Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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FEITOS & DESFEITAS >

O adeus do editor

Por Luiz Schwarcz em 20/06/2010 na edição 594

Acabo de ver o escritor José Saramago morto. Quando a notícia apareceu na internet, liguei pelo Skype para Pilar, que sem que eu pedisse me mostrou José deitado na cama, morto. Tenho falado com Pilar quase todos os dias. Sabia que não havia chance de recuperação, o destino de José já estava traçado, os médicos não acreditavam mais na possibilidade de um novo milagre, como o do ano passado, quando venceu, contra todas as expectativas, os problemas pulmonares que o acometiam.


Posso dizer que José Saramago era um grande amigo meu e da minha família. Quando vinha ao Brasil hospedava-se em minha casa, no quarto que foi da Júlia, minha filha. Detestava hotéis. Viu meus filhos crescerem. Fui conhecer sua casa em Lanzarote logo que se mudou com Pilar, abandonando Portugal.


Assisti emocionado à cerimônia do Nobel em Estocolmo – pouco antes, no hotel, aprovamos, Lili e eu, o vestido de Pilar para o evento. Estava em Frankfurt quando ele recebeu a notícia do prêmio; celebramos juntos.


A obra de Saramago veio para a Companhia das Letras por acaso. No fim da Feira de Frankfurt de 1987, ao me despedir de Ray-Gude Mertin, uma amiga pessoal e agente literária de muitos autores brasileiros, comentei que José era dos meus autores favoritos. Conversa à toa, de fim de feira. Não fazia ideia de que ela representava o escritor português, junto com a editora Caminho, e que estava para mudar Saramago de editora no Brasil.


Atrasei minha partida e voltei, com a bagagem no porta-malas do táxi, para falar com Zeferino Coelho sobre a Companhia das Letras.


Foi tudo muito rápido, ‘Jangada de Pedra’ foi o primeiro livro, lançado em abril de 1988 com a presença do autor no Brasil, junto com Pilar, jornalista que conhecera em 1986 e que mudou tanto a sua vida. A empatia foi imediata, apesar da minha gafe inicial -perguntei-lhe em plena praia de Copacabana se era verdade que, em Portugal, ‘Psicose’, de Hitchcock, fora intitulado ‘O Filho que Era Mãe’, e ‘Vertigo’, ‘A Mulher que Morreu Duas Vezes’.


Em seguida fui a Lisboa. Já éramos bem amigos, ele queria me mostrar o novo livro que escrevia. Em sua casa, na rua dos Ferreiros à Estrela, José leu trechos de ‘A História do Cerco de Lisboa’, e me levou para jantar no seu restaurante favorito, o Farta Brutos. Pilar foi minha guia de Lisboa na ocasião, reservou o hotel num velho convento na rua das Janelas Verdes, e mostrou os locais que aparecem no meu livro favorito de Saramago, ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’.


Comprei com Pilar o primeiro computador de José. Antes disso, ele datilografava três vezes cada livro para entregá-lo completamente limpo a seus editores.


No Brasil, o lançamento de ‘Jangada de Pedra’ foi uma festa interminável. Filas enormes na livraria Timbre e a efusão de beijos e abraços no escritor fizeram-no exclamar, ‘Luiz, esta gente quer me matar de amor’. Daí para frente, esse amor dos brasileiros por José Saramago só cresceu, suas visitas se tornaram mais frequentes, e vários dos últimos livros lhe ocorreram em viagens pelo país, nas quais estávamos juntos.


Lembro-me ao menos de três ocasiões em que isso aconteceu. A mais recente delas foi em sua última estada no Brasil, quando da publicação de ‘A Viagem do Elefante’, livro que José resolveu lançar mundialmente aqui, em novembro de 2008, como presente ao carinho e aos amigos brasileiros.


Ele já estava muito fraco, e a viagem era uma ousadia.


Ao chegar em minha casa, numa das nossas primeiras conversas, me disse que não escreveria mais, estava se sentindo velho e cansado.


Depois do evento de lançamento no Sesc Pinheiros, vencida uma fila enorme de autógrafos – Saramago nunca recusava autografar, nem mesmo doente –, fomos ao Rio, para a continuidade dos eventos. Ao pousarmos na cidade, enquanto eu recolhia as bagagens, José anunciou, para Lili, Pilar e eu, que decidira voltar a um velho projeto e que no voo achara a solução que faltava para ‘Caim’, que virou seu último livro.


Eu poderia contar outras tantas histórias aqui. Poderia até falar das nossas discordâncias, de uma discussão amigável que tivemos, sentados no alto do Bauzinho, em São Bento do Sapucaí, olhando para o horizonte da Serra da Mantiqueira, que nós dois adorávamos. Mas o espaço é curto: um blog, mídia que Saramago curtiu antes que eu.


Em outro momento, quem sabe. Agora só quero me despedir mais uma vez de José. Com as melhores lembranças, o amor, e minha saudade. Maldita palavra, tão portuguesa, que agora ficará associada ao meu amigo. Mas saudade não tem remédio, não é, José?


(*) Editor da Companhia das Letras, que publica livros de José Saramago no Brasil


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O escritor que nunca se escondeu


Clique no título para conhecer o especial do El País sobre José Saramago (em espanhol).


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Um homem que inventou a si mesmo


José Castello


Reproduzido de O Globo, 19/6/2010


O escritor José Saramago experimentou muitas mortes antes de morrer. Poucos autores tiveram sua imagem borrada por tantos equívocos, poucos foram tão retalhados e tratados pelo que não eram.


O destino em pedaços de Saramago me faz recordar uma difícil pergunta deixada pelo escritor mineiro Herbert Daniel, falecido em 1992: ‘A questão não é saber se há vida depois da morte, mas se há vida antes da morte’.


Mas que vida? E qual Saramago? Por ser filiado ao Partido Comunista Português, foi muitas vezes tratado — foi discriminado — como um ‘autor comunista’. Clichê que serviu para explicar (na verdade, para adulterar) muitas de suas atitudes e ideias. Outras vezes, por não fugir do debate contemporâneo, e também por causa de sua escrita sinuosa, com frases em serpente, ele foi estigmatizado — foi morto — como um autor retórico e prolixo.


Pelos mesmos motivos, repetiuse, à exaustão e sem nenhum critério, que José Saramago era um escritor ‘barroco’ — marca que sua nacionalidade portuguesa, isto é, católica, reforçava. Isso apesar de ele se declarar, sempre, ateu. É verdade: Saramago admitia a influência cristã em sua literatura, ainda que por contraposição. Ascendência que se evidencia em um romance radical, e muitas vezes mal compreendido, como ‘O evangelho segundo Jesus Cristo’, publicado em 1991.


O interesse pela História, matéria-prima de várias de suas narrativas, como ‘Memorial do convento’, de 1982, e ‘História do cerco de Lisboa’, de 1989, justifi cou, com frequência, a redução de sua imagem à da figura burocrática e sem sal do autor de romances históricos. A esses, em 1997, Saramago deu uma resposta sutil (que poucos, no entanto, compreenderam), quando publicou ‘Todos os nomes’, romance que trata dos devaneios de um escriturário do Registro Civil e de suas consequências imprevisíveis.


Por sustentar com firmeza as próprias ideias, o escritor foi, com frequência, tachado de panfletário, outras de arrogante, outras ainda — vamos usar a palavra nefasta — de chato.


Com a diminuição de Saramago à estampa banal do ‘escritor político’, ou então do ‘historiador interessado em literatura’, dele se subtrai a característica mais importante: a prodigiosa imaginação. Em um colóquio sobre sua obra realizado em Madri, ainda nos anos 90, o argentino Javier Alfaya observou que Saramago é um desses escritores autônomos, ‘que não descrevem a realidade, mas a inventam’.


Sua insistência em divergir das interpretações oficiais serviu, tantas vezes, de argumento para aprisioná-lo no rótulo de ‘escritor pessimista’.


Isso só porque, sempre em busca de transformar a realidade, ele nunca aceitou as fórmulas convencionais; ao contrário, as pulverizou.


Seus romances são exercícios dolorosos, mas persistentes, de desconfiança. Não porque ele abdicasse de mudar o mundo, mas porque sempre insistiu, contra tudo e contra todos, em fazer isso.


Por causa das críticas atrozes a ‘O evangelho segundo Jesus Cristo’, que o relegaram à posição de um traidor da tradição espiritual portuguesa, Saramago preferiu exilarse na Ilha de Lanzarote, nas Canárias. Como era um escritor que gostava de pensar, e que escrevia bem porque pensava bem, e não porque fosse um mero repetidor de doutrinas, ele foi, algumas vezes, reduzido à figura do ensaísta introvertido — que, por timidez, por engano, por fraqueza, disfarçou-se de romancista.


Mas o suposto escritor racional, ‘homem de ideias’, declarouse, várias vezes, atordoado pela força dos sonhos, e em particular dos pesadelos, em sua vida. ‘O que interessa é que há um momento em que o escritor se aceita a si mesmo’, disse, registrando sua perplexidade diante do desconhecido.


Nem o prestígio internacional incontestável, nem o Nobel de Literatura em 1998, nem os prêmios e as traduções intermináveis bastaram para livrá-lo das sucessivas mortes que foi obrigado a suportar.


Agora que a morte real chegou (se é que há algo de real na morte), ela nos obriga a juntar, e quem sabe a reparar, os pedaços em que Saramago foi dividido.


José Saramago só se tornou o escritor Saramago às vésperas dos 58 anos de idade. Isso ocorreu quando, em 1980, depois de muitos anos de jornalismo e uns poucos livros sem importância, ele publicou, enfim, o romance ‘Levantado do chão’. É nesta história que, pela primeira vez, se firma sua voz inconfundível.


O escritor que nasceu 58 anos depois de nascer e que morreu várias vezes antes de, finalmente, morrer só podia se tornar um escritor genial.


Dono de seu destino, Saramago, indiferente à longa e paciente espera e à miopia de muitos intérpretes, foi um homem que inventou a si mesmo.


E, por isso, é um escritor que não se parece com qualquer outro.


(*) Jornalista, colunista de O Globo


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Após o Nobel, livros ficaram esquemáticos e primitivos


João Pereira Coutinho (*)


Reproduzido da Folha de S.Paulo, 19/6/2010


Fernando Pessoa e José Saramago são os maiores escritores portugueses do século 20. Não pretendo ferir sensibilidades brasileiras.


Mas poderia dizer que Pessoa e Saramago são os maiores escritores de língua portuguesa também.


O juízo não é estético ou literário. É fatual e empírico. Pessoalmente, e para ficarmos nos lusos, prefiro Mário Cesariny ou José Cardoso Pires, dois nomes que o Brasil conhece mal.


E, por falar em Brasil, admito que Drummond ou Guimarães Rosa possam rivalizar com qualquer um desses.


Mas Pessoa ou Saramago habitam um universo diferente. Basta entrar em qualquer livraria do mundo e fazer o teste.


Fernando Pessoa paira acima da média porque, depois da morte, os seus heterônimos ganharam vida própria e saíram por aí, deslumbrando. Saramago, porque recebeu o Prêmio Nobel em 1998.


O que não deixa de ser irônico e injusto: se existe um Saramago que interessa como escritor, ele existe antes do Nobel, não depois dele.


Em ‘Memorial do Convento’ ou no espantoso ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’ (a sua homenagem a Fernando pessoa, ‘et pour cause’…), Saramago oferecia uma reinterpretação estilística dos pregadores lusitanos (como Antônio Vieira), elaborando fábulas de fôlego ‘humanista’ e ‘universal’.


A Academia Sueca sempre gostou desse tipo de exercício e premiou a obra. Saramago agradeceu e, literariamente falando, foi produzindo parábolas atrás de parábolas, cada uma mais esquemática e mais primitiva do que a anterior.


‘A Caverna’ ou ‘Ensaio sobre a Lucidez’, para citar apenas dois exemplos recentes, representam o pior do Saramago pós-Nobel: um escritor moralista e verborrágico com certa atração pelo maniqueísmo mais vulgar.


Curiosamente, o único lampejo da criatividade passada deu-se com o simpático e despretensioso ‘A Viagem do Elefante’. De 2008, é uma história (quase) de aventuras em que o escritor relata, com leveza de tom, a viagem do elefante Salomão pela Europa do século 15, uma oferta do rei d. João 3º ao primo Maximiliano da Áustria.


Honraria insultuosa


Agora, na hora da morte, Portugal prepara-se para honrar o escritor, o que me parece justo. Mas é provável que se prepare também para honrar o ‘democrata’, o que me parece insultuoso.


Comunista até ao fim, Saramago assinou algumas das páginas mais intolerantes do período revolucionário português, quando integrou a direção do ‘Diário de Notícias’ no ano quente de 1975.


Um período de violência física (nas ruas) e verbal (nos jornais), com Saramago a vestir a farda do fanatismo bolchevique e a salivar de ódio contra os ‘reacionários’ e os ‘burgueses’ (um oximoro, eu sei).


Contra a vontade de Saramago, Portugal acabaria por optar pela via da democracia representativa e da liberdade sob a lei. Uma escolha que sempre soou a Saramago como uma traição essencial dos valores moscovitas que, no século em que ele nasceu e viveu, produziram centenas de milhões de cadáveres.


Nas culturas latinas, a morte melhora sempre o caráter. Só se espera que não se faça o mesmo com a biografia política do defunto.


(*) Colunista da Folha de S.Paulo, em Lisboa


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Vaticano chama Saramago de ‘populista extremista’ e ‘ideólogo antirreligioso’


Da France Presse, reproduzido da Folha.com, 19/6/2010


O ‘L´Osservatore Romano’, o jornal oficial do Vaticano, ataca duramente o escritor português José Saramago, que morreu na sexta-feira aos 87 anos na Espanha, chamando-o de ‘populista extremista’ e de ‘ideólogo antirreligioso’ em sua edição deste domingo.


Com o título ‘O grande (suposto) poder do narrador’, o órgão oficial do Vaticano critica com virulência o Prêmio Nobel de Literatura, que era marxista e ateu.


O ‘L´Osservatore Romano’ o definiu como ‘um ideólogo antirreligioso, um homem e um intelectual que não admitia metafísica alguma, aprisionado até o fim em sua confiança profunda no materialismo histórico, o marxismo’.


O jornal considera ainda que o escritor ‘colocou-se com lucidez ao lado das ervas daninhas no trigal do Evangelho’.


‘Ele dizia que perdia o sono só de pensar nas Cruzadas ou na Inquisição, esquecendo-se dos gulags, das perseguições, dos genocídios e dos samizdat (relatos de dissidentes da época soviética) culturais e religiosos’, indica ainda o jornal do Vaticano em seu editorial.


No editorial divulgado com antecedência, o ‘L´Osservatore Romano’ considera Saramago ‘um populista extremista’, que se referia ‘de forma muito cômoda’ a ‘um Deus no qual jamais acreditou por se considerar todo-poderoso e onisciente’.


Saramago provocou a ira do Vaticano e da Igreja Católica com sua obra ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’ (1992) no qual considerava que Jesus perdeu a sua virgindade com Maria Madalena.


Ele suscitou novamente a cólera dos católicos em 2009 com ‘Caim’, onde a personificação bíblica do mal, assassino de seu irmão Abel, é descrito como um ser humano nem melhor nem pior do que os outros, enquanto Deus é apresentado como injusto e invejoso.


Durante a apresentação desse livro, Saramago havia alimentado a polêmica, classificando a bíblia de ‘manual de maus costumes’.


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José Saramago, 87, o Nobel da língua portuguesa


Reproduzido de O Globo, 19/6/2010


Um cético que manteve até o fim sua crença na literatura e no comunismo, José Saramago tornou-se durante as últimas três décadas a figura central da literatura contemporânea em português. Já era um autor consagrado e traduzido em diversos países quando recebeu em 1998 o Prêmio Nobel de Literatura — o primeiro, e até agora único, concedido pela Academia Sueca a um escritor da língua portuguesa —, mas foi nos anos seguintes à premiação que recebeu um reconhecimento crítico quase consensual como um dos maiores escritores de nosso tempo.


Entre os pesos-pesados da literatura atual, foi talvez o mais empenhado em manifestar suas opiniões políticas, e certamente um dos mais comprometidos com a militância de esquerda, à qual, no entanto, muitas vezes emprestou a ironia típica de sua obra literária. Exceção numa época de escritores-celebridades, manteve sua atuação pública circunscrita ao modelo do escritor-intelectual público estabelecido no século XIX pelo francês Émile Zola.


Seus artigos e críticas lhe valeram confrontos com o Vaticano, com Israel e com o governo de Portugal.


Apesar de um romance publicado aos 25 anos (‘Terra do pecado’, 1947), a vocação de Saramago para a escrita se realizou tardiamente. ‘Foi em 1980 que eu me tornei um escritor de verdade’, repetia nas entrevistas, referindo-se ao ano de publicação de seu romance’ Levantado do chão’, história sobre três gerações de uma família de camponeses.


A supressão de parte dos sinais de pontuação — ideia que segundo o escritor lhe surgiu de repente, um pouco depois da página 20 do livro —, e as novas formas de dar ritmo ao texto decorrentes desse gesto tornaram-se o ponto de partida de um estilo inconfundível, em que o virtuosismo das longas frases se combinava à ironia, à digressão e à metalinguagem. ‘Memorial do convento’, publicado dois anos depois, representa a consumação dessa escrita, que combinava mordacidade, crítica social e imaginação a uma sintaxe complexa e exuberante.


Depurada em seus livros seguintes, a escrita de Saramago foi um dos mais importantes momentos de renovação e ampliação do repertório expressivo do romance contemporâneo.


Sobrenome foi acrescentado pelo tabelião Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga. Seus pais queriam chamá-lo José de Sousa, mas o tabelião responsável pelo registro resolveu acrescentar ao nome o apelido do pai do autor: ‘Saramago’, denominação de uma planta silvestre da região.


Aos 2 anos, José de Sousa Saramago foi viver em Lisboa com a família, embora ainda passasse férias com os avós na cidade natal (o período foi relembrado por ele na autobiografia ‘Pequenas memórias’, de 2006). Nessa época, morreu seu irmão Francisco. A busca por seu registro de óbito, empreendida anos depois, serviria de inspiração para seu romance ‘Todos os nomes’ (1997).


Saramago deixou a escola antes de completar o ginásio e ainda jovem foi trabalhar numa oficina para ajudar a família.


Por muito tempo, lia apenas o que pegava emprestado em bibliotecas públicas, pois não tinha dinheiro para comprar livros.


Trabalhou em hospitais, num serviço de previdência e numa companhia de seguros até tornar-se editor, em 1959.


Na década de 1960, publicou críticas literárias, e nos anos 1970 foi editorialista e cronista político. Em 1975, decidiu dedicarse apenas à literatura.


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Uma obra política, mas nunca panfletária


Reproduzido de O Globo, 19/6/2010


O começo dos anos 1970 foi de intensa atividade política para José Saramago. Já em 1969, ele se filiara ao Partido Comunista Português, considerado um dos mais ortodoxos da Europa. Nos anos seguintes, ele se tornaria um cronista político contundente, escrevendo no ‘Diário de Lisboa’ e no ‘Diário de Notícias’. Em abril de 1975, um ano após a Revolução dos Cravos, que pôs fim à ditadura salazarista, assumiu o cargo de diretor adjunto do ‘Diário de Notícias’. Lá, escreveu artigos em defesa da implementação do socialismo em Portugal e apoiou a demissão de funcionários que criticaram a linha editorial da publicação.


Em novembro de 1975, os militares intervieram contra o que consideravam exageros da esquerda do país, e Saramago foi demitido do jornal. ‘Esse é o momento decisivo da minha vida, em que decido me sentar e escrever’, disse em 1989 ao ‘Estado de S. Paulo’.


Saramago nunca abandonou o Partido Comunista Português, pelo qual chegou a ser eleito, em 1989, presidente da Assembleia Municipal de Lisboa.


Já em 1975, porém, numa entrevista à revista ‘Status’, criticava a ideia de que os autores de esquerda devessem fazer uma literatura acessível a todos: ‘Panfleto é panfleto; literatura é literatura. Eu me considero perfeitamente capaz de escrever um panfleto, se ele for necessário; mas isso não é a minha criação literária’.


‘Uma obra que funde História e fantasia’ Isso não quer dizer que ao escrever seus livros ele pusesse de lado suas convicções. A crítica social é um dos motores de sua obra, mas em vez de resultar num cerceamento da imaginação ela se desenvolve em alegorias inventivas, exploradas com engenho e sutileza, como observa a professora emérita da PUC-Rio e da UFRJ Cleonice Berardinelli, especialista em literatura portuguesa: — Um dos segredos da obra de Saramago é a fusão de História e fantasia em romances de grande beleza inventiva.


Penso em ‘Memorial do convento’, por exemplo, onde a criação poética está profundamente ligada à consciência política — avalia Cleonice, leitora de primeira hora e amiga de muitos anos de Saramago, que disse ao GLOBO por telefone ter recebido a notícia da morte do escritor ‘como um tapa no peito, na altura do coração’.


A união entre fantasia e política é a marca de romances como ‘A jangada de pedra’ (1986), no qual a Península Ibérica se desprende da Europa e navega pelo oceano rumo à América Latina: uma situação insólita que permitiu ao escritor questionar as políticas da União Europeia e a relação de Portugal e Espanha com suas ex-colônias. Já ‘Ensaio sobre a cegueira’ (1995) — a história de uma cidade em que todos os habitantes, menos um, perdem a visão —, como o próprio Saramago explicou, era ao mesmo tempo sátira do comportamento humano e tentativa de responder a uma questão: ‘Por que, sendo nós seres dotados de razão, nos comportamos de maneira tão irracional?’


Criticada pelo autor ateu, Igreja elogia sua obra No final da década de 1980 — durante a qual, além de ‘A jangada de pedra’, publicou mais dois romances: ‘O ano da morte de Ricardo Reis’ (1984) e ‘História do cerco de Lisboa’ (1989) —, críticos em Portugal e no Brasil já consideravam Saramago o mais importante autor vivo da língua portuguesa.


Mas o nome do escritor ganharia uma projeção inédita com a publicação de ‘O evangelho segundo Jesus Cristo’ (1991).


Condenada pela Igreja Católica, que teria chegado a considerar a excomunhão do escritor, a narrativa ‘herética’ sobre a vida de Jesus foi traduzida em 16 países e se tornou best-seller.


O escritor ateu voltou a abordar temas religiosos em ‘Caim’ (2009), sua última obra publicada, que recria a passagem bíblica sobre o assassinato de Abel. Em entrevista ao Globo por ocasião do lançamento do livro no Brasil, Saramago resumiu sua visão sobre as religiões: — No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama.


Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade.


Ontem [18/6], a Igreja Católica, por meio do Secretariado da Pastoral da Cultura de Portugal, divulgou nota oficial de pesar, elogiando a ‘exigência e beleza’ de suas recriações literárias de textos bíblicos e ‘a vivacidade do debate que a sua importante obra instaura’.


Em 1992, o governo português retirou ‘O evangelho segundo Jesus Cristo’ da lista de indicados ao Prêmio Literário Europeu, por considerá-lo ofensivo aos católicos. Em reação, Saramago foi viver num exílio voluntário em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, território espanhol.


No episódio, o autor recebeu apoio unânime de jornais e intelectuais europeus.


O mesmo não ocorreu com suas opiniões sobre os governos de Israel e Cuba. Em 2002, após uma visita à Cisjordânia com o líder palestino Yasser Arafat, o autor comparou a situação dos palestinos à dos judeus enviados para o campo de concentração de Auschwitz.


Mais tarde, admitiu ter feito uma ‘comparação forçada’, mas a declaração já desencadeara críticas no mundo todo.


Em 2003, após o governo cubano fuzilar três sequestradores de um barco, Saramago escreveu um artigo no jornal espanhol ‘El Pais’ anunciando seu rompimento com o regime de Fidel Castro, do qual até então fora ferrenho defensor: ‘Até aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá seu caminho. Eu fico’. Comentaristas questionaram sua demora em reconhecer os desrespeitos aos direitos humanos na ilha.


Em 1992, escritor trocou Portugal pela Espanha Saramago casou-se três vezes ao longo da vida. Em 1944, com a pintora Ilda Reis, com quem teve uma filha, Violante.


Separou-se em 1970, quando iniciou um relacionamento com a escritora Isabel da Nóbrega que duraria 16 anos. Em 1988, casou-se com a jornalista Pilar del Rio, com quem se mudou para Lanzarote, em 1992.


Nos anos seguintes, publicou oito romances que consolidaram sua reputação internacional, como ‘A caverna’ (2000), ‘As intermitências da morte’ (2005), e ‘A viagem do elefante’ (2008). Em 2007, surpreendeu os leitores criando um blog, cujos textos foram reunidos em ‘O caderno’ (2009).


Se suas opiniões políticas e religiosas seguiram causando polêmica, o consenso em torno de sua obra só cresceu. Em 1995, recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa. Em 1998, ao receber o Nobel, um prêmio pelo qual já havia demonstrado desejo e desdém em proporções semelhantes, iniciou seu discurso com uma homenagem ao avô, o camponês Jerónimo Melrinho, que também pode ser lida como uma crítica à pompa das instituições literárias: ‘O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever’.


Saramago morreu ontem, por volta das 8h (horário de Brasília), aos 87 anos, cercado pela família e amigos. No fim de 2007, ele já havia sido internado em Lanzarote por conta de uma insuficiência respiratória que o manteve em observação até janeiro de 2008. Em comunicado, a Fundação José Saramago, informou que ele não resistiu a uma falência múltipla de órgãos, após prolongada doença.


O corpo do escritor será levado para Lisboa.


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Ir para longe, para o coração dos homens


Teresa Cristina Cerdeira


Reproduzido do Estado de S.Paulo, 20/6/2010


O mundo ficou mais pobre. Não morreu o escritor, que esse nem morre e há de ser relido e reinventado pelo tempo afora. Morreu uma voz, que a partir de hoje só poderá ser ouvida pelo que já disse – e não será pouco nesse caso –, mas já não intervirá nas cenas que o nosso mundo há de revelar. E é pena. É uma grande pena. Porque essa voz presente, ousada, tantas vezes polêmica, não necessariamente diplomática, tinha a beleza e a força do que nem sempre é previamente medido, mas que por isso mesmo abala, desentorpece, desinstala.


Dizer que Saramago foi um grande escritor seria tão banal que não mereceria espaço na economia deste texto. Mas talvez valesse intuir o que continuará a fazer dele – sem grande exagero premonitório – um escritor especialíssimo do nosso tempo. Quando as verdades vacilam, quando as crenças vêm sombreadas de desconfiança, quando o cansaço e o desencanto fazem da banalidade o objeto de desejo, quando parecem fracassar as últimas utopias da humanidade, gosto de pensar na galeria de personagens que ele criou, não porque a ficção seja um alento, mas porque de dentro dela os personagens nos ajudam a encontrar a fenda no muro da história. Não estamos diante de um otimismo banalizado, mas a verdade é que, nesses romances que nos agarram pela inteligência e pelo coração, João Mau-Tempo erige-se como herói coletivo na luta de camponeses alentejanos; Blimunda e Baltasar garantem a permanência do sonho de criar; Raimundo Silva, modesto revisor de livros, põe em causa o conceito de história; e inventando sortilégios contra a morte, um certo senhor José reivindica a inscrição de todos os nomes nos ‘ficheiros’ da história, porque afinal o dia só pode ser concebido ao lado da noite, ou o presente ao lado do passado.


Conheci José Saramago há quase 30 anos, em dezembro de 1981. A observação poderia ser anódina e só não o é porque daquele encontro restou, entre tantas coisas, uma dedicatória inscrita no Levantado do Chão que era já uma declaração de intenções. Dizia assim: ‘Para TC, que veio de longe e que, lendo este livro, para longe irá – para o coração dos homens, para o sofrimento deles, para a esperança que está perto –, a futura e duradoura amizade do José Saramago.’ Estava ali declarada, apesar do sofrimento, a esperança que ele sempre teve no coração dos homens. Quisera ter eu podido dizer à morte que tardasse mais um pouco a entrega da ‘carta violeta’ que ele usou como metáfora nas Intermitências da Morte. Teria sido um modo de pedir a ela que deixasse um pouco mais conosco um homem que amava os homens.


(*) Autora de ‘José Saramago – entre a história e a ficção: uma saga de portugueses’ (tese de doutorado apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1987)


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‘Ele era doce, não tinha arrogância nenhuma’


Luiz Zanin Oricchio


Reproduzido do Estado de S.Paulo, 20/6/2010


José e Pilar. Simples assim é o título do documentário do diretor português Miguel Gonçalves Mendes, que registra o cotidiano do casal José Saramago e Pilar del Rio, sua companheira. O filme foi coproduzido pela 02, empresa de Fernando Meirelles, diretor que adaptou para a tela Ensaio sobre a Cegueira, talvez a obra mais conhecida do escritor. Como disse Meirelles ao Estado, o filme deve ter sua primeira sessão brasileira durante a Mostra de Cinema de São Paulo, que se realiza em novembro. Em Portugal, tinha estreia prevista para 16 de novembro, data do aniversário de Saramago. Abaixo, a entrevista com o diretor Miguel Mendes.


Como surgiu a ideia de realizar esse filme e quanto tempo levou para ser rodado e concluído?


Miguel Mendes – A primeira vez que conheci pessoalmente o José foi quando lhe pedi que gravasse um excerto em off do Memorial do Convento para o meu primeiro filme D. Nieves, que se trata de uma dissertação sobre a relação Portugal-Galícia e a palavra Saudade. Mais tarde, propus-lhe este filme. Primeiro ele disse-me que não, mas fui insistindo, e finalmente aceitou. José Saramago era uma pessoa excepcional, que sempre quis conhecer, e considerava inaceitável que não existisse nenhum registro sobre ele, existem vários filmes, mas não numa perspectiva pessoal. Nunca sequer é abordado o papel de Pilar, a sua mulher, na carreira do José. São antes filmes sobre ‘o homem e a obra’, o que não me interessa particularmente trabalhar porque existirão outros suportes mais adequados para dissertar sobre o assunto e pessoas mais competentes para o fazer. A obra existe e pode ser interpretada. O que não possuímos, isso sim, é um registro pessoal do homem. E é sobretudo por esta razão e para atingir esta proximidade que estivemos por três anos a rodar o filme. Acompanhei-os pelo mundo nas suas viagens de trabalho e no seu dia a dia em Lanzarote. O que basicamente culmina em 200 horas de material e um quebra-cabeças para resolver.

Como foi filmar com o casal?

É talvez necessário esclarecer um ponto: este filme é sobre o amor que se estabeleceu entre José Saramago e Pilar Del Rio. Este filme não é só sobre José Saramago. Quero sobretudo que as pessoas os vejam como eu os vejo e partilhar com todos e de uma forma condensada o saber que eles possuem. Qual a sua visão do mundo e em que é que acreditam. No fundo quero que quem assista a este filme sinta que conheceu de uma forma muito íntima essas duas pessoas, que são brilhantes. Algumas pessoas dizem que José era um incendiário. Mas Saramago não era incendiário. Era simplesmente lúcido. E tenta dentro do possível melhorar o mundo por meio do do impacto que as suas opiniões podem ter naqueles que as ouvem. E ao contrario da arrogância que algumas pessoas afirmam ele sofrer, o José era de uma doçura e simpatia incríveis. Para não falar no seu sentido de humor, que era brilhante. Mas, como ele dizia, ele não tinha culpa da cara que tinha. E muitas vezes as pessoas têm a tendência de confundir timidez com arrogância.


Quais os momentos mais significativos durante a filmagem?


M.M. – Levamos 3 anos para rodar todo o material. O filme centra-se sobretudo em Lanzarote, onde viveram juntos, o centro da sua intimidade. Mas como pretende ser um retrato fiel das suas vidas, o peso da sua agenda profissional era enorme, e por isso os seguimos em várias das suas viagens. Fomos ao México e à Finlândia. Éramos para ter ido com eles ao Brasil assistir à rodagem da adaptação do Ensaio sobre a Cegueira. Mas não conseguimos apoio. Mas dos momentos que posso destacar, contam-se os ensaios entre o José e o ator Gael García Bernal para a estreia da leitura a duas vozes das ‘intermitências da morte’, o casamento do Jose e da Pilar em junho passado em Castril, Espanha, o momento em que o Fernando veio mostrar ao José em Lisboa o Ensaio Sobre a Cegueira. É obvio que um dos momentos que nos afetou a todos foi quando o José adoeceu, mas o mais bonito foi sem dúvida a total recuperação e a força de vida que ele possuiu. Mas um dos momentos mágicos foi estarmos em Lanzarote quando o José estava a acabar e a decidir o final de A Viagem do Elefante.


***


O homem que teria desfilado ao contrário


Juan Cruz, de Lisboa


Reproduzido do El País, 20/06/2010


Probablemente en una parada militar José Saramago hubiera desfilado al revés. Y ayer hizo el regreso a su tierra, Portugal, en un avión militar. Allí estaba su féretro, rodeado de amigos y parientes, de Pilar del Río, su mujer, y de su hija Violante, surcando las nubes y el aire que un día cruzó al revés, camino de Lanzarote. Estaba escribiendo Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, una novela en la que se preguntaba por qué no había huelgas en las fábricas de armamento.


Este viaje en la carcasa gris de un aeroplano del Ejército portugués le hubiera parecido una ironía del destino. Pero tenía su sentido, e incluso su aire central de recompensa, de gratitud portuguesa hacia uno de sus grandes hombres, a quien le pesó siempre una extraña herida, la que sufrió cuando el Gobierno de su país, presidido entonces por Aníbal Cavaco Silva, dirigente del Partido Social Demócrata (centro-derecha) y que ahora preside la República, prohibió que su novela El Evangelio según Jesucristo acudiera a un certamen literario europeo en 1992. Ahora Cavaco Silva le ha enviado una carta de pésame a la viuda. Saramago ya es la historia que quiso. Aquella fue una afrenta. En Lanzarote, donde refugió, con Pilar, su cólera, nos dijo un día: ‘Me quitarán todo si quieren, pero no me quitarán el aire’. Ayer volvía por aire, recibido con los honores debidos a un gran hijo, y uno de los símbolos de Portugal, Lisboa, se asomó a los visillos para verlo volver, esta vez para siempre. Ya escuchó otros aplausos, cuando se rindió Portugal a su literatura y a la dignidad de su compromiso; ayer ya no pudo escuchar los gritos que le reclamaban como un héroe civil, un paisano y un compañero.


Fue un viaje silencioso, tranquilo, emocionante. Cuando el avión posó su peso en la tierra, Pilar del Río se dirigió así a los 12 que viajaron en este avión mortuorio: ‘El último viaje, y qué tranquilo ha sido’. El último vuelo con José, y sí que se hace raro saber ahora que este trotamundos que iba siempre sin equipaje ya ha parado para siempre.


Es el último vuelo con él de mucha gente, de sus lectores, de sus amigos, de sus editores. En la fila que rindió honores a su féretro en el aeropuerto de Lisboa estaba la figura de luto de un hombre canoso, barbudo, Zeferino Coelho, que ha seguido durante decenios, como editor, la singladura del trotamundos. Le dijo al cronista, al oído: ‘La última vez que vengo a recibirlo’. Sus ojos me dejaron la cara húmeda. Luego le pregunté por Saramago, por lo que es ahora que ya no está: ‘Un monumento raro. Un hombre lleno de sentido y significado. Como Pessoa. Un monumento raro como Pessoa. Una visión completa de la vida que nos representa ante el mundo’.


Saramago tenía algo de Chillida: amaba las montañas, porque traían luz; sobre las montañas que amó en Lanzarote ayer había el aire de las nubes. Al llegar a Lisboa el cielo se había aclarado y era como si Portugal le regalara el horizonte. Y como Chillida, este monumento que fue Saramago buscó en el aire la esencia de su peso. Ahora ya es el horizonte desde el que se ve su propio monumento.


***


Portugal chora e o Vaticano ataca


Francesc Relea (Lisboa) e Miguel Mora (Roma)


Reproduzido do El País, 20/06/2010


‘Obrigado, José Saramago’ (Gracias, José Saramago) puede leerse en dos grandes fotografías del escritor que cuelgan en la fachada del Ayuntamiento de Lisboa. Miles de portugueses desfilaron desde primera hora de la tarde de ayer por la capilla ardiente con los restos mortales del premio Nobel, para dar el último adiós. Lo hicieron en silencio, compungidos, y, algunos, con los ojos humedecidos. Alejados de la controversia sobre la figura de Saramago, quienes acudieron al Paços do Concelho desmienten la idea del enojo entre el escritor y Portugal.


Nada comparable a la reacción del Vaticano, que ayer dirigió desde las páginas de L´Osservatore Romano, su diario oficial, un furibundo ataque hacia el escritor, que sonó casi a celebración por su muerte. Saramago se había distinguido como uno de los intelectuales que más lúcidamente condenó los abusos cometidos en nombre de la religión.


En la cola formada en Lisboa predominó la madurez sobre la juventud. Y las palabras de elogio y respeto. ‘No creo que vuelva a tener la oportunidad de rendir homenaje a una figura como Saramago’, manifestó José Barradas de Sousa, administrador de una empresa. ‘No me interesa la polémica sobre un portugués que era un gran hombre’, dijo Manuel Araujo, jubilado. ‘A primera vista podía parecer poco simpático, pero en realidad no era así. He visto morir a varios escritores, es angustioso verlos partir’, sostuvo María Seicette Lorenzo, secretaria de la Asociación Portuguesa de Escritores.


La voz más joven fue la más punzante. João Eça, 16 años, estudiante de Humanidades, ya ha leído Caín, El viaje del elefante y Ensayo sobre la ceguera: ‘Saramago no representaba la manera de ser de los portugueses, destacó por encima de la mediocridad’. Y añadió: ‘Oscar Wilde dijo que los portugueses perdonan todo menos ser un genio’.


La bandera portuguesa ondea a media asta y el Gobierno ha decretado dos días de luto nacional. Mientras los ciudadanos aguardaban pacientemente su turno, los políticos llegaban en coches oficiales e ingresaban directamente al Ayuntamiento. Todos menos el ex presidente Jorge Sampaio, que junto a su esposa hizo cola como uno más. El alcalde esperó en la puerta principal al primer ministro José Sócrates, rodeado de guardaespaldas, a quien acompañó el ministro de Exteriores, Luís Amado. Poco después llegó Dilma Roussef, candidata del Partido de los Trabajadores (PT) en las elecciones presidenciales brasileñas de octubre próximo, que estaba en Lisboa en visita oficial.


Previamente, acudieron a despedir al único premio Nobel portugués numerosos políticos e intelectuales, nacionales y extranjeros. Entre ellos, la ministra de Cultura, Ángeles González-Sinde. ‘Era un referente intelectual que demostró, con su compromiso, para qué sirven la literatura y los intelectuales’, declaró a la entrada de la capilla ardiente.


Alguien dejó dos claveles rojos encima del féretro, aquel símbolo de la revolución de abril de 1974, en la que creyó con pasión. Entre las numerosas coronas dos llamaron la atención de los fotógrafos, las que llevaban la firma de Fidel Castro y Raúl Castro, líderes de la revolución cubana que Saramago apoyó hasta que pudo más el desencanto.


Precisamente su posición ideológica motivó ayer un ataque duro desde el órgano oficial del Vaticano, L´Osservatore Romano, que no guardó ni siquiera la compostura ante la muerte. En un artículo firmado por Claudio Toscani titulado La omnipotencia (relativa) del narrador, subraya la ‘ideología antirreligiosa’ de Saramago, a quien define como ‘un hombre y un intelectual de ninguna capacidad metafísica, (y que vivió) agarrado hasta el final a su pertinaz fe en el materialismo histórico, alias marxismo’. Para añadir: ‘Se declaraba insomne por las cruzadas, o por la inquisición, olvidando el recuerdo de los gulags, de las purgas, de los genocidios, de los samizdat (panfletos de la Rusia soviética) culturales y religiosos’. En resumen, escriben, se distinguió por ‘la banalización de lo sagrado’ y ‘un materialismo libertario’ radicalizado con los años.


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Repercussão


Reproduzido da Folha de S.Paulo, 19/6/2010


** Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República: ‘Intelectual respeitado em todo o mundo, Saramago nunca esqueceu suas origens, tornando-se militante das causas sociais e da liberdade por toda a vida.’


** Dario Fo, dramaturgo italiano: ‘No seu país, era tido como um homem de grandes valores civis, além de ser um grande artista.’


** Eduardo Galeano, escritor uruguaio: ‘Era o mais jovem dos escritores. Seguirá sendo.’


** Mia Couto, escritor moçambicano: ‘O português era uma língua periférica, ele ajudou a vencer essa barreira.’


** José Eduardo Agualusa, escritor angolano: ‘O que mais admirava em Saramago era a sua vitalidade e a sua combatividade de homem que acreditava em causas.’


** José Sócrates, primeiro-ministro português: ‘Saramago era um motivo de orgulho para Portugual. Deixa uma grande obra que dignifica o país.’


** José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia: ‘Saramago será sempre lembrado como um dos maiores escritores em língua portuguesa e da literatura mundial.’


** Fernando Meirelles, cineasta: ‘Era um homem lógico, dizia que a morte é simplesmente a diferença entre o estar aqui e já não mais estar. A lucidez naquele grau é um privilégio de poucos, não consigo escapar do clichê, mas o mundo ficou ainda mais burro e ainda mais cego hoje.’


** Juca Ferreira, ministro da Cultura: ‘Sua perda é recebida com tristeza, particularmente pelos que têm apreço pela língua portuguesa.’


** Chico Buarque, cantor e compositor: ‘Perco um grande amigo. Perdemos um ser humano admirável, um escritor imenso, zelador apaixonado da língua portuguesa.’


** Marcos Vilaça, presidente da Academia Brasileira de Letras: ‘A próxima sessão acadêmica na ABL será dedicada à memória do grande escritor português.’


** Ferreira Gullar, poeta e colunista da Folha: ‘Saramago deu uma contribuição à literatura de ficção pela originalidade de seu estilo. Tinha uma maneira muito pessoal de lidar com a língua.’


** João Ubaldo Ribeiro, escritor: ‘Perdemos não somente um grande escritor, mas um intelectual de posições marcantes.’


** Milton Hatoum, escritor: ‘Ele ajudou a criar um grande público de leitores para uma obra consistente, o que não é comum. Também criticava todo tipo de injustiça.’


** Moacyr Scliar, escritor: ‘No contato pessoal, constatei que não era só um grande escritor, mas um grande ser humano, uma pessoa generosa.’


** Cristóvão Tezza, escritor: ‘Ele é o grande herdeiro de uma tradição da rica crônica portuguesa de Fernão Lopes.’


** Ronaldo Correia de Brito, escritor: ‘Por mais que tentem diminuir a importância dele em Portugal, há muito não tínhamos um escritor dessa importância na língua portuguesa.’


** Antônio Carlos Secchin, membro da ABL: É tão difícil conseguir encontrar um estilo. Mas Saramago tinha um, que conseguiu manter até o fim da vida.’


 


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