Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > ERROS & BIZARRICES

O bom e o mau jornalismo

Por Samira Moratti em 30/03/2010 na edição 583

O que pode distinguir o bom do mau jornalismo? A gramática e a articulação das ideias são dois critérios a serem adotados. E, infelizmente, a prática atual, sobretudo aquela ligada ao jornalismo online, dá péssimos exemplos da arte de noticiar.

Para chamar a atenção do público não é necessário apelar para a falta de técnica, principalmente ligada ao português. Antes de ser bom em outros idiomas, o jornalista precisa dominar plenamente sua língua natal. Só assim poderá garantir uma escrita razoável.

O Portal 180 graus, do Piauí, é um exemplo de propagador de erros. Inclusive, devido à série de inconvenientes apresentados aos leitores, foi criado o site. O objetivo do blog é expor satiricamente os enganos cometidos pelo portal. Na matéria intitulada ‘Lei defende a continuação da gravidez proveniente de estupro’, publicada em 14 de janeiro deste ano, foi escrito o seguinte: ‘O estupro é permitido no Brasil pelo Código Penal desde o ano de 1940.’ Nesse sentido, pergunta-se: desde quando o Brasil libera esse tipo de prática abominável, apoiada pela Constituição federal? Atualmente, a versão equivocada da notícia foi corrigida. Na verdade, o que é permitido é o aborto, apesar de uma série de discussões na sociedade. O erro não foi enfatizado, tampouco o veículo se desculpou pela falha. É a falta de apuração das informações. Os leitores perdem em conteúdo e o jornal, em credibilidade.

Identificar falhas e pedir desculpas

O site G1 também apresenta erros crassos da língua com certa regularidade. As falhas não se restringem ao interior das matérias. Também estampam nas manchetes. Em determinada ocasião, apresentou o seguinte erro na primeira página do site: ‘Mãe de aluna é acusada de agridir professora em SC’. O verbo está errado, obviamente. A palavra correta seria ‘agredir’. Já em outra situação, na matéria intitulada ‘Homem acusado de estuprar três adolescentes é preso na Grande SP’, há o seguinte erro no segundo parágrafo: ‘O acusado é acusado…’. O cúmulo da redundância e falta de atenção do jornalista responsável pela matéria.

Erros de concordância também são notados com frequência, como o seguinte, verificado recentemente também na primeira página do G1: ‘Anvisa quer dificultar compra em farmácia de antibióticos’. Percebe-se rapidamente o engano. Fica claro que ‘de antibióticos’ deveria se encontrar antes de ‘farmácia’ para dar sentido à frase.

Habituados ao ‘Control+C’ e ‘Control+V’, ou mesmo ao botão ‘Delete’, muitos profissionais mancham a carreira e contribuem para uma má prática jornalística. Exemplos não faltam e diariamente podem ser observados. Uma vez identificados, seja por um leitor qualquer ou mesmo por um coro deles, o antiprofissional por detrás da tela apaga perpetuamente o erro sem identificá-lo ou mesmo se desculpar pelo inconveniente. Melhor seria parar de cometer falhas.

É claro que para tudo há exceção. A Folha Online dá exemplo de que, apesar dos enganos, acerta-se em ser fiel com os leitores no que diz respeito aos erros assumidos. Uma área específica para tanto foi criada. Assim como algumas revistas e jornais praticam, o site também disponibiliza a seção ‘Erramos‘, identificando as falhas cometidas e pedindo desculpas pelo ocorrido.

‘Planeta Bizarro’

Pior do que os erros de grafia é a incoerência de algumas ideias. Bizarrices de qualquer natureza, seja humana ou animal, transformam-se facilmente em notícia. A apuração dos fatos dá lugar à busca incessante do que é considerado ridículo, esdrúxulo e que, principalmente, provoque espanto, surpresa, riso ou morbidez. A prática vai contra um dos preceitos pregados nas academias de Jornalismo – de que a notícia deve interessar grande parcela da população. Uma parte pode até gostar, mas se é de interesse real para suprir as necessidades básicas de uma sociedade informada, é irrelevante.

Uma prova da afirmação acima é a seguinte manchete, publicada no site R7: ‘Chinês tenta suicídio sentando em legume’. Não é preciso ler todo o texto para verificar que se trata de algo totalmente irrelevante para o resto da sociedade, especialmente os brasileiros, já que o caso não ocorreu no Brasil. A linha fina, no entanto, só atesta o baixo nível de jornalismo que se encontra atualmente: ‘Vítima achava que aquela era uma forma ancestral de se matar, mas deu pepino’.

A culpa não é exclusiva do R7. Pelo contrário. Tal site foi criado anos depois de muitos outros, a fim de também abocanhar uma parcela do mercado da qual não fazia parte. Portais como o G1 também possuem seções como a ‘Planeta Bizarro’, do site pertencente ao grupo Globo. Existem com um fim: saciar o desejo de parte da população que consome esse tipo de notícia.

Inversão de valores

Não que as bizarrices não devam ser noticiadas. Porém não com o mesmo grau de importância como a morte de um grupo de pessoas ou a demolição de um patrimônio histórico, por exemplo. A entidade jornalística presente em cada profissional, sobretudo a ética, vai se extinguindo gradualmente, sobrando apenas o que é ruim, o que não acrescenta nada de bom.

O que tais situações sugerem aos leitores? Que erros podem passar despercebidos? Ou que os jornalistas, na busca incessante pelo furo ou pela atualização constante do conteúdo, esquecem-se por completo da revisão? A apuração dos fatos, aliada à revisão das informações, deveria ser fundamental no trabalho desenvolvido pelos profissionais de imprensa. Ao extinguir quase por completo das redações a figura do revisor, muitos veículos passam a perder no quesito credibilidade, tornando-se alvo de chacota.

Nesse sentido, a interatividade por canais como comentários ou e-mails à redação possibilita que o público passe a tomar o papel de revisor, alertando os jornalistas desavisados sobre os enganos cometidos. Uma inversão de valores e falta de zelo com o jornalismo, instituição que, pouco a pouco, perde seu valor. Bom era nos velhos tempos.

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Jornalista, Florianópolis, SC

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/03/2010 Jorge Granja de Oliveira

    Prezada Samira. Infelizmente suas palavras não produzirão eco. Se não o único, presumo que meu comentário venha a ser um dos poucos de crítica ao seu artigo. A verdade é que a ‘Ultima flor do Lácio, inculta e bela…’, está cada vez mais inculta e menos bela. Você tem toda a razão quando enfoca o jornalismo online: são erros grotescos de ortografia, de concordância e outros não menos importantes como a crase, que praticamente foi extinta. O quadro é fruto da ignorância e do desinteresse de grande parte da população (seje, esteje, menas, mortandela, duzentas gramas etc.); da omissão – ainda que não deliberada – de alguns editores (aqui mesmo eu já corrigi verdadeiros absurdos), como também da tolerância de alguns gramáticos (haja vista que hoje já se aceita o emprego do verbo visar no sentido de almejar, sem a preposição). Na televisão, é comum os repórteres empregarem os substantivos milhares e milhões precedidos do pronome e/ou do artigo, flexionados no feminino [(as) outras milhares; (as) outras milhões]. Como se não bastasse, o Novo Acordo Ortográfico criou mais dificuldades (trema, hífen e acentuação dos ditongos abertos). Por fim, o Português foi infectado por duas doenças crônicas: o internetês (tb, vc, naum etc.) e o famigerado e insuportável gerundismo. Ainda que isto signifique dar murro em ponta de faca , sugiro que você não desista. Eu não vou desistir.

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