Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO & OPINIÃO

‘Não sois máquinas, homens é que sois’

Por Valdeck Almeida de Jesus em 18/03/2008 na edição 477

É uma utopia falar-se em jornalismo sem opinião. O que se sabe é que a grande mídia, aquela que atinge um estado inteiro, uma região, um país ou o mundo, tem opinião formada sobre o que divulga. E esta opinião influencia, e muito, a opinião pública, que, em última instância, influencia a vida.

A realidade é um mero recorte de um acontecimento que, por obra de engenhosa arte, se torna ‘a realidade’, a verdade, o único ponto de vista incontestável. O perigo mora aí porque quando se diz que o texto jornalístico é neutro, imparcial e objetivo, esquecemos que estas qualidades do jornalismo não existem senão na teoria. Na prática, o olhar de quem escreve, sua história de vida, suas experiências estão impregnados em cada letra, em cada frase. O olhar do veículo fala mais alto até que o olhar do jornalista.

Leitura do mundo, sob o olhar de terceiros, sempre é perigoso, pois se corre o risco de ver o que não existe, de ver pela metade. A saída é fazer leitura crítica, ter acesso a veículos de opiniões diferentes, de interesses diversos. Não se conseguirá chegar à verdade absoluta, pois esta não existe, mas as chances de tornar-se bitolado por um ponto de vista exclusivo diminuem.

O profissional, um ‘técnico’

Já dizia Charlie Chaplin ‘não sois máquinas, homens é que sois’. Nós, homens e mulheres, temos consciência, razão e emoção. Ao invés da preguiça de pensar, devemos exercer o nosso dever de ler bastante, nos informarmos o suficiente antes de emitirmos uma opinião e antes de admitirmos opiniões alheias. Reproduzir pensamentos sem refletir é agir como uma máquina copiadora.

A opinião de cada cidadão, especialmente a de quem ‘faz a história todos os dias’, o jornalista, deveria ser obrigatória, sempre! Afinal, de que valem as notícias com aparência de relatórios? Informar deveria ir além de relatar. Deveria, sempre, contextualizar, discutir os ‘por quês’ e propor novas atitudes diante da vida.

O modelo de jornalismo brasileiro é copiado dos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Ali, o jornalismo opinativo e o jornalismo que discute política quase não existem. Naqueles países, pratica-se o jornalismo ‘imparcial’, como aqui; pratica-se o jornalismo ‘formatado’ (lead, pirâmide invertida etc.), que mais parece um modelo de fabricação de textos. Alega-se a urgência na construção de matérias, padronização para facilitar o trabalho do jornalista etc. Mas o que se nota, com este tipo de prática, é a transformação do profissional num mero ‘técnico’. Qualquer pessoa consegue ‘fazer’ uma notícia. Para exercer a profissão de jornalista, no entanto, é necessário graduação em nível superior.

O que há, é o ‘agora’

Faculdades e universidades de todo o país ‘formam’ jornalistas todos os anos e muitos dos formandos jamais encontrarão uma vaga para exercer a profissão. E, com a grande oferta de profissionais ao mercado, o salário oferecido não é dos melhores. No exercício da profissão, obrigado pela urgência e pelas circunstâncias a produzir textos como se fosse uma máquina, o jornalista não tem tempo de se reciclar nem de se aprofundar nas matérias que realiza.

Num mundo globalizado, massificado, controlado pelo capitalismo, o jornalista também é influenciado a se tornar um indivíduo sem opinião, sem ponto de vista. Quando algum profissional da comunicação mais lúcido ou mais corajoso emite uma opinião, esta opinião quase nunca aparece nos jornais, na mídia como um todo. Afinal, não interessa ao sistema conscientizar cidadãos, fazer o povo pensar.

Silêncio! A indústria da notícia está trabalhando. Daqui a pouco temos notícias ‘novas’, desconectadas umas das outras. Não há contexto, não há começo, nem fim. O que há, sempre, é o ‘agora’. A eternidade está em suas mãos. Esqueça a matéria de ontem. Hoje tudo é novo. Amanhã não existe.

******

Estudante de Jornalismo, Salvador, BA

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/03/2008 Fabio Daflon

    Vivemos no presente absoluto e ‘inculto’ ou na cultura do desconhecimento. Mas ainda existe jornalismo de bom nível(ótimo) com caras como Fausto Wolff(jbonilne); Jãnio de Freitas (folha online) e Jean Scharlou na revista eletrônica O Lobo, também de Fausto Wolff; mas ler jornal hoje em dia é igual a garimpar pepitas e separa-las da ganga bruta – digo bruta de propósito. O presente absoluto vem da pressa, da ejaculação precoce, da parada no caminho frente às encruzilhadas. Não vejo a questão apontada por Valdeck apenas como um problema do capitalismo, no comuniismo a imprensa também é controlada. Recentemente li uns 12 livros da obra de Vargas Llosa, que além de grande e reconhecido escritor também é jornalista. Llosa é um liberal no sentido clássico, como tivemos vários na Velha República no Brasil. Seu livro ‘A linguagem da paixão’ é uma aula de pragmatismo e bom jornalismo. Na vertente à esquerda, recomendo a leitura do livro ‘ A imprensa livre de Fausto Wolff’, de quem sou leitor e fã confesso.
    Embora postos superficialmente, concordo com os comentários de Valdeck, escritor e personalidade importante para o país.

  2. Comentou em 26/03/2008 Fabio Daflon

    Vivemos no presente absoluto e ‘inculto’ ou na cultura do desconhecimento. Mas ainda existe jornalismo de bom nível(ótimo) com caras como Fausto Wolff(jbonilne); Jãnio de Freitas (folha online) e Jean Scharlou na revista eletrônica O Lobo, também de Fausto Wolff; mas ler jornal hoje em dia é igual a garimpar pepitas e separa-las da ganga bruta – digo bruta de propósito. O presente absoluto vem da pressa, da ejaculação precoce, da parada no caminho frente às encruzilhadas. Não vejo a questão apontada por Valdeck apenas como um problema do capitalismo, no comuniismo a imprensa também é controlada. Recentemente li uns 12 livros da obra de Vargas Llosa, que além de grande e reconhecido escritor também é jornalista. Llosa é um liberal no sentido clássico, como tivemos vários na Velha República no Brasil. Seu livro ‘A linguagem da paixão’ é uma aula de pragmatismo e bom jornalismo. Na vertente à esquerda, recomendo a leitura do livro ‘ A imprensa livre de Fausto Wolff’, de quem sou leitor e fã confesso.
    Embora postos superficialmente, concordo com os comentários de Valdeck, escritor e personalidade importante para o país.

  3. Comentou em 24/03/2008 Cláudia L. Moraes

    O texto é muito bem escrito. Valdeck jamais deixa de salientar a importância da boa leitura. Parabéns!

    Cláudia L. Moraes
    Diretora de Secretaria da ASES – Associação dos Escritorers de Bragança Paulista – SP.

  4. Comentou em 24/03/2008 Antonio Cícero da Silva Cicero da Silva

    Meu caro Valdeck, você escreve de toda a alma. Parabéns…

  5. Comentou em 24/03/2008 Sol Britto

    Olá Valdeck,é isso aí estamos vivendo a era do imediatismo,não é mesmo?Parabéns,você deu muito bem seu recado.Aquele abraço,SOL…

  6. Comentou em 24/03/2008 Sol Britto

    Olá Valdeck,é isso aí estamos vivendo a era do imediatismo,não é mesmo?Parabéns,você deu muito bem seu recado.Aquele abraço,SOL…

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