Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 20 E 21/01

No Mínimo

23/01/2007 na edição 417

SP NO BURACO
Ricardo Kotscho

A São Paulo, com carinho, 19/01/07

‘Quanto mais viajo, e no ano passado dei várias voltas pelo Brasil, maior é a sensação de felicidade ao retornar para minha cidade. Por isso, fico triste quando as pessoas falam mal dela.

Pode parecer esquisito fazer esta declaração de amor exatamente no momento em que São Paulo ainda está consternada com o desabamento e as mortes nas obras do metrô em Pinheiros, bairro onde morei boa parte da minha vida.

Vai ver que é por isso mesmo. É nessas horas difíceis, como se fosse uma pessoa querida, com tantos dramas e transtornos causados pela tragédia, que São Paulo mais precisa do carinho de seus filhos, os que aqui nasceram ou para cá vieram em busca de uma vida melhor.

Blasfemar não resolve, só faz mal para nós mesmos.

Como não acredito que sejamos mais de dez milhões de masoquistas os que neste canto do mundo vivemos, e ninguém é obrigado a ficar, todos ganhariam se dedicassem parte de seu tempo a pensar no que cada um poderia fazer para tornar a convivência por aqui mais agradável e menos insegura em vez de ficar xingando o destino e caçando culpados pela desgraça.

A começar por nós mesmos, repórteres. Só na caudalosa cobertura do pós-tragédia ficaríamos sabendo que:

1) há vários meses moradores de imóveis ao longo de todas as dez estações da Linha Amarela estavam assustados com rachaduras e trincas provocadas pelas obras do metrô;

2) dias antes do desabamento já havia sinais de sérios problemas na estação Pinheiros e ninguém da vizinhança nem do governo foi alertado para o perigo pelas empreiteiras responsáveis.

Assim como o PCC já existia há muito tempo, mas só ganhou as manchetes quando a bandidagem botou fogo na cidade no ano passado, os problemas com a obra da Linha Amarela do Metrô apenas despertaram a atenção da imprensa quando a estação Pinheiros implodiu na última sexta-feira tragando sete vítimas.

Se andasse mais pelas ruas e pelos becos e ouvisse mais gente fora dos gabinetes, lá onde moram seus leitores, certamente algum repórter poderia ter descoberto antes o que estava acontecendo nas obras do metrô ou nos presídios paulistas.

Quantas outras armadilhas estarão espalhadas pela cidade nesse momento e nós não estamos sabendo porque a nossa imprensa foi cada vez mais se afastando da realidade do nosso dia a dia?

Como hoje se costuma fazer reportagem sem sair da redação, por telefone ou pela internet, com os jornalistas mais empenhados em cobrir as futricas da eterna disputa político-partidária do que com a vida real, acabamos sendo tão surpreendidos quanto os bombeiros quando soa o alarme.

Depois, não adianta encher os jornais de editoriais e artigos indignados. No tempo devido, caberá à Justiça, consultados os peritos especializados no assunto e as provas técnicas produzidas, denunciar os responsáveis pelo desabamento – não a nós, jornalistas, engenheiros de obras (mal) feitas.

De uns tempos para cá, estamos desenvolvendo esse péssimo hábito de denunciar, julgar e condenar, assumindo ao mesmo tempo o papel de delegados, juízes e promotores, que ninguém nomeou para isso.

Tem dia em que morre mais gente na rotina do nosso trânsito maluco do que foram as vítimas da obra do metrô, e nem por isso a cidade não presta, nem vamos sair pelas ruas tentando fazer justiça com as próprias mãos, caçando os motoristas assassinos que andam à solta por aí.

Poderia eu também estar passando junto à obra quando a cratera se abriu, pois por ali transitava freqüentemente. Por quase trinta anos, morei bem em frente ao local do desabamento, do outro lado do rio Pinheiros, no Butantã.

A barulheira das obras, com explosões freqüentes precedidas do aviso da sirene, começou pouco antes de eu me mudar de lá em 2005, mas não adiantou muito porque uma outra estação do metrô está sendo construída na rua onde moro agora. Parece perseguição, mas nem por isso vou renegar a minha cidade.

Embora não me lembre de alguma vez ter usado o metrô em São Paulo (prefiro andar a pé ou de táxi), trata-se de uma obra importantíssima, vital para a cidade, que já vem com décadas de atraso. Além disso, sempre ouvi falar que o nosso metrô é um dos melhores do mundo, com baixo índice de acidentes.

É muito fácil sair por aí batendo nos nossos governantes passados e presentes, empreiteiras e engenheiros, mas entendo que somos – ou deveríamos ser – todos responsáveis por tudo de bom ou de ruim que acontece nesta cidade, pela nossa ação ou omissão, até porque somos nós que escolhemos os prefeitos e governadores, que por sua vez contratam as empreiteiras encarregadas das obras.

Mas o que se pode esperar de uma população em que a maioria, segundo as pesquisas, nem sabe o nome do prefeito da sua cidade? Está certo que o atual prefeito era apenas o vice do atual governador, mas Gilberto Kassab já está no cargo desde meados do ano passado.

Quem lá vai lembrar do nome do vereador em quem votou nas últimas eleições? Quantos de nós alguma vez participamos de algum movimento em defesa da nossa rua ou do nosso bairro, já nem falo da cidade? Ou já fizemos algum trabalho voluntário, qualquer um, para melhorar a vida dos mais necessitados de ajuda?

No final dos anos 60, na véspera de mais um aniversário de São Paulo, o editor local do ‘Estadão’, que estava com falta de matérias para fechar as suas muitas páginas no feriado, me encomendou uma crônica sobre a cidade.

‘Amo essa cidade com todo ódio’, foi o título que perpetrei, sem perceber que estava apenas repetindo um sentimento até hoje dominante em boa parte de seus moradores. Coisa besta de quem mal tinha completado 20 anos, e ainda achava que jornalista foi feito para chocar a burguesia e arrancar aplausos dos seus colegas.

Nesta semana que antecede a festa de seus 453 anos, São Paulo mereceria não apenas carinho, mas também um pouco mais de respeito de todos nós, tanto por sua belíssima história, que no último século a transformou numa das principais metrópoles do mundo, como também por que é aqui, afinal, de um jeito ou de outro, que continuarão vivendo nossos filhos e netos.

Precisamos acabar com essa paranóia de achar, a cada seis meses, a cada acidente de maiores proporções, enchente ou nova explosão de violência, que o mundo acabou. A vida continua.

Apesar de tudo, parabéns, São Paulo. Tenho muito orgulho de ser o primeiro paulistano de uma família que veio da Europa, ter nascido na Pró-Matre, maternidade próxima à emblemática avenida Paulista e, ainda por cima, ser são-paulino, atualmente morador do Jardim Paulista.

Já fui assaltado e atropelado, já perdi boa parte da minha vida em congestionamentos, já morei na Alemanha, em Curitiba e Brasília, já rodei esses anos todos o Brasil e o mundo, mas meu sonho de uns tempos para cá é ficar por aqui mesmo, de preferência em casa com a família, que não pára de crescer, como a cidade, e agora só tem paulistanos.

Vista da minha janela, a cidade é linda, mesmo em dia de chuva e com helicópteros pairando bem em cima do meu prédio me azucrinando a vida a tarde toda. É a minha cidade.

Só me resta amar São Paulo, sem ódio.’

******************

Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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