Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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FEITOS & DESFEITAS > CASO UNIBAN

O Afeganistão não é aqui

Por Luiz Feldman em 17/11/2009 na edição 564

Comparações com o Afeganistão são compreensivelmente desvantajosas. A sua triste série histórica de guerras civis e invasões estrangeiras viu-se aumentada, nos últimos anos, pelo inglório título de epicentro de um embate civilizacional. Ali, o Ocidente decide o futuro de sua cruzada anti-terror. Diz-se mesmo que o Afeganistão atual está para as perspectivas políticas século 21 como a Espanha da guerra civil dos anos 1930 esteve para as do século 20.

O episódio das variadas agressões que alunos da Uniban impuseram a Geisy Arruda trouxe, inadvertidamente, o Afeganistão para o Brasil. No Twitter – mais um foro da ampla repercussão virtual que teve o caso no país – espalhou-se logo a alcunha ‘UniTaleBan’. O Google já registra alguns milhares de ocorrências do termo. A expressão desfavorável sugere, evidentemente, que no campus daquela universidade instalaram-se práticas obscurantistas próprias ao regime fundamentalista ora insurgente.

Ao linchamento moral coletivo e às ameaças grupais de estupro perpetrados por alunos, veio somar-se a estarrecedora nota da direção da universidade, que aponta a atitude/vestimenta supostamente inadequada da aluna como razão de seu ‘desrespeito aos princípios éticos’ (sic). Ademais, sustenta que essa inadequação ‘resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar’ (sic), traduzindo a impune selvageria discente em resguardo de princípios venerandos. Ao legitimar o comportamento de seus alunos e punir Geisy Arruda, estariam dadas as condições para a comparação da Uniban: assemelhar-se-ia a um governo que pugna pela ‘autodeterminação nacional’ de seu povo, de conteúdo e métodos próximos à sharia implementada pelo Talibã, contumaz violador de direitos humanos e das mulheres.

‘Gostosas’ e ‘barangas’

A metáfora enquadra o caso e lhe dá sentido. A perspectiva de aproximação entre nossa sociedade, bem ou mal pertencente ao ocidente liberal, e o longínquo e radical Afeganistão assusta. E então cabe não apenas o evidente repúdio, mas um confortante estranhamento. O que quer que de exótico se passe no campus de São Bernardo do Campo e para lá de Bagdá é fundamentalmente diverso do que ocorre no Brasil. É?

Na lição do filósofo norte-americano Richard Rorty, cabe antes indagar em que medida a violência observada na conduta de outros guarda similaridades com nossas próprias violências, naturalizadas nos costumes do dia-a-dia. Não é este o lugar, nem haveria aqui a competência, para uma genealogia do machismo brasileiro. O que resta indubitável, porém, é que o jogo de imagens com o Talibã, acessível quanto seja, alimenta justamente a vã crença de que nós, os observadores do caso, não fazemos parte da mesma sociedade dos agressores de Geisy Arruda e de que não convivemos com o mesmo repertório de violências.

Já se demonstrou que o mito de um Brasil de relações sociais harmoniosas não fez mais que gerar um poderoso – e esquecido – contra-mito sobre as profundezas de violência a que desceu nossa sociedade colonial para lançar suas vigas de sustentação. Essas estruturas patriarcais, cuja resiliência foi lembrada por mais de um autor no pensamento social brasileiro, tiveram entre outras características a irrestrita submissão da mulher. Que hoje se possa discriminar às claras entre ‘gostosas’ e ‘barangas’ – esses os termos de um estudante da Uniban em entrevista ao Estado de S. Paulo –, reservando-se a estas a violência, sem dúvida revela as longevas memórias patriarcais no ordenamento social do país.

Uma violência com feições conhecidas

Essas breves anotações ensejam dois comentários. De um lado, recordar que, para a sociedade escravocrata colonial, um dos mais difundidos temores era a insurreição dos negros, como a liderada por Toussaint Louverture no Haiti em fins do século 18. De outro, notar que as transformações dessa mesma sociedade no século 19, no sentido de uma europeização, acrescentaram-lhe forte feição ocidental, criando a ambígua situação de modernidade junto ao atraso: a escravidão, o subdesenvolvimento etc. Um país do futuro cujos recorrentes fracassos o fazem, no dizer de um descrente, o futuro do mundo.

Daí, o pronto reconhecimento do conhecido verso: ‘O Haiti é aqui, o Haiti não é aqui’. Modernizado o país por curso tão diverso, a metáfora do Talibã não poderia ser mais que um oportuno embuste em nosso esquema analítico, sofisticando a incapacidade dos locais de compreender os problemas brasileiros, a qual Sérgio Buarque de Holanda chamou de ‘bovarismo nacional’. A Uniban, de fato, pertence a outra ordem de processos, mais afins à terra. Sua violência, queiramos ou não, tem feições conhecidas. Haiti, talvez. Afeganistão, não, esse não é aqui.

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Mestre em Relações Internacionais, Rio de Janeiro, RJ

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