Sábado, 17 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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FEITOS & DESFEITAS >

Nada pior do que o desencanto

Por Luiz Carlos Santos Lopes em 04/08/2009 na edição 549

Entendo a decepção de muita gente com o Partido dos Trabalhadores. Plínio de Arruda Sampaio, por exemplo, advogado, ex-deputado federal pelo PT-SP (1985-1991) e consultor da FAO (Organização da ONU para a Agricultura e a Alimentação), é um dos que abandonaram as fileiras do PT por sentir o descolamento do partido daquilo que seus militantes tanto queriam: ‘um programa de construção do socialismo democrático; preponderância de gente do povo entre os seus fundadores; subordinação da cúpula partidária às decisões dos núcleos de base’. Inconformado, Plínio escreveu o artigo ‘Por que não mais o PT?’ (ver aqui), no qual revela a sua insatisfação porque nenhum dos seus sonhos, ao longo de anos de militância política ao lado do PT, se concretizou.

‘O socialismo tornou-se mera referência retórica; a consulta às bases, uma ficção; e, a cada renovação dos quadros dirigentes, menos gente do povo é eleita para os postos de comando.’ E tudo isso, diz ele, aconteceu depois da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. ‘Para ganhar as eleições, tanto Lula quanto o PT mentiram e, uma vez no poder, se afastaram das propostas de campanha e seguiram outros caminhos.’

E que caminhos! Hoje em dia, para manter o que chama de ‘interesses do governo’, o presidente não hesita em fazer alianças com o que há de pior na esfera política nacional, riscando do mapa o seu passado de luta e o histórico empenho do seu partido por uma política de melhor qualidade. Um exemplo desses estranhos consórcios é a recorrente mediação de Lula para salvar o senador José Sarney (PMDB-AP) do seu suposto envolvimento na mais cabeluda crise já vista no Senado Federal. Tudo isso para não perder o apoio dos peemedebistas na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobrás.

Dar o troco em 2010

Como revelam Valdo Cruz e Maria Clara Cabral (Folha de S.Paulo, sucursal de Brasília, em 27/07/2009), um assessor presidencial afirmou que ‘seu chefe não quer dar motivos para que o PMDB no Senado tenha uma posição hostil aos interesses do governo’.

Ainda estão muito vivos em minha lembrança os tempos em que Lula, ainda líder sindical, empunhava a bandeira da moralidade e, em nome dela, chamava o então presidente da República, José Sarney, de ladrão. Lembro também do PT quando era a representação do bem contra a ditadura militar (1964-1985). Agora, virou um partido acovardado, obrigado a conviver e ser conivente com a corrupção, o compadrio e o nepotismo – mazelas que advieram com a chamada ‘redemocratização’ através de políticos inescrupulosos, com os quais o governo petista troca afagos em troca de apoio. Tudo, aliás, de acordo com o que pensa certo ator da Rede Globo: ‘Política é meter a mão na m…’ Estava certo Jefferson Péres (1932-2008) quando disse, num discurso em 30 de agosto de 2006, que tudo isso ‘é a putrefação moral deste país’.

Tenho certeza que a indignação com tanta desfaçatez não é só minha. Posso garantir que o mesmo sentimento vibra no coração de milhões e milhões de brasileiros inconformados com a consagração da imoralidade como norma de conduta na vida pública brasileira, imposta por esses senhores que comandam este triste país. Para evitar que eles continuem demolindo nossos valores morais, só há um recurso: dar o troco em 2010. Ou então, continuar espojando no lodo com eles…

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Jornalista, Salvador, BA

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