Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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FEITOS & DESFEITAS >

O Brasil que o Brasil não vê

Por José Valmir Dantas de Andrade em 06/10/2009 na edição 558

O ser humano tem uma gama de direitos inalienáveis, dentre os quais, em primeiro na hierarquia, está o direito à vida. No entanto, dentre os direitos que fazem parte dos inalienáveis, em tempo de paz, está o direito de ir vir. Mas, lamentavelmente, estes direitos vêm, há tempos, sendo sonegados aos cidadãos e cidadãs que precisam usufruir da BA 220, no trecho que liga as cidades de Cícero Dantas a Paripiranga, no nordeste da Bahia. As condições da estrada estão péssimas, diria que quase intransitáveis. Já vi estradas em condições melhores serem interditadas pelo Ministério Público do Estado de Goiás.

O resultado deste descaso para com as rodovias e, no caso especifico da BA 220, é uma sequência de acidentes e, com isso, várias vidas sendo ceifadas direta e indiretamente. Este colunista não tem os números exatos, mas os acidentes com vítimas nesta estrada são frequentes. As mortes causadas diretamente, quando pessoas morrem em acidentes e, indiretamente, quando alguém é conduzido em ambulâncias e/ou veículos particulares, quando há necessidade de um atendimento rápido e não consegue chegar a tempo hábil para ser atendido. Isto se configura como um claro atentado ao direito à vida.

Outro atentado eloquente aos direitos individuais é a negação ao direito de ir e vir sem passar por constrangimentos. As pessoas, quando transitam por aquela estrada, perdem tempo e desgastam-se física e emocionalmente. Algumas pessoas vêm de fora, afirmam não retornar mais à região enquanto a estrada estiver nestas condições. Mas as principais vítimas, no sentido de terem os seus direitos de ir e vir prejudicados diariamente, são os estudantes acadêmicos e secundaristas, que são obrigados a transitar por uma estrada intransitável todos os dias. Perdem tempo demasiado, quando não perdem a vida, entre as cidades de origem e a cidade de Paripiranga, onde fica a instituição de ensino superior que atende à região.

Grotões são lembrados nas eleições

Por estas razões, no último dia 24 de setembro, quinta-feira, estudantes, trabalhadores em geral e representantes de movimentos dos trabalhadores rurais convocaram a imprensa e interditaram a pista nos dois sentidos, na altura do Entroncamento de Adustina, BA, para protestar e denunciar o descaso que se arrasta há anos. O protesto contou com a presença da ONG ‘De Mãos Dadas com a Justiça,’ porque para nós o que o governo e a imprensa têm feito com a população desta região esquecida é uma grande injustiça. O governo cobra uma carga de impostos exorbitante da sociedade e não retorna esses impostos em forma de serviço à população. Para se ter uma ideia, mais de 40% do que pagamos na bomba de combustível são impostos.

Tudo teria sido explicitado à mídia se esta tivesse estado in locu. Durante o tempo em que este colunista esteve lá, não apareceu sequer um canal de TV para fazer a cobertura do protesto. A jornalista Ângela Santana, da Rádio Regional AM de Cícero Dantas, esteve no local durante todo o dia, merecendo, assim, nossas felicitações. Os canais de televisão foram convidados, mas ninguém compareceu. A impressão que temos é que os grotões do Brasil só são lembrados em períodos eletivos. Somos esquecidos pelo poder público e pela mídia. Sergio Buarque de Holanda já denunciava este descaso no célebre Raízes do Brasil.

Um regime de pactuação federativa

Ademais, esta região só foi objeto de lembranças quando do massacre de Canudos e pelo heroísmo de Virgulino Ferreira da Silva que, a seu modo, manifestou sua indignação com ausência do Estado na região. Infelizmente, ainda hoje a coisa não mudou muito. Aqui, o Estado tem aparecido na figura de uma polícia de elite espalhando terror e espancando de forma arbitrária os cidadãos.

A ONG ‘De Mãos Dadas com a Justiça’ exige ações imediatas no sentido de corrigir esses descasos para com as nossas estradas e o nosso ‘povo marcado’. Porque para sobreviver aqui é preciso ser antes de tudo um forte. A mídia não deveria fadar um povo ao isolamento. Afinal, esta mídia é uma concessão pública [no caso da radiodifusão], e, num regime de pactuação federativa, todos os rincões da nação devem ser lembrados.

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Secretário-geral da ONG ‘De Mãos Dadas com a Justiça’

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