acho que os assuntos culturais estão, razoavelmente, bem tratados nesses cadernos. Além disso, os jornalões têm também suplementos literários que tratam, quase que exclusivamente, de livros.

Em que medida o jornalista deve respeitar as diferenças culturais?

M. de C. – Na medida mais ampla possível. Acho que diferenças culturais têm que ser respeitadas sobre qualquer hipótese. O respeito a uma diferença cultural indígena, negra ou qualquer outra é uma coisa importantíssima, fundamental. Mas há coisas que acho uma perda de tempo, como o que fez um ex-secretário de Cultura do município – com grande boa vontade, tenho certeza –, que mudou o nome de Secretaria de Cultura para Secretaria das Culturas.

Que tipo de lição a imprensa vai tirar de um episódio como o das charges sobre Maomé?

M. de C. – Acho que a lição básica é que tudo tem seu limite. Há um limite muito delicado quando você agride a crença das pessoas, desrespeita sua fé. Você está atingindo um campo perigoso, e é injusto mexer com esse tipo de sensibilidade, que tem de ser respeitado.

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Repórter do ABI Online

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