Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > CORREIO BRAZILIENSE

Notícias conflitantes em economês

Por Vera Silva em 01/02/2005 na edição 314

Resolvi analisar por que tenho tido a sensação de ler diariamente notícias conflitantes no Correio Braziliense. Mais precisamente as notícias da área econômica que se traduzem em informações e análises das políticas monetária e financeira do governo Lula. Digo conflitantes porque não sou economista, e os analistas e jornalistas econômicos escrevem usando o código do ‘economês’, completamente esquecidos de que a maioria dos leitores não entende esta linguagem. Assim como fazem também muitos psicólogos que falam no código do ‘psicologês’. Estas pessoas, como adolescentes que falam palavrão nos elevadores e nos ônibus, acham que ser diferente é marca de ser indivíduo.

Mas, vamos à economia.

Manchete de hoje (29/1) do CB: ‘Brasil pagou R$ 128 bi de juros só em 2004’. No texto da chamada da manchete fala-se que o aperto fiscal continua a surpreender, pois a economia do setor público é a maior desde 1994, e o pagamento dos juros daria para eliminar o déficit habitacional do país e aumentar 64 vezes os investimentos em saneamento básico. [Isto mais parece uma crítica, sugerindo que o governo deveria não pagar os juros e gastar em habitação e saneamento básico. Uma solução à Argentina? Pelo menos é isso que vai parecer à leitura apressada da manchete que é feita nas bancas de jornal e lida nos telejornais matinais.] Continua a chamada dizendo que a relação entre a dívida pública e o PIB caiu pela primeira vez em 9 anos. Acrescenta que, por causa da expectativa do aumento da taxa de juros, o dólar e a Bovespa caíram. E chama para as páginas 10 e 11.

Lá nas páginas 10 e 11, lemos que o governo federal economizou tanto porque, apesar do aumento dos gastos com os programas sociais, a arrecadação foi recorde e o governo manteve o controle dos gastos. Mesmo assim, os juros da dívida ‘comeram’ 7,29% do PIB, e com o aumento da taxa básica tudo isso foi por terra abaixo por aumentar a conta dos juros, embora o ‘buraco’ tenha sido o menor desde o menor de todos, em 1991. Inesperadamente, porém, houve um corte na reportagem que parou no meio de uma explicação do chefe-adjunto do Departamento Econômico do Banco Central, quando ele estava tentando explicar a necessidade de se analisar estes dados a longo prazo, e o jornalista começava a contrapor os argumentos dos especialistas que dizem ser esta relação (?) um ponto de vulnerabilidade do Brasil.

Mas, num cantinho da página 10, os especialistas – da UFRJ e do Banco ABN-Amro – dizem que o superávit primário deve vir do corte de despesas para ser ideal. E esperam que Lula tenha vontade política para cortar as despesas do setor como fez em 2003 para aumentar o superávit primário para 5% e manter a queda da relação entre a dívida pública e o PIB. Com o que o secretário do Tesouro Nacional não concorda, neste momento: ‘O importante é manter a disciplina fiscal’ [O que é isto? Seria gastar somente o que arrecada?].

Na página 11 se explica que o mercado financeiro entrou em crise porque o governo vai pagar 19,5% de juros às LTN para acalmar o ânimos alterados com o aumento da Selic e os boatos de queda da diretoria do Banco Central (este é o tema do dia na página 2). Mas o especialista da UFRJ diz que em março a inflação vai despencar e os juros vão ser reduzidos.

Fiquei na mesma

Ah, ia me esquecendo: por causa da mensagem austera do Copom, o dólar caiu e o real se valorizou. [Bem, eu pensava que isso fosse bom, mas o tom da matéria é de alarme.]

A página 4 apresenta uma entrevista com o presidente da Fiesp, mostrado numa foto que tem o mesmo tamanho da foto do presidente do Banco Central na página 2. Ele diz que a política econômica precisa ser corrigida porque juros elevados, câmbio baixo e aumento dos gastos públicos eram medidas certas no início do governo, mas agora estão erradas porque o crescimento do PIB vai cair para 3%, e isso não é bom, porque estava sem crescer há 20 anos. Diz que o superávit comercial vai ser menor em 2005, e em 2006 a situação será preocupante, com sacrifício do povo, que vai pagar muito em juros e spread bancário [Caramba, eles agora se preocupam com os sacrifícios do povo. Será coincidência isso aparecer, quando o presidente é originário da classe trabalhadora?]

Afirma que é necessário não só aumentar a arrecadação, mas também diminuir os gastos públicos, mas isso é difícil: previdência, despesas vinculadas obrigatórias pela Constituição. E insiste em dizer que não é só o governo Lula que não é austero; ao longo dos anos os gastos públicos têm aumentado. [A mim parece que ele diz que os bons resultados alcançados não são bons porque, como o governo não conseguiu diminuir estes gastos difíceis, por falta de austeridade, vai tudo despencar em 2006 e o Brasil estará no ‘sal’. Como as perguntas do jornal não avançam para questões específicas sobre como diminuir gastos públicos num país com sérios problemas de distribuição de renda, sem mudar as estruturas que criaram este descompasso e sem fazer o sistema econômico mundial descer o porrete na nossa governabilidade, fiquei na mesma.]

Tarefa-cidadã

Está muito difícil entender o que escrevem os jornais e falam os especialistas. Como administradora das minhas finanças e pagadora religiosa de impostos e taxas que me são cobrados, não tive alteração na minha vida financeira a não ser aquela causada 1) pelo descompasso entre a tal URV e sua aplicação aos preços e 2) pelo câmbio artificial do início do real, que diminuiu minha renda real e que ainda não consegui corrigir. Quanto à famosa carga tributária, continua, pelo menos para mim, do mesmo jeito que sempre foi para os autônomos que, como eu, cumprem a lei. Pago muito porque, como nos condomínios, a taxa inclui a ‘inadimplência e as isenções’ dos ‘melhores’ que nós.

Quer exemplos? Investigando por aí descobri, com surpresa, que os advogados que têm escritórios comuns não precisam se inscrever como autônomos e não pagam ISS nem carnê-leão, como os psicólogos pagam, por exemplo. Descobri que a maioria das empresas (pequenas empresas de médicos, advogados, contadores, engenheiros etc.) que não se enquadram no Simples nem são SAs conseguem, se quiserem, deixar de pagar um tantão de impostos e taxas, usando um chamado lucro presumido. E os profissionais autônomos que nelas trabalham também podem diminuir e muito as taxas e impostos a pagar. Mais dinheiro no bolso de alguns e de forma legal.

Então, como cidadã, gostaria que jornalistas e analistas econômicos encadeassem manchetes, resumos e notícias de forma clara e objetiva para que nós, pobres ignorantes econômicos, pudéssemos avaliar corretamente as políticas de governo. Ou não será isso que a imprensa livre e independente pretende?

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Psicóloga, Brasília

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