Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA FOLIÃ

O carnaval da Casa-Grande

Por Dioclécio Luz em 06/03/2007 na edição 423

Há algo de sagrado no carnaval. Talvez por ser o reverso, o outro lado. Na Roma antiga havia as tais carnavalis: por alguns dias o rei virava plebeu, o pobre se achava rei, o padre entrava no bacanal. Algo assim. Profano e sagrado eram as duas faces de um deus de duas faces – Janus brincanti. E todos eram felizes para sempre.

Agora o carnaval já não é mais profano. Todo ele é sagrado. Basta ver como a mídia lida com a festa. Na TV é só alegria, só beleza. Parece dizer: é assim, festa popular não se questiona. Questionar o quê? Opa, Carlinhos Brown fala em apartheid na Bahia. Isto na Folha de S. Paulo da segunda-feira de carnaval (19/02). Caetano Veloso – que mora no seu umbigo, o dele, claro, do alto de sua fama olímpica, exibindo-se nos trios elétricos – contesta: não é assim.

Carnaval sem cordas

É sim, cara. Na tua Bahia.

Mas a TV não vai mostrar.

A Bandeirantes montou um estúdio por lá. A Band não iria questionar esse carnaval de rico, caro e sem novidades. Quem questionaria?

Certa vez, numa matéria célebre para a CartaCapital, Bob Fernandes mostrou o rei pelado. E o que ele viu foi, e ainda é, os brancos dentro das cordas, protegidos, dançando a música baiana; ou nos camarotes, bebendo do bom e do melhor, imunes ao rebuliço; os negros, bem, ou estão na pipoca ou segurando as cordas. Um bom emprego para negro e pobre baiano: cuidar para que o pobre não invada o cercado dos ricos. Carnaval gera emprego: em torno de R$ 20 por dia para segurar a corda. Algo assim. O pobre que não segura corda tem que vender água ou cerveja. Carnaval gera renda para uns, não para o povo pobre da Bahia.

Sabe quanto custa um abadá – aquela farda que o cliente compra para poder ficar oito horas ouvindo a mesma música? Até R$ 4.500,00. Não é para qualquer um. Não é pro bico do pobre. A TV jamais criticaria isso. TV gosta de festa, entretenimento. Se pobre não entra, azar do pobre.

Um dia, Moraes Moreira, baiano porreta, questionou essa história do abadá, e quis que a festa fosse pra todo mundo. Ele achou que o povo não merecia ser pipoca (como se diz daquela turma que fica acompanhando de fora da corda, pulando e pulando, no acoxo, sobre esgotos e gentes, se atropelando). Ele falava de uma Casa Grande e de uma senzala. O tal apartheid citado por Carlinhos, que está reinventando o carnaval sem cordas da Bahia, um carnaval para os baianos.

Axé é coisa de mercado

O carnaval é mais sagrado na Bahia. Mas por interesse de mercado. As tradições católicas devoraram as afros, deu-lhes nomes branquelos, de santos europeus – resistência e rendição, já disse Gil –, é o jeito baiano de ser, é expressão popular. E temos o axé, um pobre gênero musical que toca o ano inteiro em todo país – micaretas, carnaretas, bocaretas e alguns picaretas (muito prefeito se reelege promovendo festas com o dinheiro do povo). Um trio elétrico, dois trios elétricos e o resto é negócio, digo música baiana. Talvez, passado o carnaval, a imprensa pudesse perguntar o óbvio: o que é música baiana? Mas é querer demais de quem trata a cultura como algo nada sério.

Mas aqui pelo menos, desta luneta sobre a imprensa, sejamos francos: o fato é: a axé music representa uma tragédia para a cultura baiana e, em especial para a música da região. Ela é uma barreira impedindo que outros gêneros, outros artistas, mostrem outras artes. Axé é coisa de mercado. Ele atende uma das regras fundamentais: se você quer vender um produto, parafuso ou jaca, produza em quantidade e tudo igual um ao outro. O axé é o produto.

Cadê o pessoal bom de forró?

E quem não toca e canta axé na Bahia? Ora, vá fazer outra coisa. Monte uma oficina mecânica, por exemplo.

De tanto se falar na música baiana, e da mídia forçar na imagem, criou-se a cultura de que música baiana é somente o axé. Isto é, na Bahia não existe nenhum instrumentista de qualidade, nenhum músico erudito, nenhum bom cantor de MPB, roqueiro ou rapper. Raul Seixas ou João Gilberto, se nascessem agora, teriam que se mudar da Bahia para serem notados. O axé abafa tudo que ele não é. Acredite na inverdade do exagero: quem não faz axé eles mandam matar. É quase isso.

Como a mídia não tem compromisso algum com a arte e a cultura, ninguém espere que um dia, na redação de uma dessas TVs normais, alguém se indague: peraí, será que todo músico baiano faz axé? Será que não nasce alguém que faça algo diferente? Talvez, se for um pouquinho mais culto, pense: onde estão Elomar, Xangai, Wilson Falcão, Edgar Mão Branca?… Cadê o pessoal bom de forró? Será que a Bahia é o único lugar do Nordeste que não tem grandes cantores ou instrumentistas tocando a boa música do Nordeste?

Verdade tropical

O axé, insisto, é uma desgraça para a Bahia. E não apenas por ser um gênero musical pobre, limitado, plastificado. Mas também porque, por sua causa, quase 40 anos depois, não apareceram outros tão bons como Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia. Ora, não apareceram nem irão aparecer – a axé e os donos do mercado não deixam, nem vão deixar, surgir uma coisa diferente até findar o estoque de bandas com aceitação popular e enquanto o negócio continuar dando lucro.

Enquanto existir axé dominando a cena, eliminando quem for diferente, jamais haverá outra Tropicália. Triste conclusão: a Bahia de João Gilberto e da Tropicália, jamais fará outra revolução musical. Adeus, vanguarda. A Bahia virou uma produtora de cultura de plástico.

Talvez Gilberto Gil, que é baiano e ministro, devesse parar e pensar um pouco nessas coisas. Pensar que a música que predomina, que domina, que monopoliza a Bahia, cria uma imagem falsa e limitada da Bahia e causa uma erosão cultural sem retorno. Basta imaginar quantos artistas originais abandonaram as carreiras por conta dessa imposição; quantos cantores e bandas vanguardistas, criativas, modernas, avançadas, estão sendo boicotadas, censuradas, expulsas dos espaços musicais, discriminadas pelo poder público.

Quantos artistas formidáveis, como Gil, talvez até melhores, não desistiram da profissão, enterraram o talento e a genialidade e se tornaram gente comum, causando prejuízo à humanidade? Ó tempo rei, fazei com que Gil acorde para esta verdade tropical! E que ele saiba que o apartheid segrega o diferente culturalmente, e não somente os negros.

Máquina de clonar bandas

O caso da Bahia é mais evidente ainda quando se compara com Pernambuco. Por muitos anos, os dois estados mantiveram uma saudável disputa para ver quem era mais produtor de cultura e genialidades e invenções musicais. Com a imposição do axé sobre a Bahia, Pernambuco continuou promovendo a diversidade. Basta ver o carnaval pernambucano. Tem frevo, maracatu, samba, pastoril, burrinha, cabocolinhos – e até axé; tem rock e MPB.

Em pleno carnaval, Recife promove um festival de diversidades, o Recbeat – onde pode tocar Lulu Santos, Plebe Rude, Tomzé, Chico César ou aquela banda de heavy metal. É tudo de graça. Não é preciso dinheiro pra brincar o carnaval pernambucano. Ah, mas se o cabra quiser, pode pagar uma nota preta por um abadá e ficar dentro de um cercado, usando a farda como as outras pessoas lá dentro e ouvindo a mesma música por oito horas. Tem gosto pra tudo.

Desde a Tropicália que a Bahia não mostra novos gênios da música. Existem, mas são abafados. Por isso, de lá pra cá não apareceu mais ninguém capaz de apontar uma linha original na música da Bahia. Enquanto a Bahia produziu bandas e cantores de axé em escala industrial – onde um é clone do outro – Pernambuco gerou Mestre Ambrósio, Querosene jacaré, Alma em água, Otto, Nação Zumbi, Cascabulho, Mundo Livre S/A e, claro, o mangue beat. Produziu Mombojó, mostrou a cena musical do Alto José do Pinho (Recife) e o maracatu virou moda no Brasil.

O que fez a Bahia nesse período? Matou os diferentes e aperfeiçoou a máquina de clonar bandas e cantores de axé. Isto é: de pólo de cultura virou pólo químico produtor de plástico.

Sagrado e inquestionável

É uma imposição de mercado, claro. Mas por que os grandes nomes da música baiana, aqueles que tem algum poder ou carisma, não se rebelam? Por que Gil, Caetano ou Gal não questionam isso? Por que se juntam a esse mercado para legitimar a operação abafa da cultura baiana, aderindo ao axé, que por onde passa nada cresce? Será que eles temem que surja um novo movimento tão importante e revolucionário quanto foi a Tropicália? Será que eles sabem que o carnaval baiano é a segregação – uma alegoria da Casa Grande e senzala, como alertou Carlinhos Brown? Será que notaram que o carnaval da Bahia não é para os baianos?

Para a imprensa, principalmente a televisiva, o carnaval baiano é algo sagrado, inquestionável. Por isso, as críticas aqui apresentadas jamais serão tema de matéria jornalística na TV. A imprensa que habita a telinha continuará cega às manifestações de segregação, racismo, censura e operação abafa que se manifestam na Bahia. Continuará batendo palminhas para tudo isso aí.

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Jornalista, autor do livro Trilha apaixonada das rádios comunitárias, diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF

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