Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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FEITOS & DESFEITAS >

O bem simbólico como instrumento da corrupção

Por Anderson David Gomes dos Santos em 02/06/2015 na edição 853

A quarta-feira, 27 de maio de 2015, poderá ficar na história como o dia em que o futebol começou a ser mais transparente. A prisão de sete dirigentes de confederações nacionais e continentais na Suíça, em ação conjunta do FBI e da polícia daquele país, confirma o que se imaginava há anos: o futebol sendo usado para crimes.

Esporte querido por muitos, não é a primeira vez que isso ocorre. Afinal, quantas vezes não vimos notícias de esquemas que, dentre outras coisas, até interferiam no resultado dos jogos, por conta de altas apostas em redes internacionais? Aqui, optamos por destacar não este caso em si – incluindo aí a possível participação das empresas de mídia no processo, algo que o Grupo Globo opta por destacar que elas não teriam nada a ver –, mas para tentar entender algo mais geral quando se trata da utilização de um bem cultural como instrumento de corrupção, casos do que ocorreu neste esporte, em outros esportes (como a investigação sobre a Confederação Brasileira de Vôlei) e também nas esferas político-partidárias, como teria ocorrido no “Mensalão do PT” (como é chamado para se diferenciar do realizado por governo do PSDB em Minas Gerais).

Quantas vezes não ouvimos dos dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que a entidade é uma associação privada e, como garante a Constituição, tem liberdade de definir suas normas, limites e proteger seus dados? É preciso recorrer à construção deste esporte no Brasil, e em outras partes do mundo, para lembrar que a elite abandonou os campos para a gerência dos clubes a partir do momento em que percebeu que aquilo poderia ser um negócio bastante lucrativo – basta pensar a diferença da quantidade de dirigentes (e até técnicos) negros quanto comparados aos jogadores no país, refletindo a contradição de classes existente.

A Fifa é dona do football association. Não é à toa que exige que não haja qualquer interferência estatal nas confederações continentais e nacionais, punindo com dois anos fora de qualquer competição internacional caso isso ocorra. O caso do uruguaio Luís Suárez também demarca esse controle privado. Afinal, ele, detentor da prática de jogar futebol – muito bem, por sinal, como mostra no Barcelona –, foi proibido até de entrar num campo de treinamento após morder o italiano Chiellini na Copa do Mundo Fifa Brasil 2014.

Brechas fiscais e pagamentos “por fora”

Uma entidade supranacional que tem 16 países a mais que a Organização das Nações Unidas e blinda seus participantes de quase toda investigação criminal – afinal, por exemplo, caso a Polícia Federal descobrisse um crime na CBF e o governo federal indicasse um interventor, as seleções e times da entidade seriam excluídos de torneios internacionais.

A blindagem é grande, mas não é caso único. Várias associações, esportivas ou não, possuem suas sedes na Suíça porque o país tem leis mais flexíveis quanto à taxação fiscal e na fiscalização de onde vem o dinheiro. Apesar disso, antes mesmo do Fifagate, a justiça suíça puniu dois dirigentes da Fifa a pagarem pesadas multas para não serem presos. A empresa de marketing esportivo ISL, responsável pela imagem da entidade e que ainda assim faliu no início dos anos 2000, garantiu pagamentos de multas de Ricardo Teixeira e João Havelange, ex-presidentes da CBF e o último dirigente principal da Fifa por 24 – tendo o atual, Joseph Blatter, como braço-direito por muito tempo.

É necessário lembrar que enquanto bem cultural é difícil definir de forma clara, justificar, a precificação de determinada atividade, seja uma publicidade, a exibição de um torneio esportivo ou quanto custa um jogador. Assim, são alguns os casos de denúncias de crimes, especialmente fiscais, ligados a estes elementos. A única forma de desconfiar que algo está errado é quando há movimentação de recursos não justificada frente às autoridades fiscais. Fora isso, como dizer que a publicidade usada por determinada empresa custou R$ 5 mil ou R$ 10 mil? Como afirmar que um jogador valeu os R$ 50 milhões da multa rescisória ou o dobro disso – dúvida que o governo espanhol investiga no caso da venda de Neymar para o Barcelona? Qual o elemento matemático para estabelecer que a transmissão de um evento vale exatamente 10 vezes mais que a de outro?

Aproveitando-se de alguma maquilagem ao transitar o dinheiro – facilitado pelas várias brechas fiscais existentes no mundo especialmente após a prática de políticas neoliberais e a presença de redes telemáticas –, informa-se que se pagou X por algo, o que é declarado, mas depois de alguma denúncia percebe-se que o valor pago foi de Y. O que “sobra” na conta foi usado para conseguir aquele produto, criando barreiras político-institucionais, ao pagar para figuras importantes na venda dessas mercadorias “por fora”.

Traffic é dona de jogadores

No caso do Mensalão do PT, do que foi anunciado como resultado das investigações, Marcos Valério usava suas agências de publicidade para receber o dinheiro e repassar para os partidos votarem a favor do governo. Claro que isso com essa quantia percorrendo uma grande trajetória até chegar ao destino final, de maneira a dificultar quaisquer investigações.

Modelo semelhante, e até admitido por partidos no Brasil, seria usado para constituir o caixa 2 nas campanhas eleitorais, em que, dentre outras transações, as empresas de publicidade superestimam a publicidade eleitoral na declaração ao Tribunal Superior Eleitoral, ganhando em troca a conta em caso de vitória do candidato.

Voltando ao Fifagate, tanto gasto de uma empresa de marketing como a Traffic – exemplo usado já que seu dono J. Hawilla é réu confesso – justificando inclusive o pagamento de uma multa tão alta (R$ 500 milhões) para não haver prisão, indica o quanto de dinheiro a organização e a cessão dos direitos de exibição de torneios de futebol geram. Literalmente, vale tudo para se conseguir o que se deseja, pois depois tudo é compensado por uma indústria que movimenta bilhões de dólares anualmente, com cerca de 1,6 bilhões de pessoas direta ou indiretamente dependentes dela.

Vale recordar também que a Traffic atua(va) em diferentes áreas desenvolvidas pelo futebol a partir dos anos 1980, não coincidentemente seguindo as práticas neoliberais que atingiram o esporte, restringindo o acesso dos torcedores aos estádios e ampliando a quantidade de produtos, inclusive a própria transmissão, ligados ao jogo, que viu receitas decorrentes dele serem multiplicadas rapidamente. A empresa é dona de jogadores, organiza campeonatos, é intermediária para a aquisição de direitos de exibição de torneios em diferentes lugares do mundo e já chegou a fazer parcerias para colocar seus jogadores em times em alguns anos – no modelo Palmeiras-Parmalat ou Fluminense-Unimed.

Dirigentes lucram à custa de bilhões de pessoas que adoram o futebol

Esses casos retratam o que é denominado por pesquisadores da Economia Política da Comunicação como a “culturalização da economia”, que aparece a partir dos anos 1970, em que o setor econômico passa a apresentar, dentre outras características culturais, a aleatoriedade como uma importante em tempos de capital financeiro. “Seguir o dinheiro”, como diziam os jornalistas que investigaram o Watergate nos Estados Unidos nos mesmos anos 1970, ficou ainda mais difícil.

A importância da marca merece ser destacada também ao se perceber que a primeira coisa que alguns patrocinadores da Fifa fizeram esta semana foi ameaçar a entidade de romper o contrato, pois é prejudicial ligar a imagem de uma empresa a algo que é visto com maus olhos pelo público. Racional ou por descuido, a entrevista coletiva do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, na sede da entidade no Rio de Janeiro ocorreu sem o background, banner atrás da mesa que identifica os patrocinadores da entidade, talvez uma forma de não ligar a imagem das “parceiras” no tema que justificou a coletiva.

As considerações aqui expostas servem para destacar que se a corrupção não começou e não é exclusiva do Brasil a partir de 2003, também não o é do futebol, não necessariamente interferindo nos resultados de jogos – ainda que este problema exista há décadas e seja dificilmente solucionado. O esporte que chama a atenção de bilhões de pessoas quase todos os dias é o de dentro de campo, mesmo que a administração por um seleto grupo de pessoas o atrapalhe.

Algumas pessoas afirmaram que o dia 25 de maio seria um dia triste para o futebol. Discordo totalmente. Ainda que considerando que os Estados Unidos podem ter outros interesses sobre este esporte para além da boa vontade em limpá-lo, é a primeira vez que uma ação investigativa prende dirigentes de tamanho escalão, em casos de corrupção denunciados por jornalistas há muito tempo. Por mais que o football association siga sendo de propriedade de uma entidade privada paraestatal – que se diz sem fins lucrativos, mas cujos dirigentes lucram à custa dos bilhões de pessoas no mundo que o adoram.

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Anderson David Gomes dos Santos é professor da Universidade Federal de Alagoas, jornalista e mestre em Ciências da Comunicação

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