Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > COBERTURA DA COPA

O campeão de asneiras e de preconceitos

Por Emerson Dourado e Gibran Luis Lachowski em 13/07/2010 na edição 598

Peça de mau gosto. Preconceituosa. Além de tudo, passa longe de ser jornalismo. As referências têm a ver com a pseudo-matéria feita recentemente pela Sportv (da Rede Globo) sobre o Paraguai na Copa do Mundo. O material começa a partir de uma promessa de uma modelo e torcedora (Larissa Riquelme), de que tiraria a roupa caso o time sul-americano chegasse às semifinais do torneio. Passa pelo tom jocoso, de escárnio mesmo, quanto ao povo paraguaio, seu turismo, sua economia e cultura. Finaliza com uma associação entre nacionalismo e efemeridade exibicionista.

O assunto merece ser discutido. Não só por conta das várias ofensas proferidas pela equipe de jornalismo da Sportv, mas também, e principalmente, pela repercussão que a suposta reportagem está gerando na internet. Até a 1h de terça-feira (06/07), o vídeo registrava 138.503 exibições. E mais de 900 pessoas haviam comentado o episódio.

As opiniões são diversas. Qualificam negativamente a imprensa de modo geral – a Globo e a Sportv, especificamente. Criticam as reações discordantes e apontam a existência de uma ‘modinha antiglobo’. Ainda defendem abertamente o Paraguai. A maioria dos comentários se opõe à forma pela qual o país e seu povo foram apresentados. Alguns dos adjetivos dados à pseudo-matéria: ‘xenófoba’, ‘machista’, ‘ignorante’. Exemplos de defesa do Paraguai: ‘É um grande país, como o Brasil’ e ‘Paraguai é um país bonito’.

Ofensa, desrespeito e zombaria

De outro lado, a observação de que se o Brasil vive em melhores condições sociais que o vizinho não há motivo para deixar de agir com escárnio. E o apontamento de que é preciso saber lidar com o ‘humor negro’. Quanto à mídia, ataques sem dó. Associação entre a atitude da emissora e a falta do diploma de nível superior para exercer o jornalismo (no nosso país). Sugestão (à emissora) de que se estude mais a história da América do Sul. Quem sabe, a começar pela guerra contra o Paraguai, no século 19, empreendida pela ‘tríplice aliança’ e financiada pela Inglaterra, coisa que se aprende ainda no primário.

Também na internet, alguns palavrões contra a Globo e a Sportv, aqui não mencionados. No entanto, devido ao caráter mais ameno, registra-se que a quase-reportagem foi chamada, dentre outros nomes, de ‘estúpida’.

Para ilustrar o texto e expor, ao menos em parte, o tom e o tipo da peça não-jornalística, mostram-se alguns de seus trechos. Não sem antes ressaltar que o material é apresentado como se dirigido ‘aos marmanjos’. A torcedora-símbolo da ‘matéria’ logo em seguida aparece sob a narração de que tem ‘muito apreço por seu celular’. Nesse momento, a câmera fecha em um aparelho entre os seios da mulher.

E a peça continua, com tom marcadamente irônico: ‘O Paraguai nos surpreende a cada dia. É um paraíso obscuro do mundo. Sim! Ciudad del Leste é um pólo industrial, tecnológico, etílico. É demais. Tem de tudo.’ Ofensa a elementos culturais paraguaios: ‘Paisagens deslumbrante (cenas fechadas de alguns animais e matagais) e alta gastronomia (destaque para um homem que ingere comida)’. Mais desrespeito, sempre em tom de zombaria: ‘Se você pretende fazer investimento financeiro, compre guarani, a moeda local. Supervalorizada no mercado de finanças internacional.’

Por que não criar uma ‘musa da Copa’?

Ofensa ao povo do Paraguai, mas de modo irônico: ‘Gente bonita e simpática desfila pelas ruas (pessoas dançando)’. Para finalizar, mais zombaria. Dessa vez diminuindo o amor à pátria (mesmo que de chuteiras) ao prazer que a torcedora poderia proporcionar à ‘nação de marmanjos’ se seu desejo se tornasse realidade. Distorção de nacionalismo impulsionada pelas seguintes palavras: ‘A promessa de Larissa melhorou muito. No início era um singelo desfile de biquíni, e só em caso de título. Mas como todos podemos ver (câmera se aproxima novamente dos seios da mulher), ela tem generosidade de sobra.’

E não podemos deixar de mencionar que o ‘novo’ modelo de linguagem empregado no jornalismo esportivo da Rede Globo, principalmente no seu programa dominical (Fantástico), influenciou a reportagem da Sportv. Fica claro no texto que o ‘trabalho profissional’ tenta de forma infeliz ‘imitar’ esta nova fórmula e erra feio.

Outro ponto responsável por esta bobagem veiculada é a necessidade de criar fatos para uma Copa sem graça e sem privilégio para a Globo, já que as entrevistas exclusivas de outros mundiais foram cortadas pelo desafeto treinador Dunga. Diante disso, pensou a Sportv, por que não criar uma ‘musa da Copa’? Pagou o pato o vizinho Paraguai.

Um mero pedido

Seria interessante, salutar até mesmo, se a equipe de jornalismo da Sportv se manifestasse sobre o episódio em tela. Não precisa pedir desculpas. Nem tentar justificar. Basta dizer que tipo de jornalismo é esse. Tal postura pode fortalecer os debates em relação ao papel social da mídia nos dia de hoje.

E também podemos, se houver interesse, falar de direitos humanos, alteridade, diversidade cultural, ações afirmativas, minorias sociais, a ‘história dos debaixo’, a visão limitada do jornalismo praticado prioritariamente a partir do eixo Rio-São Paulo…

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Respectivamente, estudante de Jornalismo; e jornalista e professor de Jornalismo, Rondonópolis, MT

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