Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & MEIO AMBIENTE

O caso BP no Jornal Nacional

Por André Alves e Bruno Strahm em 20/07/2010 na edição 599

Referências

- SIMÕES, Roberto Porto. Relações Públicas: Função Política. 3ª Ed. São Paulo; Summus Editorial, 1995.

- BORDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. 1a Ed. Rio de Janeiro; Jorge Zahar Editor, 1997.

- Ministério da Educação. 'Consumo Sustentável' – Manual de Educação

- BADGIKIAN, Ben H. O Monopólio da Mídia. 1a Ed. brasileira. São Paulo; Editora Página Aberta, 1993.

- CAVALCANTI, Clóvis (org.) Meio Ambiente Desenvolvimento Sustentável & Políticas Públicas. 1a Ed. São Paulo; Editora Cortez ; Recife Fundação Joaquim Nabuco, 1997.

- STAUBER, John; RAMPTON, Sheldon. Toxic Sludge Is Good For You! - Lies, Damn Lies And The Public Relations Industry. 1a Ed. Maine Common Courage Press, 1995.

- HARRISON, E. Bruce. Going Green – How To Comunicate Your Company`s Environmental Commitment. 1a Ed. Washington, Book Press, 1993.

- LOUREIRO, Carlos; LAYRARGUES, Philippe; CASTRO, Ronaldo (orgs.). Educação Ambiental: Repensando o Espaço da Cidadania. 2a Ed. São Paulo, Cortez Editora, 2002.

- HOHLFELDT, Antônio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera Veiga (orgs.). Teorias da Comunicação: Conceitos, Escolas e Tendências. 1a Ed. Petrópolis, Editora Vozes, 2002.

- GUZZO, J. R. 'A lição que vem do México'. Revista Exame: ano 44 – no 11, edição 970, p. 55. 16 de junho de 2010.

- GRANDO, João Werner. 'Um erro de 60 bilhões de dólares'. Revista Exame: ano 44 – no 11, edição 970, p. 84. 16 de junho de 2010.

- Greenpeace USA, BLOG Disponível em: http://members.greenpeace.org/blog/greenpeaceusa_blog/2010/05/21/recapping_on_bp_s_long_history_of_greenw, acessado em 01 de julho de 2010.

- BP site oficial. Disponível em: <http://www.bp.com/bodycopyarticle.do?categoryId=1&contentId=7052055>, acessado em 03 de junho de 2010.

- BBC NEWS Web site – History of BP. Disponível em: <http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/149259.stm>, acessado em 05 de junho de 2010.

- WIKIPEDIA – Histórico da BP. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Bp>, acessado em 03 de junho de 2010.

- Jornal Nacional site oficial. Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-nacional/>, acessado em 10 de julho de 2010.

- General Eletric Official Web Site. Disponível em: <http://www.ge.com>, acessado em 03 de junho de 2010.

Disponível em: < http://www.akatu.org.br/consumo_consciente/oque >, acessado em 05 de junho de 2010.

Disponível em: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/desenvolvimento/conteudo_283016.shtml, acessado em 05 de junho de 2010.

1. Resumo

Este artigo, feito por meio de pesquisa bibliográfica e documental, discute a relação entre conglomerados econômicos, mídia e meio ambiente. Tendo em vista o vazamento de óleo no Golfo do México iniciado no dia 20 de abril de 2010, o artigo se detém a este fato, pois, sendo um dos maiores desastres ambientais da história dos Estados Unidos, envolve a gigante do petróleo BP – o caso, então, ganha mais visibilidade e por isso influencia o tratamento da mídia quanto ao assunto. Trazendo a temática para o Brasil, cabe analisar a cobertura jornalística feita pelo Jornal Nacional – por ser veiculado em uma grande empresa de comunicação brasileira e por ter elevados índices de audiência. Sendo assim, é feita a verificação e análise do posicionamento e ações da BP frente à crise ocorrida. Nesse sentido, esta última parte do artigo tem seu estudo sob o prisma das Relações Públicas.

Palavras-chave: mídia, meio ambiente, BP, Jornal Nacional, Relações Públicas.

2. Introdução

Dentre todas as espécies existentes no mundo, o homem conseguiu se destacar e obter caráter dominador perante as outras espécies pelo uso de sua inteligência e pela sua relação com a natureza. Ao longo do tempo, esta relação passa por um processo de modificação pelo fato de que o homem não mais se adapta à natureza. Ele força uma adaptação do seu entorno às suas necessidades e desejos.

Com o desenvolvimento e mudança das sociedades, – considerando seu estilo de vida, ideologia, necessidades, modos de produção, relações sociais e de poder – o homem passa a acumular riquezas e se organiza em grupos, em que a tendência é crescer ainda mais – em número de pessoas envolvidas, alcance, serviços e expansão de seu patrimônio. Assim sendo, aumenta-se a concorrência de mercado e a segmentação e a busca por diferenciais torna-se a meta a ser alcançada para geração e expansão dos lucros.

Desta maneira, para conseguir lucros, a relação entre homem e natureza se intensifica, produzindo impactos ambientais. Desastres como o do Golfo do México nos dão noção de que cada vez mais o ser humano busca novos sítios de exploração, o alvo desta vez, são as águas ultra-profundas, em busca de petróleo, a matéria prima principal para desenvolvimento da indústria.

A legitimação do processo de exploração dos recursos naturais passa através dos meios de comunicação de massa, com as informações sendo veiculadas diariamente em programas, telejornais e seriados. Essa massificação faz com que a hipótese de agenda setting seja admitida nesta ocasião. Como advento da internet, e nela, as mídias sociais o fluxo de informação tornou-se maior e mais veloz, sendo assim a dimensão do acontecimento (em específico, o vazamento de óleo no Golfo do México) passa a ter proporções difíceis de serem mensuradas, tornando o trabalho de relações públicas da BP muito mais minucioso.

Devido a grandeza da empresa, um desastre ambiental desta natureza, torna a companhia um alvo constante de críticas. A BP não tinha subsídios suficientes para enfrentar a crise, usou mesmo de meios ilícitos para ludibriar a opinião pública e os moradores do entorno do local onde o vazamento ocorreu, tentando comprar o silêncio das famílias que viviam da pesca como subsistência. Portanto, neste trabalho analisa-se o posicionamento, postura da empresa, frente a opinião pública, suas ações e a cobertura do Jornal Nacional frente ao acontecimento. Também, qual é o tipo de relação que a mídia tem com grandes empresas semelhantes a BP, se sua postura quanto a elas pode ser isenta, quando um desastre destes ocorre, por conta do relacionamento econômico e político que mantém com as mesmas.

3. Mídia, meio ambiente e os interesses econômicos

Estudos realizados pelo Instituto Databerje com comunicadores, fundações e institutos ligados à Associação Brasileira de Comunicação Social (Aberje) e ao Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) revelam que a mídia é tida como a grande formadora de opinião quando o assunto é sustentabilidade. Os resultados da pesquisa foram apresentados no 1º Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade ocorrido em 2007.

‘As corporações que `dominam o mercado´ na mídia de massa [mainstream media] influenciam de forma preponderante as notícias que o público recebe, a informação, as ideias das pessoas, a cultura popular e as posturas políticas’ (BAGDIKIAN, 1993, p. 25). A influência que os meios de comunicação exercem sobre a sociedade é perceptível quando se analisam casos como o da General Electric Company (GE).

A GE, centenária empresa de alcance global, está inserida em diversificados setores de mercado, que abrange desde a: fabricação de componentes elétricos, gás e petróleo até aviação, desenvolvimento de tecnologias e serviços usados na medicina, fabricação de material bélico para fins militares, distribuição de redes elétricas, energia, água, desenvolvimento de softwares, construção de ferrovias, financiamento de crédito bancário, além de mídia e entretenimento (site oficial GE).

Em uma análise acerca da GE, verificou-se que o canal americano NBC (National Broadcast Channel) é o braço midiático desta companhia. E segundo Bourdieu (1997), a mídia sofre pressão econômica, a supor algum problema com os produtos oferecidos pelo conglomerado econômico da GE, as informações seriam veiculadas em seu canal de TV sob uma perspectiva que não condiz com a realidade, tendo como conseqüência a não-desvalorização da marca no mercado, nem prejuízo de imagem perante os públicos de interesse e redução de consumo.

A GE não está na vanguarda de produção de novas tecnologias ou de produtos mais caros do mercado. No entanto, é ela quem produz componentes de produtos essenciais desenvolvidos a partir de matéria-prima não-renovável (minérios, petróleo…) e que são consumidos pela população mundial. Isso faz com que a GE e outras gigantes similares sejam parte integrante deste modelo de desenvolvimento no mundo globalizado. Entende-se que desenvolvimento sustentável é ‘qualificar o crescimento e reconciliar o desenvolvimento econômico com a necessidade de se preservar o meio ambiente. […] Extraindo-se uma parte de um recurso não-renovável, o estoque desse recurso irá se reduzir irreversivelmente. Por fim, ele se exaure totalmente […] e o uso de recursos não-renováveis não pode ser jamais sustentável’ (BINSWANGER, 1997). Como, então, a NBC iria abordar fatos relacionados a desenvolvimento ou consumo sustentável, se talvez tivesse de ir contra os interesses político-econômicos do resto do conglomerado do qual faz parte?

A mainstream media faz parte ou constitui por si só uma grande empresa que tem por objetivo final o lucro e, assim, está envolvida em grandes conglomerados econômicos. Bagdikian, 1993 sobre este assunto diz:

‘Quando a General Electric comprou a RCA em 1986 (e com ela o NBC News), juntou o poder da mídia a seus outros interesses industriais e financeiros.[…] com vendas que excedem os 40 bilhões anuais. […] À medida que crescem, os conglomerados da mídia tendem a se integrar aos mais altos níveis da vida dos bancos e indústrias americanas […]. Metade dessas firmas dominantes estão na lista da Fortune […]. Entre outras coisas, investem bastante na indústria agrícola, linhas aéreas, carvão e petróleo, bancos, seguros, material bélico, comércio de automóveis, engenharia espacial, energia e armas nucleares.’

Justamente por fazer parte destes grupos é que as notícias produzidas e veiculadas pelos diversos meios de comunicação não interferem nos interesses econômicos e políticos pretendidos pelas grandes corporações porque não há criticidade no processo de captura de informações, tratamento e difusão das mesmas. Assim, a informação passa a ser homogeneizada e ganha ares de verdade quando são emitidas por jornalistas. A informação torna-se, portanto, uma importante mercadoria.

A mídia é um veículo para a difusão do estilo de vida baseado no consumo, dos produtos provenientes de seus parceiros comerciais, como os anunciantes e de seus próprios proprietários. Há o merchandising de lançamentos novos do mercado no intervalo de sua programação, ou quando o personagem de um popular seriado de TV utiliza certo produto ou serviço, através dela não é discutida a idéia de objeto de uso e objeto de consumo [entende-se por objeto de uso, os produtos utilitários como vestuário. Que torna-se objeto de consumo por meio do fetiche. O objeto de consumo é aquele que não supre somente a necessidade, mas também o desejo de possuir uma marca específica do produto]. Visando à manutenção e ao aumento do consumo, os objetos têm seu tempo de vida útil reduzido o que gera uma necessidade de troca, sendo consumido novamente em um ciclo vicioso. ‘À medida que a obsolescência programada se torna o combustível que movimenta as engrenagens de consumo e que orienta o indivíduo para suas próximas escolhas, maiores são os custos sociais que dela resultam’ (p. 3).

Mesmo que se tenha recursos disponíveis para pesquisas sobre formas alternativas de se consumir e produzir energia, a realidade do uso de combustíveis fósseis não será outra, ao menos que esteja em vias de se esgotar ou se esgotar por completo.

4. Meio ambiente pelos olhos do mercado

Meio ambiente e ecologia são conceitos abstratos quando tratados pela mídia, o que cria um distanciamento entre o que é percebido pela massa consumidora de notícias e o que acontece de fato. ‘O modo como a mídia seleciona, edita e relata faz toda a diferença na assimilação de conceitos e fatos, levando-se em conta que `há sempre a escolha do repertório léxico e simbólico usado na representação de um fato´ (Martino, 2003, p. 90)’. Para a mídia não basta, por exemplo, noticiar um grande desastre ambiental, é preciso que estejam envolvidos personagens e cenários ainda maiores.

Pode-se tomar como outro parâmetro o que acontece na Nigéria, não é interessante a veiculação nos grandes meios de comunicação sobre os constantes rompimentos de dutos de petróleo que atravessam todo seu território (Ambientar essa é a luta, 2010, acessado em 28/06/2010). Tendo em vista que estes grandes conglomerados econômicos influenciam diretamente na economia de um país é impossível não imaginar que existam acordos entre o estado e estes mesmos grupos econômicos.

De acordo com a ‘doutrina [neste caso, doutrina está no sentido de princípios de uma escola política e econômica. Trazendo para a discussão deste artigo é o modo como o homem se relaciona com a natureza subjugando-a por de técnicas, da ciência e da informação]’ ocidental, onde a natureza é dominada pela ciência e pela técnica, logo, a informação enquanto mercadoria é mais uma ferramenta a serviço de interesses capitalistas, que visam primeiramente, a transformação no campo ideológico, traduzindo-as em ações que então são capazes de transformar o ambiente circundante (EDUCAÇÃO AMBIENTAL pag. 143).

Em se tratando dos chamados ‘mercados verdes [mercados verdes são aqueles baseados em produtos que se dizem ambientalmente corretos. Como diz Layarargues (2000) a maior dificuldade de entendimento está na divergência entre o ambientalismo estrito-senso e o ambientalismo empresarial. Pois onde o primeiro encontra o problema para as questões ambientais, o segundo encontra a solução, o mercado]’, as empresas por razões políticas, sociais e financeiras tiveram de adequar sua conduta perante a opinião pública que a partir da década de 60 do século 20 tomou conhecimento de como as empresas eram poluidoras do meio ambiente. Livros como Silent Spring, de Rachel Carson, publicado em 1962, denunciavam a milionária indústria de agroquímicos e químicos industriais, em especial o pesticida DDT, utilizado em larga escala nas plantações de legumes e vegetais nos EUA, que é uma perigosa toxina cancerígena usada para exterminar pragas. Partindo desta problemática, a National Agricultural Chemical Association contratou os serviços de escritórios de Relações Públicas a fim de desenvolver procedimentos que tirassem o foco do problema central, redirecionando a discussão acerca da controvérsia gerada a partir das ações ecologicamente percebidas como incorretas.

A partir do esforço destes escritórios foram então criados manuais de conduta sobre como agir em situações de conflitos com a opinião pública no que tange à temática ambiental. Além disso, foram instituídas terminologias como o Greenwashing, Greening, Green PR [greenwashing é usado de forma pejorativa para descrever práticas falsamente revestidas de idéias em prol do meio ambiente. Já o greening é o processo de mudança de política e atitude de uma empresa que busca ser vista como sustentável. E Green PR é a atividade de Relações Públicas na qual é prestada consultoria a empresas que desejam criar planos de comunicação para os projetos ambientais da empresa-cliente], as quais foram e são usadas para descrever empresas poluidoras falsamente tidas como ambientalmente responsável (STAUBER; RAMPTON, 1995).

Em resposta ao livro da autora Rachel Carson, o profissional de Relações Públicas E. Bruce Harrison escreveu a primeira obra dedicada à comunicação ambiental para empresas, intitulada Going Green: How to Comunicate your Companys Enviromental Commitment. Neste livro, o autor deixa clara a importância das grandes corporações em se adequarem a nova realidade no mundo dos negócios, se quisessem se manter competitivas teriam de levar em conta as questões ambientais, e fazer com que tais políticas adotadas pelas empresas fossem reconhecidas pelo público.

Sendo tudo inclusono mercado, até o meio ambiente, segundo Paula Brugger apud Layrargues ‘o maior problema é que onde o ambientalismo estrito-senso vê o problema, ou seja, `o mercado´, o ambientalismo empresarial vê a solução.’ (p. 154). Assim, quando a solução seria a redução do consumo nos mais variados aspectos, cria-se a falsa ideia de consumo sustentável.

O ambientalismo é, na verdade, um nicho lucrativo de negócios. Segundo E. Bruce Harrison,

‘In the evolving death of the environmental movement, it was institutionalized, then accepted and, in April 1991, at the Second World Industry Conference on Environmental Management (WICEM II), it was given a new name: sustainable development.

Sustainable development is, even after years of debate, a theoritical concept. It’s the Green grail. It means growth plus greening, or greening plus growth. The definition depends much on where you live. Developing nations see sustainable development as economic strategy: using Green concerns as leverage to boost their economies. Industrialized countries see it as a strategy for integrating very high environmental Standards with highly competitive economic conditions. They have to make sure they can stay viable in their markets while they are reaching new green heights.’

Nos países desenvolvidos, o nível de exigência do consumidor é maior com relação a serviços e produtos oferecidos, logo, uma empresa que não se mostra ambientalmente responsável tende a perder mercado frente a outras. Assim sendo, as empresas além de possuir políticas e práticas ambientalmente saudáveis devem elaborar um plano estratégico a fim de demonstrar a seus públicos de interesse que estas práticas estão incorporadas a cultura da empresa. Ou seja, não é suficiente, para o mercado, ser sustentável, é preciso parecer sustentável.

O consumo consciente, embora muito difundido por empresas e pela mídia não tem impacto efetivo nas ações e formas de consumo da sociedade. Constata-se isso porque ‘[…] apesar de metade da população mundial se encontrar abaixo da linha de pobreza, ganhando menos de dois dólares por dia, já estamos consumindo cerca de 20 a 30% mais do que a Terra consegue suportar (na extração de combustíveis fósseis, na produção de novas substâncias, no aquecimento global etc.)’ (SANTOS; p. 4).

5. Quem é a BP?

Em 1901, o milionário e explorador inglês William Knox D´Arcy, em nome da coroa britânica, aventurou-se em terras persas (onde hoje se localiza a República Islâmica do Irã) em busca de campos petrolíferos. Nesta procura, no ano de 1908, D´Arcy encontrou na região sudoeste da Pérsia seu primeiro campo de prospecção. E em 1909 fundou juntamente com o governo persa a empresa de capital misto Anglo-Persian Oil Company.

Pouco antes da 1a Guerra Mundial, a companhia enfrentava problemas em conseguir um forte financiador para suas operações e um bom consumidor para o seu produto. Encontrou os dois por meio de negociações com o então Primeiro lorde Almirante da Marinha Real Britânica Winston S. Churchill. Churchill foi um forte incentivador para que a marinha de seu país aderisse ao petróleo como nova fonte energética para sua frota marítima em vez do carvão.

Churchill conseguiu investimento na ordem de 2 milhões de libras esterlinas, assumindo a posição de principal consumidor e tornando o Império Britânico o principal acionista da companhia. O que possibilitou a expansão dos negócios para outros países e continentes como o Canadá, Estados Unidos, África e América do Sul.

Após algumas mudanças de nome e desavenças com o governo iraniano acerca da divisão dos lucros veio a necessidade de diversificar seus investimentos no oriente médio, a empresa migrou para o Kuwait, Líbia e Iraque. E no ano de 1954, é renomeada Bristish Petroleum, como ficou conhecida por décadas.

Na década de 1960, a British Petroleum passou a focar seus esforços em descobrir novos sítios de exploração petrolífera ao redor do mundo, como o Alasca e o Mar Ártico, apesar da manutenção do sigilo acerca da referida descoberta de petróleo nestas regiões. Apenas com a crise do petróleo [em pouquíssimas palavras, eis uma breve resenha do que foi a crise mundial do petróleo ocorrida da década de 60 à de 80 em três fases. Sendo a primeira, culminante de uma série de nacionalizações e conflitos envolvendo países árabes produtores e exportadores de petróleo e Israel que elevaram abruptamente o preço desta commodity. A segunda fase se deu em 1973 quando os Estados Unidos da América apoiaram Israel na Guerra do Yom Kippur, o que levou os países árabes a elevar o preço dos barris em mais de 300% em forma de protesto. Já a terceira fase ocorreu durante a revolução islâmica do Irã e a deposição do xá Reza Pahlevi, o que desencadeou a desestruturação de toda a produção de petróleo do país. Logo após a revolução islâmica, o Irã foi invadido pela nação vizinha do Iraque, um igualmente gigante exportador de petróleo, com ambos os países lançados em uma guerra o preço do barril inflacionou em 1000%] a partir do final da década de 1960 ela levou a conhecimento público tais descobertas.

Após a revolução islâmica no Irã em 1979, a British Petroleum foi expulsa do país, nessa mesma época a empresa passou a diversificar suas áreas de abrangência no mercado, investindo em produtos petroquímicos e plástico. Na década de 1980, foram feitos altos investimentos na companhia e em 1987, o governo britânico vendeu suas últimas ações tornando-a uma empresa de capital exclusivamente privado.

Ainda em 1987, a empresa passou a investir em aquisições e fusões de mercado. Adquiriu a Britoil e comprou parte das ações da Standard Oil of Ohio. Em 1998 fundiu-se com a Amoco (Standard Oil Of Indiana), uma grande petrolífera americana fundada por John D. Rockefeller e tornou-se BP Amoco plc e também uma das maiores companhias petrolíferas do mundo. Dois anos depois, adquiriu a Arco (Atlantic Richfield Company) e a Burmah Castrol plc.

A partir de 2001 a empresa passa ser chamada, oficialmente BP e adota o slogan ‘Beyond Petroleum’ (além do petróleo). Após as fusões e aquisições a BP passou a figurar entre as três principais marcas dos consumidores americanos, juntamente com a Chevron e a Shell, por conta de muitos postos da BP nos EUA ainda levarem o nome da Amoco. O conglomerado BP agora possui um alcance maior de serviços e produtos através de seus braços comerciais, sendo eles: Aral (rede de postos de gasolina líder de mercado na Alemanha), Arco (rede de postos de gasolina especializada em venda de combustíveis a baixo custo), Castrol (Fabricante e distribuidora de óleo e lubrificante para motores), AmPm (rede de lojas de conveniência de postos de combustíveis) e a Wild Bean Café (rede de lojas de café e comida, localizadas em auto-estradas).

Desde então, a empresa gastou milhões de dólares com propagandas que visavam a edificação de uma imagem favorável perante a sociedade e movimentos ativistas, $200 milhões apenas no primeiro ano. Gasto justificado para afirmar seu ‘compromisso’ com o meio ambiente e no desenvolvimento de pesquisa em tecnologias de energias alternativas (Greenpeace, Walker, disponível em 14/07/2010).

Embora todo o esforço de manter uma imagem de empresa a caminho da sustentabilidade, devem ser destacados alguns pontos que depõem contra o que vinha sendo mostrado: 93% dos investimentos da empresa estão voltados para a extração de petróleo e gás, 2.79% para energia eólica, 1.39% para energia solar e 2.79% em biocombustíveis; o encerramento das atividades das divisões de pesquisa em desenvolvimento de tecnologia solar e eólica na Inglaterra, Estados Unidos e Espanha no ano de 2009 (Greenpeace, Walker, disponível em 14/07/2010). Neste mesmo ano, o Greenpeace elegeu a empresa como vencedora do prêmio Greenwash.

Sendo assim, é visível o descompasso entre as ações de Relações Públicas exercia até então e as que deveria exercer. Ao mudar o nome da empresa para BP, em alusão ao slogan da mesma (Beyond Petroleum), sugere não só uma mudança na percepção da empresa com relação ao meio ambiente, mas também espera-se que ela tome pra si a responsabilidade de agir de forma a entrar em concordância com o discurso proferido. É preciso que a imagem da empresa ou a imagem pretendida se ajuste a sua identidade. Quando imagem e identidade não estão em conformidade, as ações da empresa não possuem a legitimação necessária. Pode-se inferir, então, que a mudança do nome e do slogan da BP não surgiu por uma mudança de atitude. O que se vê é que o intuito da campanha iniciada no ano 2000 foi apenas uma forma de reposicionar o foco da sociedade para fazer crer que o objetivo da empresa em buscar alternativas ao petróleo fossem legítimas. Este tipo de ação na atividade de Relações Públicas chama-se greenwash.

Quando uma empresa como a BP anuncia mudança de posicionamento perante alguma temática de relevância para a sociedade, em contrapartida gera expectativa nos públicos de interesse, movimentos ativistas e governos. A atividade de Relações Públicas A profissão de Relações Públicas está intimamente ligada ao fenômeno da opinião pública. Numa sociedade em que o fluxo de informações está sempre em constante crescimento e o ser humano é bombardeado por informações vindas da televisão, do rádio, de jornais, revistas, outdoors, internet, é difícil saber o que diz e pensa a opinião pública. Por isso, ela é sempre mutável e capaz de influenciar atitudes e pensamentos. Segundo Andrade, ‘é inegável que a opinião pública é formada por meio das discussões. Mas é claro, também, que a qualidade de opinião pública depende muito da eficácia da discussão, que, por sua vez, está na dependência veículos de comunicação’ (1983, p. 19).

6. O desastre no Golfo do México

O histórico de desastres da BP na década 2000 começou em 2005 quando uma explosão em uma refinaria da empresa na cidade do Texas atingiu 187 pessoas, matando 14 delas. Como consequência, enfrentou processos das famílias dos funcionários e da Occupational Safety and Health Administration [órgão governamental dos Estados Unidos subordinado Departamento de Trabalho estadounidense, responsável for fiscalizar a segurança e saúde ocupacional. O órgão responde ao secretário de trabalho do qual faz parte o gabinete do presidente dos EUA] (Osha), gastando aproximadamente $1.6 bilhões em indenizações. No ano seguinte a BP foi responsável pelo maior derramamento de petróleo do norte do Alasca, quando um dos dutos condutores do produto estourou, durante cinco dias despejou no mar o equivalente a 200.000 barris de petróleo, meses depois o mesmo duto despejou novamente cerca de 1.000 barris. O mais recente foi na virada da década, em 20 de abril de 2010, quando a plataforma Deepwater Horizon explodiu, ocasionando o rompimento do único duto que transportava o petróleo do subsolo oceânico à superfície. Este rompimento causou o maior acidente ambiental da história dos Estados Unidos (WALKER; Greenpeace, acessado em 14/07/2010).

No começo da crise, a BP não se pronunciava como culpada pelo vazamento de óleo, creditando-a a um de seus fornecedores. Apenas dias após a veiculação da notícia e a massificação da mesma pela mídia é que a empresa assumiu responsabilidade sobre o acidente. Nas diversas declarações oficiais feitas por intermédio de entrevistas e em seu próprio site, ela minimizava a abrangência do acidente.

Com a massificação da informação pela mídia, seu histórico veio a tona, revelando uma série de acidentes e tentativas de ludibriar a opinião pública ao investir somas vultuosas de dinheiro em campanhas de comunicação. Sendo assim, seus investimentos em propaganda visando a melhoria de sua imagem foram ‘desmascaradas’, pois todo o plano ao longo de uma década com vistas a mudar a imagem de uma empresa petrolífera para uma empresa que buscava excelência na produção de energia caracterizou-se como greenwashing.

Foi somente após as informações provindas de redes sociais, blogs e micro-blogs de ambientalistas e moradores da costa do Golfo, sobre a real situação do desastre, que houve a sensibilização da opinião pública quanto ao acontecido. As grandes redes americanas de televisão e o próprio governo do país focaram suas atenções para o que estava acontecendo ali. As relações entre a empresa de origem britânica com os EUA criaram estranheza e desconforto entre os cidadãos americanos, questionamentos do porque uma empresa estrangeira estava extraindo petróleo em solo estadunidense.

Trazendo a temática para a esfera da opinião pública brasileira, e tendo como base o telejornal apresentado pela rede globo de televisão Jornal Nacional, percebemos que o foco da notícia não era sobre a empresa causadora do desastre, e sim sobre as ações que o governo americano estava tomando frente a crise. Verifica-se este enfoque na postura assumida pelo governo quando buscaram-se os títulos e subtítulos das notícias veiculadas no jornal como: ‘Obama quer saber que traseiro deve chutar por causa de vazamento no Golfo do México’ (veiculada em 07/06/2010), ‘a Casa Branca tenta evitar a impressão de que Obama não tem competência para resolver essa crise’ (veiculada em 27/05/2010), ‘Obama promete processar culpados pelo vazamento no Golfo do México’ (veiculada em 28/05/2010). Até mesmo quando correspondentes internacionais do telejornal como Rodrigo Alvarez concentraram as notícias somente na questão ambiental e social, sem uma investigação acerca do histórico da empresa e de seus desastres anteriores. A únicas notas citando o nome da empresa petrolífera saíram no próprio site do Jornal Nacional, sem veiculação na televisão.

Houve também diariamente matérias relacionadas às fracassadas tentativas da empresa de conter o vazamento no fundo do oceano, enquanto o enfoque da notícia está na empresa, há o destacamento do lado negativo da mesma. Enquanto o foco está no governo americano, o tratamento dado é o de mostrar o engajamento deles em relação tanto em cobrar esforços da empresa para a solução da crise, quanto para a preocupação dos mesmos com o meio ambiente e os moradores do local.

Estimativas não oficiais de órgãos ambientalistas como o Greenpeace, calcularam que eram derramadas diariamente o equivalente a 60.000 barris de petróleo por dia, ao todo, até o fechamento da perfuração em 15 de julho de 2010, foram jogados ao mar mais de 16 milhões de barris. O impacto negativo do derramamento atingiu toda a vida animal do entorno do golfo do México. Aves e peixes foram contaminados pelo contato com o óleo bruto, o que influenciou também na vida de milhares de famílias que vivem no litoral dos estados de New Orleans e da Louisiana que têm na pesca sua principal fonte de renda.

A partir daí a mudança de postura da empresa quanto ao caso mudou radicalmente, a equipe anti crise da BP, resolveu não se limitar apenas em responder através da televisão, e fez uso maciço da internet. Umas das primeiras medidas foi compra do nome de sua companhia no site de buscas Google, utilizando esta ferramenta, todas as páginas envolvendo o nome BP eram filtradas, deixando as primeiras home pages encontradas sendo as de interesse da própria empresa. O uso do twitter também foi exaustivamente utilizado, com postagens de hora em hora com informações sobre as medidas que estavam sendo tomadas para diminuir o vazamento de óleo, o resgate de animais atingidos, o valor que estava sendo gasto para amparar as famílias e sobre o fundo criado juntamente com o governo para as futuras indenizações. No site oficial, era possível encontrar um volume imenso de informações sobre o desastre, entrevistas com funcionários do alto escalão da empresa e previsões de cientistas falando sobre a recuperação do entorno da área atingida, além de fotos e vídeos das equipes da BP salvando as aves sujas de óleo. Também possuía um canal direto com os visitantes da home page para que os mesmos dessem sugestões do que mais a empresa poderia estar fazendo para diminuir os impactos do desastre.

7. Considerações Finais

No estudo de Relações Públicas aprende-se que o gerenciamento de uma crise deve ser pautado pela verdade e transparência no relacionamento com seus públicos de interesse. As ações devem ir de acordo com as políticas, cultura e filosofia da empresa, pois assim, a legitimidade das ações cria subsídios para a imagem ser menos prejudicada, tendo, desta forma, uma reconstrução de imagem mais rápida e poder desfrutar de parte ou todo o prestígio alcançado momentos antes de uma crise.

No caso da BP, todo o seu histórico de uma empresa que estava a caminho da sustentabilidade energética, ruiu quando a crise veio a tona. Desta maneira, a empresa não agiu conforme seu discurso. Todo o investimento para se afirmar como uma empresa de energia que vai ‘além do petróleo’ perdeu o efeito. Vem a somar a este fato, o ocorrido com a compra de direitos na página de pesquisa do Google; a compra do silêncio dos pescadores locais para não se pronunciarem no que diz respeito ao acidente; ações de grupos ambientalistas; e a opinião pública que foi bombardeada por informações largamente negativas sobre a empresa, e expuseram seu ponto de vista por meio da internet. Isso tornou o gerenciamento muito mais complexo, tendo que ser feito através de várias frentes.

A cobertura se tornou mais crítica ainda, por se tratar de uma empresa estrangeira trabalhando em solo americano. Os interesses do governo americano que empresas petrolíferas tão grandes quanto a BP sejam alvo de críticas é enorme, por se tratar de uma commoditie estratégica. A abordagem que o Jornal Nacional deu ao assunto, mostrou-se superficial por não fundamentar a notícia na história da empresa, ou sua forjada condição de ‘sustentabilidade’, concentrando a maior parte das notícias relacionadas à resposta que o governo americano estava dando a crise, e a postura do presidente estadunidense Barack Obama.

Após o levantamento de dados e análise da industria petrolífera e conglomerados econômicos controladores de grandes redes midiáticas, nos questionamos se, a cobertura imprimida pelo Jornal Nacional à crise do Golfo do México tem relação com interesses pouco transparentes por parte de empresas petrolíferas atuantes em nosso país que assim como a BP, executam extração de petróleo em águas profundas e ultra profundas?

******

Estudantes de Relações Públicas da Universidade Federal do Amazonas, Manaus, AM

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem