Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO CIENTÍFICO

Novo formato, velho discurso

Por Felipe Izar Xavier em 17/06/2008 na edição 490

No dia 24 de março deste ano, o jornal mineiro O Tempo revelou-se diferente aos leitores. O impresso sofreu reformulação gráfica e editorial e ganhou o charme do formato tablóide. Decisão acertada, pois demonstra coragem dos editores em contrariar a cansativa austeridade dos tradicionais ‘jornalões’.

Algumas mudanças, porém, evidenciaram covardia. O destaque vai para o caderno de ciência e saúde, nomeado ‘Interessa’ após a reforma. Significa que O Tempo optou pelo clichê de espetacularizar a informação como premissa para atrair leitores, em vez de aperfeiçoar o discurso e produzir matérias qualificadas. Além disso, o espaço para a divulgação científica continuou reduzido (exemplo observado em diversos jornais brasileiros), o que contradiz a crescente evolução da ciência no século 21.

Cabe analisar a irresponsabilidade da escolha editorial. Ora, a ciência influi na vida do ser humano e por isso as pessoas, por meio de debate, devem participar do desenvolvimento científico. Já a mídia, capacitada em formar o senso comum (se lembrarmos Habermas, quando descreve o conceito de opinião pública), deve ser responsável por mediar a relação sociedade-ciência. Portanto, um jornal com a amplitude de O Tempo não pode isentar-se de promover esse diálogo.

Leitor quer mais informação

Mas isenta-se. As notícias científicas veiculadas no impresso são apenas reproduções dos releases das agências internacionais. Isso compromete a produção dos ‘jornalistas da casa’, que por obedecerem ordens e lidarem com a velocidade da informação não têm cacife e tempo para alterar esse modelo. Assim, esses profissionais não contestam os dados recebidos das agências, como se o material ali publicado fosse intocável, um artefato humano nunca precedido de erro. É preciso de mais para ser jornalismo. Além disso, essa forma de produção desqualifica o trabalho dos cientistas brasileiros, que mal são consultados como fontes informativas.

A ciência é importante para sociedade. Então, qual o motivo para o desprezo do jornal O Tempo, e também de outros impressos brasileiros, pelas notícias científicas? Falta de interesse público? Mas como um tema influente na vida da população não desperta interesse? A negligência dos periódicos na produção de conteúdo sobre ciência é contraditória. Para se ter idéia, o Ministério da Ciência e Tecnologia, em pesquisa realizada em 2007, comprova o mérito que a sociedade brasileira atribui aos avanços científicos. De acordo com a pesquisa – denominada ‘Percepção da Ciência e Tecnologia’ –, 76% das pessoas sem interessam por ciência e gostariam de receber mais informações sobre o tema. Além disso, 91% são atraídas por medicina e saúde e 90% pelo meio ambiente.

Responsabilidade social

Esses dados tornam incompreensível o retrocesso dos jornais brasileiros na produção de conteúdo científico. As empresas de comunicação, juntamente como o governo e a comunidade científica, deveriam investir na divulgação da ciência e incentivar a qualificação profissional dos jornalistas. Perceber que a inovação não se pode prender ao formato, mas também transformar as características do discurso, este, sim, produto fundamental do jornalismo.

Alicia Ivanissevich, no texto ‘A mídia como intérprete’, publicado em 2005 [in Formação & informação científica – Jornalismo para iniciados e leigos, Sergio Vilas Boas (org.), 128 pp., Summus Editorial, São Paulo], aponta algumas razões para um maior empenho do governo e dos cientistas na divulgação da ciência. Razões que também fazem parte do papel das empresas comunicacionais. A autora argumenta:

‘Primeiro, acredita-se que uma população alfabetizada em ciência seria essencial para formar uma força de trabalho especializada e mais bem treinada, o que resultaria em maior prosperidade para a nação. Um melhor entendimento da ciência teria também repercussões diretas no dia-a-dia dos indivíduos, como o maior cuidado com a própria saúde.’

Sim, é preciso lembrar que os jornais também têm a obrigação de educar e produzir conteúdo com responsabilidade social.

Relevância da divulgação científica

Há quem leia este artigo e questione por que não enfatizei a conflituosa relação entre cientistas e jornalistas. Realmente existem paradoxos, há muito discutidos por autores que versam sobre ciência. Como exemplos, temos a velocidade do jornalismo versus o demasiado tempo de estudo para concluir um projeto científico; a tradicional arrogância dos cientistas e a dificuldade de apuração – que é agravada pela desqualificação profissional dos jornalistas; ou a exatidão dos termos de ciência em contrapartida à simplicidade das reportagens do jornal.

No entanto, chega de bater nesta relação e tentar criar paradigmas a ela. É necessário rememorar que a posição editorial de um jornal é determinada por uma empresa capitalista e esta tem poder para coordenar os modos de produção. Esta, assim como os jornalistas que a fazem funcionar, também deve compreender a relevância da mídia na divulgação científica.

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Estudante de Jornalismo do 7º período da Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/08/2008 Peter Falcão da Silva

    O artigo do Felipe é muito interessante. Disseca com inteligência o ‘mundo’ e o ‘submundo’ do jornalismo científico. O jovem jornalista está de parabens pela visão crítica e aguçada.

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