Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > LINHA DE PASSE

No ar, um basta ao despotismo

Por Eduardo Maretti em 25/04/2006 na edição 378

Na segunda-feira (24/4), o programa Linha de Passe, da ESPN-Brasil, foi palco de uma cena inesquecível. A propósito da queda do agora ex-técnico do Palmeiras, Émerson Leão, depois da catastrófica goleada de 6 a 1 para o Figueirense, Juca Kfouri e Paulo Vinícius Coelho, o PVC, debatiam o alviverde e sua conjuntura. Davam uma aula a respeito desse clube quatro vezes campeão brasileiro, o único que batia o grande Santos de Pelé, e situavam a atual crise do Palestra jornalística, política e futebolisticamente.


Para quem se acostumou com os debates do canal, era um prato cheio. Eis que, de repente, a ótima discussão travada com a competência técnica de PVC e o humor inteligente Kfouri foi interrompida pela grotesca intervenção do chefe José Trajano, useiro e vezeiro na arte de humilhar subordinados no ar, como fez mais de uma vez com Paulo César Vasconcellos (hoje no Sportv); ou de fazer reportagens ridiculamente emocionadas nas arquibancadas do Rio de Janeiro quando seu falido América chega a algum jogo decisivo.


Com a sutileza de um elefante, ignorando inclusive a notícia do dia (a queda de Émerson Leão), o chefe botou um basta no assunto Palmeiras (do tipo quem manda aqui sou eu), dizendo que aquilo não era programa para discutir política. Uma cena que, pelo menos a mim, causou constrangimento – sentimento semelhante ao que senti ao assistir às experiências humilhantes de Vasconcellos, que levava os cala-bocas e tinha que ficar quieto.


Título imaginário


Ou não tinha? Pois o apresentador do Linha de Passe, o simpático Paulo Soares, conhecido como Amigão, não ficou quieto. De repente, para a perplexidade geral, inconformado com a atitude recorrente de José Trajano, levantou-se e deixou o programa em pleno ar, enquanto o chefe, atônito, chamava os comerciais. Na volta, não estavam no estúdio nem o apresentador nem Trajano. Ironicamente, Juca Kfouri – ladeado por PVC, ambos acompanhados de Márcio Guedes e Fernando Calazans – levou o programa até o fim no improviso, e ainda muito se falou de Palmeiras.


Quiçá todos os déspotas que assolam a humanidade e o jornalismo tivessem uma resposta como a que deu Paulo Soares. Cabe registrar quão curioso é o fato de toda a cena ter acontecido a partir da discussão sobre a queda do técnico Leão, personalidade reconhecidamente autoritária. Uma coincidência didática. Sem o Amigão, o Linha de Passe perde muito. Sem Trajano, talvez nada.


O tom conciliatório com que Kfouri terminou o programa foi do tipo ‘semana que vem tudo estará acertado’. Claro, o assinante tinha que ter uma resposta ao tumulto e à grosseria. Para a ESPN Brasil, porém, esse tipo de cena folclórica mas nada profissional pode ser, a longo prazo, catastrófico.


Não sei o motivo que levou Paulo César Vasconcellos, Claudio Carsughi e Milton Leite a debandarem da ESPN Brasil. Mas se o canal continuar a sofrer desfalques importantes como esses, vai chegar um dia em que José Trajano estará sozinho, com a camisa do América, na frente do espelho, comemorando um título imaginário que nunca mais virá. E os ex-assinantes do canal, nesse horário, sem opção, assistirão ao enfadonho e insípido show global do Galvão Bueno. Ou, como eu, desligarão a TV.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/11/2009 Rudy Tolezzo

    É, levar carcada de chefe é horrível mesmo.

  2. Comentou em 11/03/2008 sandro santos

    Ontem trajano deu mais uma aula de grosseria e falta de argumentos em um embate com o Juca , falando do goleiro Marcos o chamou de poddre e medroso e comparou seu caso ao do pimenta neves , é triste ver este tipo de jornalista ser cultuado como independente…foi no progrma linha de passe dia 10/03/08

  3. Comentou em 25/04/2006 Juca Kfouri

    Gostaria de encerrar a temporada de pancada em José Trajano.

    É natural que a maioria defenda o elo mais frágil.

    E é a pura verdade que Trajano é um caro explosivo, às vezes mal-educado.

    Tanto quanto é um senhor jornalista.

    Que inventou um estilo de fazer jornalismo na TV fechada, com poucos recursos.

    Que foi, na opinião de Matinas Suzuki, o melhor editor de esportes da ‘Folha de S.Paulo’.

    Temperamental, sem dúvida, capaz de jogar para o alto ótimos salários, sempre que divergiu.

    Um profissional como existem poucos hoje em dia.

    Não há nenhuma dúvida de que foi lamentável o que houve ontem no Linha de Passe e o primeiro a lamentar foi ele mesmo, arrasado ao perceber que havia magoado um companheiro que admira.

    Conheço-o há anos, desde 1974, quando ele era repórter de ‘Placar’ no Rio e eu chefe de reportagem, em São Paulo.

    Divergimos mil vezes, brigamos no ar, no ‘Cartão Verde’ e no ‘Linha de Passe’, e nunca nos afastamos.

    Brigamos até por escrito, duramente, na antiga revista ‘Bundas’, o reverso de ‘Caras’, lançada por Ziraldo.

    Nunca ficou um pingo de ressentimento.

    Porque ele tem uma coisa rara, que as pessoas não estão acostumadas a ver: é autêntico.

    E como todo passional, é incrivelmente sentimental e solidário.

    Incapaz de guardar rancor, até mesmo de quem merece.

    E, em tempo, ele não é meu patrão, como alguns supõe, e é tão meu chefe como fui dele.

    Sem que a hierarquia influencie em nossas relações, em nossas convergências (na maioria das coisas essenciais) ou divergências (poucas e acessórias).

    Depois de ler tantos comentários, achei que tinha a obrigação de dizer o que está dito.

    Quem dera este país tivesse milhões de Trajanos.

    Estaríamos no Primeiro Mundo.

  4. Comentou em 25/04/2006 Rosa Maria Fabbrini

    Parabéns Eduardo Maretti!
    Perfeita a sua análise sobre o que ocorreu ontem no Linha de Passe! Irretocável!

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