Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Noticiológio governófilo

Por Eugênio Bucci em 14/09/2008 na edição 502

‘Caderno de trabalho do governo do Estado de São Paulo.’ Essas palavras vêm na forma de um pequeno carimbo no canto superior direito da capa da revista mensal SP Notícias, que foi lançada há poucos meses. Aqui falamos de seu número 2, que circulou entre julho e agosto. São 50 páginas de ótimo papel, impressão primorosa. A tiragem do segundo número, como se lê na página 5, é de 11 mil exemplares. Um deles está agora em minhas mãos. Chegou pelo correio a um endereço residencial de Brasília, enviado pela administração paulista. O esmero gráfico é notável, mas a finalidade preocupa. A que ‘trabalho’ se presta esse ‘caderno’?


Embora montado segundo preceitos fotográficos e editoriais de uma revista jornalística, o ‘caderno’ traz na alma a vocação da propaganda política. Não que se peçam votos para autoridades do Executivo, longe disso. A propaganda da SP Notícia é de outra ordem. O seu alvo parece ser a construção da imagem positiva no médio prazo, como se fosse uma propaganda prévia – e preventiva –, tentando mostrar que tudo vai muito bem, que São Paulo está em boas mãos, que o governo sabe para onde segue e que o estado avança sem hesitação.


Na capa do número 2, a manchete ‘Trilhos modernos’, em vermelho envernizado, faz a função de abre-alas. Logo abaixo, uma linha fina, em letras menores: ‘Plano de Expansão moderniza trens e aumenta conforto do passageiro’. Ao centro, dominando mais da metade da área da capa, a foto reforça a mensagem. Estamos na cabine de uma locomotiva hightech, logo atrás do homem que opera os comandos. À frente dele, através do imenso pára-brisa, abre-se a paisagem da cidade iluminada. Pontos de luz riscam o espaço, do centro para a periferia, dando a sensação de que o trem viaja em alta velocidade. Os trilhos estão desimpedidos. Próxima parada: o futuro.


Vícios antigos


A capa tem outras quatro chamadas, não menos encorajadoras: ‘Organizações Sociais de Saúde revolucionam gerenciamento hospitalar’, ‘Investimentos em captação de esgoto para salvar mananciais’, ‘Semestre começa com 50 mil vagas de Telecurso Tec’ e ‘Seis meses de preparativos para receber o príncipe japonês’. São Paulo é o eEstado das boas notícias.


No editorial, na página 3, o redator é efusivo. Conta que os trens, como aquele da capa, merecerão um ‘investimento histórico’. Mais à frente, novas comemorações orçamentárias. Na página 24, na ‘reportagem’ sobre a proteção de mananciais, a primeira frase não economiza ânimo (nem tamanho): ‘O investimento é gigante’. Graças a tanto, será possível ‘diminuir a carga do esgoto despejada nas duas represas’ (Billings e Guarapiranga). A ‘matéria’ prossegue: ‘O Programa Mananciais conta com um orçamento de fôlego, nunca antes disponível’. Observe o leitor que a expressão ‘nunca antes’ vai-se tornando um cacoete suprapartidário na história deste país – ou deste estado.


SP Notícias foi rodada na Imprensa Oficial. Afirma que oferece conteúdo informativo. Esse conteúdo, porém, tem por missão convencer o leitor de que o governo estadual é um portento. É o caso de perguntar: há legitimidade nessa missão propagandística? Ou, em termos menos vagos: é positivo que, valendo-se das instalações de órgãos públicos, ocupantes do Poder Executivo, alegando informar o cidadão sobre as obras em andamento, pratiquem o proselitismo? É justo que recursos públicos, que são de todos, sirvam para enaltecer a visão de alguns – os que estão no governo – em detrimento da visão dos demais? Isso é democrático?


A todas essas indagações penso que a resposta é não.


Que fique bem claro: existem informações úteis na revista SP Notícias. Acontece que, nela, as informações estão subordinadas à finalidade do convencimento político. Seu objetivo indiscutível é trabalhar apenas a informação que ajude a angariar simpatia para o governo – e nisso reproduz os velhos vícios da comunicação pública pátria.


Má notícia


A tentação do auto-elogio com a ajuda de recursos oficiais é uma unanimidade de chumbo na administração pública brasileira. Em todos os governos, em todos os níveis, em todos os partidos. Tanto que se pode aqui arriscar uma generalização: todo governante, posando de vítima da imprensa, de mártir, de mutilado simbólico da guerra da informação, alega que o governo tem, sim, o direito de transmitir à sociedade a sua própria versão de si mesmo, mesmo que para isso precise valer-se de seus próprios meios, ou seja, dos meios públicos. ‘Só assim vou emplacar a minha agenda positiva’, raciocina o governante, que, em geral, superestima os efeitos de sua propaganda. E aí vamos nós. Às vezes de modo acintoso, outras vezes de modo mais discreto, a máquina pública põe-se a trabalhar em prol da imagem de políticos.


No caso da revista SP Notícias, ela está mais para discreta do que para acintosa. Faz o gênero chapa-branca chique, com suas ‘notícias’ favoráveis. Culta, evitando vulgaridades e chavões panfletários, resvala no pedantismo. Daí que se pode dizer: ela está mais para um ‘noticiológio’ tendencioso do que para um comício desabrido. Não obstante, padece do mesmo mal – e, tristemente, confirma a regra.


O pior é que esse tipo de coisa tem eficácia duvidosa. O que informa o cidadão não são as autoridades monologando em causa própria, mas o debate aberto, independente, capaz de incorporar o ponto de vista das oposições. O que informa é o contraditório. É por isso que a democracia inventou a fórmula da imprensa livre. Nada que venha do poder pode substituí-la. Por melhores que sejam as intenções, a prática do governismo na comunicação pública é sempre má notícia.

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Professor doutor da Escola de Comunicações e Artes e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP

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