Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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Nova descoberta da empresa abala mídia

Por Marcelo Salles em 11/06/2009 na edição 541

A criação do blog da Petrobras merece atenção não apenas por levar a público informações relevantes sobre a maior empresa do Brasil – isto já era feito por sua página na Rede. O grande diferencial do blog está em sua postura firme e decidida na divulgação de sua versão dos fatos e, o que é mais importante: a crítica contundente – e elegante – do posicionamento editorial das corporações de mídia.


Foi assim com a Folha de S.Paulo, que afirmou em sua edição do dia 6 de junho que a Petrobras possui 1.150 jornalistas em sua equipe de comunicação, mas não publicou o desmentido enviado pela empresa. No dia seguinte o blog denunciava a omissão. O mesmo foi feito com matérias publicadas pelos jornais O Globo e O Estado de S.Paulo. Em postagem no dia 5 de junho, o blog da Petrobras registra, na íntegra, todas as perguntas enviadas por esses três jornais, bem como as respostas encaminhadas pela empresa. E sempre fazendo questão de dizer que apóia a liberdade de imprensa e de ampla circulação das informações.


Sem licitação 


Com menos de uma semana de vida, o blog foi alvo de violenta crítica de O Globo. Matéria publicada em edição dominical (7 de junho) acusa a empresa de ‘vazar informações’: ‘Empresa quebra confidencialidade de perguntas enviadas à assessoria de imprensa pelos veículos de comunicação’, diz o subtítulo. O texto começa afirmando que a Petrobras é ‘alvo de suspeitas de má gestão e favorecimento político em contratos’.


A onda raivosa contra a Petrobras chegou ao ápice na segunda-feira (8/6), com a divulgação de nota da Associação Nacional de Jornais (ANJ), espécie de confraria das virgens imaculadas da imprensa. A cara de pau é tanta que o senhor Júlio César Mesquita, que assina a nota, afirma que o blog encampa uma ‘prática contrária aos princípios universais de liberdade de imprensa’ e que se trata de uma ‘política de comunicação que visa a tutelar a opinião pública, negando-se ao democrático escrutínio de seus atos’. Como, santo Deus, se o blog publica tudo na íntegra – diferentemente das corporações de mídia?


Na verdade, a nota da ANJ é bastante esclarecedora. Se lida ao contrário. Para tanto, basta lembrar que atores patrocinaram um golpe de Estado no Brasil, em 1964, em nome da democracia e da liberdade de imprensa. E para que não restem dúvidas vamos consultar a história recente do país e relacionar os setores que sempre lucraram ao manter a opinião pública debaixo de rígida tutela, sobretudo numa época em que não existia a internet – cujas possibilidades põem em marcha uma verdadeira revolução nos meios de comunicação no mundo inteiro. Por fim, vamos notar que esses grupos são os mesmos. E são também os mesmos que juravam de pé junto que no Brasil não existia petróleo…


O argumento político das suspeitas de má gestão e favorecimento político em contratos – todos levantados pela direita entreguista, vale destacar – não se sustenta, posto que acusações semelhantes são simplesmente ignoradas pelos mesmos veículos de comunicação. Exemplo: a denúncia feita pelo deputado federal Ivan Valente ao Núcleo Piratininga de Comunicação de contratos suspeitos firmados entre a Editora Abril e o governo do Estado de São Paulo, controlado pelo PSDB. Segundo o parlamentar, nada menos que 10 milhões de reais foram destinados à empresa, sem licitação, só no segundo semestre de 2008.


Jornalismo possível


O fato é que o monopólio dos meios de comunicação de massa no Brasil acostumou-se a descrever o país segundo sua própria concepção de mundo. Como não havia voz discordante, esse sistema sempre esteve à vontade para mentir, distorcer, manipular e omitir informações, sem jamais encontrar uma força política proporcional que lhe opusesse resistência.


Esse momento talvez tenha chegado. Agora, a maior empresa brasileira – e a maior do mundo em tecnologia de prospecção de petróleo em águas profundas – criou uma ferramenta capaz de fazer frente à máquina de propaganda neoliberal. Em menos de uma semana o blog da Petrobras alcançou nada menos que 100.000 visitas, uma repercussão capaz de desestruturar o esquema dos veículos que manipulam as informações para prejudicar a empresa. Se milhares de pessoas passam a ter acesso aos argumentos da Petrobras diretamente da fonte, e os comparam com o que foi publicado pela imprensa, então esta imprensa é quem será julgada pelos leitores. A nova descoberta da Petrobras abalou a tática da mídia grande, que consiste em dizer sem permitir o contraponto.


O acesso a diferentes fontes com o advento da internet, aliás, pode ajudar a explicar o recente relatório divulgado pelo Instituto Verificador de Circulação, que aponta declínio na tiragem dos jornais de maior circulação no Brasil. Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Dia estão entre os que mais perderam circulação, sobretudo neste primeiro trimestre de 2009. Não vendem, nem influenciam tanto quanto antigamente. O Globo, só na última década, perdeu mais de 20% da circulação. Por outro lado, a tiragem dos jornais populares e democráticos vem subindo, como evidencia o próprio blog da Petrobras e outras tantas iniciativas.


Por fim, é preciso ressaltar que se a maior empresa do Brasil vem mudando a partir da nova gestão – mais contratações em concursos públicos, novos investimentos no país e aumento no lucro líquido – ainda existem problemas que prejudicam substancialmente o desenvolvimento do país, sendo a manutenção da quebra do monopólio estatal do petróleo o mais grave deles. E num momento em que os contratos da empresa são questionados, dou minha contribuição: por que não investir na criação e consolidação dos jornais, revistas e blogs que, faz tempo, têm mostrado que praticar Jornalismo ainda é possível? Uma imprensa que mereça este nome é o pilar que resta ser erguido para a constituição da democracia no Brasil.

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Jornalista, coordenador da Caros Amigos no Rio de Janeiro, editor do jornal Fazendo Media e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

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