Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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O caso da adoção de duas meninas

Por Léo Nogueira em 18/08/2009 na edição 551

Eu sou jornalista, formado, inclusive, e sempre admirei o trabalho de um colega chamado Ricardo Kotscho. Para quem não o conhece, Kotscho é um dos mais importantes jornalistas brasileiros da atualidade e do passado recente. Não, não estou exagerando. Durante o regime militar, ele coordenou uma série de reportagens, intituladas ‘Mordomias’, que tratavam dos gastos nababescos de políticos da época. Pressionado pela repercussão que o trabalho alcançou, o jornalista passou alguns anos fora do país esperando, digamos, a poeira baixar. Nos anos 80, Kotscho cobriu, pelo jornal Folha de S. Paulo, o movimento pelas Diretas-Já. O trabalho, como o anteriormente citado, também foi brilhante. Eu li, muito anos depois, parte desses textos. Me surpreende, portanto, que alguém com esse currículo censure ou, ao menos, mande censurar.

Explico: em 31 de julho de 2009, o blog do jornalista publicou um texto intitulado ‘Dois anos de batalha para adotar duas filhas’. O texto trazia um relato das dificuldades enfrentadas por Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Lula, para adotar duas crianças. O texto, escrito pelo próprio Carvalho, é comovente, como, aliás, vários dos comentários ressaltaram, mas o que realmente me chamou à atenção foi o trecho abaixo:

‘Durante este processo [o de adoção], várias oportunidades se ofereceram para a gente [Gilberto Carvalho e sua esposa] `furar a fila´. Mas tínhamos compreensão de que não poderíamos ir por esse caminho. Nas poucas vezes que decidimos examinar estas possibilidades sempre vimos que era complicado e que o melhor era aguardar.’

Em função desse fragmento, apenas comentei o seguinte no blog do jornalista Ricardo Kotscho: escrevi que respeitava Gilberto Carvalho, mas que o mesmo precisava denunciar quais foram as ‘oportunidades’ que ele e sua mulher tiveram para furar a fila da adoção. No texto, Carvalho ressalta que se recusou a trilhar um caminho ilegal, mas deixa explícito que foram oferecidas vantagens indevidas em um processo que deveria ser baseado na isonomia. Para minha surpresa, o comentário foi rapidamente apagado do endereço eletrônico.

Reescrevi um texto com o mesmo teor e ele foi, novamente, retirado do ar pelo ‘moderador’ da página. Não sei se o ‘moderador’ é o próprio Kotscho ou algum contratado. Se eu tivesse ofendido Gilberto Carvalho ou usado termos chulos nos meus comentários, eu entenderia a censura. Contudo, fiz somente uma análise de como deveria se portar um homem probo, sobretudo uma figura tão importante do poder executivo federal.

Indignado com a censura promovida pelo blog que outrora havia admirado, decidi reescrever, mais uma vez, a minha opinião sobre a notícia publicada em 31 de julho. Em seguida, salvei a página eletrônica em questão, com a imagem dos meus comentários, pois já havia decidido tornar pública essa censura tão inusitada.

‘Quem modera o moderador?’

No arquivo anexo, intitulado ‘Exclusivo/Dois anos de batalha para adotar duas filhas’, o texto publicado no blog de Kotscho na ocasião está na íntegra. No mesmo arquivo, também é possível ler, no final da página, os três comentários abaixo.

‘Seu comentário está aguardando moderação.’

31/07/2009 – 19:04 Enviado por: Leo

Respeito Gilberto Carvalho, mas ele precisa explicar quais ‘oportunidades’ foram oferecidas para que ele pudesse furar a fila da adoção. Como já disse, isso é muito grave. Se isso realmente ocorreu, é algo que deve ser investigado. Sendo assessor do Presidente da República, isso se torna ainda mais grave. Pena o Blog está censurando os meus comentários. Ainda não entendi a razão disso. Afinal, não estou ofendendo ninguém.’

‘Seu comentário está aguardando moderação.’

31/07/2009 – 19:04 Enviado por: Leo

Abaixo a censura neste blog!!!’

‘Seu comentário está aguardando moderação.’

31/07/2009 – 19:05 Enviado por: Leo

Quem modera o moderador?’

Uma relação de amizade

Os três comentários acima, que aguardavam ‘moderação’ no momento em que ‘copiei’ a página eletrônica, são de minha autoria. Clicando no nome do autor dos comentários, que é o apelido de quem vos escreve, o leitor é transportado para o meu blog (http://indiegesto.zip.net/), no qual uso o pseudônimo de Leo Gomez. No arquivo que tive a felicidade de salvar, os meus três comentários são antecedidos pelo de um tal de ‘oromar’. Ele (ou ela) parabenizou, às 18h33 daquele dia (lembrem-se: 31 de julho de 2009), Gilberto Carvalho, sua esposa e ‘todos os outros casais brasileiros que demonstram grandeza de espírito por esse ato exemplar de cidadania e amor.’ No link abaixo, no entanto, nenhum dos meus comentários aparece. O link traz a página atualizada (e devidamente censurada) do blog de Ricardo Kotscho. Após o texto de ‘oromar’, que, repito, não sei se é menino ou menina, há mais de duas dezenas de comentários, nenhum deles assinados por mim. Sugiro que comparem o link abaixo com o arquivo copiado por mim há alguns dias.

http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/2009/07/31/exclusivo-dois-anos-de-batalha-para-adotar-duas-filhas/

Entre 2003 e 2004, Ricardo Kotscho foi secretário de Imprensa da Presidência da República. Ele tem uma relação muito próxima com o presidente Lula e Gilberto Carvalho, um dos seus principais assessores. Eu entendo que Kotscho tenha afeto pelos dois, mas ele deveria concentrar-se no trabalho de jornalista, e não no de censor, ainda que este seja motivado pela amizade.

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