Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CADERNO DO LEITOR > ELEIÇÕES 2010

O ano das mulheres no noticiário político

Por Ligia Martins de Almeida em 12/01/2010 na edição 572

O ano promete um extraordinário destaque para as mulheres na mídia, pelo menos nas páginas de política. O que, aliás, já começou. Dilma Rousseff e Marina da Silva serão presença constante na mídia, cada vez que realizarem um comício, fizerem uma nova declaração e, principalmente, mudarem o corte de cabelo ou o guarda-roupa. Afinal, as duas são candidatas à presidência da República: uma, muito forte, tendo a seu dispor a máquina do governo federal, a outra contando apenas com o carisma e a história – ex-ministra do governo Lula, trocou o PT pelo PV, evangélica e rigorosa, ganhou um prêmio internacional por sua intransigente defesa da Amazônia.

O noticiário de domingo (10/1) é uma boa amostra do que vem por aí.

O Estado de S.Paulo dedica meia página de sua edição de domingo à candidata do PT, por enquanto ainda ministra da Casa Civil:

‘Com cabelos curtos e mais sorridente, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, fará de tudo para desarrumar o ninho tucano. Numa tentativa de demonstrar que não é apenas `técnica´, com carreira construída no Rio Grande do Sul, a candidata do PT à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai lembrar que é mineira, nascida em Belo Horizonte e cumprirá `agenda afetiva´ no segundo maior colégio eleitoral do país. O comando petista já prevê extenso roteiro de lembranças para a ministra, na região das Alterosas, assim que ela deixar o governo, no fim de março ou começo de abril, para se dedicar à campanha.’

Por uma plataforma inovadora

A matéria de Dilma trazia uma grande foto da candidata, sem peruca, cumprimentando populares. Enquanto isso, na página ao lado, um quarto de página foi reservado a Marina da Silva que, pelo menos nesse primeiro embate, saiu perdendo: a matéria sobre ela não tem foto e o grande destaque no subtítulo é para o produtor do seu programa de TV. O texto diz:

‘A senadora Marina Silva (PV-AC) vai aproveitar o início do ano para acertar a equipe e as linhas de ação de sua candidatura. O primeiro movimento será sua apresentação no programa do partido, que irá ao ar em rede nacional de TV e rádio no dia 10 de fevereiro. Pela primeira vez, ela falará diretamente para os eleitores na condição de candidata e sabe que precisa se tornar mais conhecida. O PV celebrará sua entrada no partido e apresentará sua trajetória política e de vida, buscando até semelhanças com a história do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Como Lula, a origem de Marina é humilde e personagem de grande carisma. Trabalhou nos seringais do Acre, sofreu contaminação por mercúrio e conseguiu se alfabetizar tardiamente’ (O Estado de S. Paulo, 10/11/2010).

O mais extraordinário dessas notícias, no entanto, não foi falado: pela primeira vez, o país terá duas mulheres concorrendo à presidência. Parece que – com chances ou não de eleição – as mulheres são aceitas, pelo menos pela mídia, como candidatas ao cargo maior do país, o que seria inconcebível no passado recente. A senadora Heloísa Helena, candidata à presidência em 2006, entrou para a história como a primeira mulher candidata. Seria uma candidata natural desta vez, mas preferiu apoiar Marina da Silva, tornando a candidatura do PV um pouquinho mais forte. Mas, delas todas, Dilma é a que tem mais chances porque, além do apoio presidencial e da máquina do governo, está em campanha (sempre negando que seja candidata) há mais de um ano.

Resta saber se os eleitores vão apoiar uma das duas e fazer com que o Brasil tenha de novo uma governante mulher. A primeira – e única – foi a princesa Isabel, nos tempos do Império, e assim mesmo na condição de regente, quando seu pai, o imperador, viajava. Somou um total de três anos de mandato. E entrou para os livros de história por ter assinado a Lei Áurea. As candidatas bem que poderiam usar a figura da regente em suas campanhas e prometer que, a exemplo da única governante mulher que o Brasil já teve, poderiam fazer leis com tanto impacto e interesse social como as da princesa Isabel. Ou poderiam, ao menos, garantir que um governo liderado por mulheres trabalharia para libertar o Brasil da corrupção. Seria, ao menos, uma plataforma inovadora.

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