Quinta-feira, 14 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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FEITOS & DESFEITAS >

O carteiro sem poeta

01/09/2009 na edição 553

‘Foi dada a eles a escolha de se tornarem reis ou mensageiros de reis. Com a ingenuidade das crianças todos escolheram ser mensageiros. Eis porque só existem mensageiros, que correm pelo mundo e, como não há mais reis, gritam uns para os outros mensagens que não têm mais sentido’ (Kafka, Aforismos).

Estou cansado de ouvir que vivemos numa época em que a facilidade de comunicação atingiu níveis inimagináveis. Que rompemos fronteiras, encurtamos as distâncias e que as pessoas estão cada vez mais próximas e mais felizes. Ainda mais agora com essa nova modinha da internet, o twitter.

‘No mundo lá fora, Adam disse que era um pacto com o diabo que fazia os carros andarem e os aviões voarem no céu. O mal fluía através dos fios elétricos para deixar as pessoas preguiçosas. (…) As pessoas usavam um negócio chamado telefone porque odiavam estar perto umas das outras, e porque morriam de medo de ficar sozinhas‘ (grifo nosso).

Vida real e virtual

Esse trecho do livro Sobrevivente, de Chuck Palahniuk, autor também do Clube da Luta, (é, gente, tem um livro sim, e é tão bom ou melhor que o filme) me deixou encucado esses dias. Principalmente essa última frase. Que atire a primeira pedra quem nunca evitou uma pessoa com um simples telefonema ou com uma mensagem de texto? Não vai dar para ir. Tenho outro compromisso. Eu queria, mas não posso, infelizmente. E todo tipo de desculpa esfarrapada fica bem mais convincente e verdadeira pelo telefone.

Mas é na internet que a coisa fica mais interessante. Os milhares de solitários e anti-sociais navegando sorrateiramente em perfis de orkut, fuçando em álbuns, lendo scraps, postando em fóruns, evitando e conhecendo pessoas. Incapazes de ter amizades de verdade, seja lá por que motivo; e ao mesmo tempo evitando a própria solidão. Odeiam os outros, mas não conseguem ficar sozinhos. O Chuck acertou em cheio nessa percepção. A tecnologia traz esse ‘conforto’, essa compensação esquizofrênica.

E não é para generalizar. Afinal de contas, muitas pessoas equilibram perfeitamente vida real e vida virtual. Nesse sentido é até saudável. Eu tenho um amigo que mora longe, com quem só falo pela internet e cuja afinidade é muito maior do que muitos sujeitos que freqüentam a minha casa. Se a relação é significativa, verdadeira, pronto: a mensagem tem finalidade – tem um remetente, senão, meu amigo, a coisa fica nonsense como na epígrafe desse texto: ‘Gritam uns para os outros mensagens que não têm mais sentido.’

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Escritor, contista, editor do selo Terceira Margem (Ed. Multifoco) e graduando em Filosofia pelo UNIS-MG/Varginha, Luminárias, MG

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