Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > RESCALDOS DO DESASTRE

Não precisávamos

Por Suzy Monteiro em 14/08/2007 na edição 446

Eu poderia ter passado sem ter acesso aos diálogos contidos na caixa-preta do Airbus da TAM. Eu poderia, acredito que você, leitor, poderia, assim como milhares de pessoas que os viram estampados em todas as manchetes, todas as agências da internet, todos os telejornais. Sinceramente, não mudou minha idéia do que deve ter sido o horror dos últimos momentos daquelas pessoas e não deve ter mudado a idéia de ninguém. Ninguém imaginou que as elas estivessem dormindo, ou rindo, ou que não percebessem que estavam na pista final.

Não sou especialista em aviação, não entendo nada de avião e, por isso, poderia ter passado sem saber o conteúdo do diálogo. Para nós, que estamos em terra mais ou menos firme, a divulgação desses diálogos só serviu para aumentar o horror. Se é que isso era possível. Acompanhamos, quase ao vivo, o acidente. Quase retiramos, junto com os bombeiros, entre uma xícara de café e outra, os corpos que ali estavam. Ouvimos todas as versões de todos os especialistas possíveis e imagináveis. Incrível como existe gente que entende de aeronaves, aviação e coisas afins. É acontecer um acidente e pipoca gente de todo canto do mundo.

Divulgar, em cadeia nacional, pode ter vendido mais um pouco de jornal, aumentado um pouquinho a audiência, ter rendido uma boa foto. Não é proibido – a liberdade de expressão é direito constitucional. Mas existe uma diferença entre direito e ética, principalmente em respeito às famílias daquelas pessoas.

Um mínimo de respeito

Um familiar de vítima ainda não identificada disse que jamais imaginou ver o que estava vendo nestes dias. As famílias quase chegam a comemorar quando recebem o telefonema do Instituto Médico Legal, avisando que mais um corpo foi reconhecido, tamanho o sofrimento de ficar ali, num hotel, com a vida suspensa, sem poder dar, no mínimo, uma cerimônia digna para aqueles que amam.

E o pior é que estas vítimas morrem, novamente, a cada dia. A cada nova versão. A cada ‘novidade explosiva’ sobre o caso. Saber do diálogo contido na caixa-preta poderá fazer diferença para a investigação e na possível busca de soluções para o conjunto de erros que levou à tragédia. Pode fazer diferença para o desenrolar das vidas dos familiares das vítimas.

O resto, para mim, parece o tratamento dispensado pela imprensa em Copa do Mundo. Fala-se, comenta-se, divulga-se porque cada brasileiro acredita ser um técnico de futebol. Só que esse acidente não foi nem é um jogo. O conjunto de erros pode ter jogado com a vida das pessoas, mas tudo aquilo é real. Pais perderam filhos, mulheres perderam seus maridos, maridos perderam suas esposas. Futuros foram perdidos. No presente deveria haver, pelo menos, um mínimo de respeito.

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Jornalista, Campos dos Goytacazes, RJ

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