Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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O comportamento ‘doentio’ da mídia

Por Daiana Ferreira de Cerqueira em 04/11/2008 na edição 510

‘Quem matou Eloá’? A pergunta feita pelo jornalista Nelson Hoineff em seu artigo publicado no dia 21/10/2008, no Observatório da Imprensa, merece ser parafraseada. Depois de 100 horas de sofrimento, a jovem Eloá, 15 anos, foi assassinada pelo ex-namorado Lindemberg Alves. O desfecho poderia ter sido bem diferente, caso a imprensa se comportasse de acordo com os princípios éticos do jornalismo. Com isso, a mídia massiva parecer ter conseguido chegar ao ‘orgasmo’, depois de patrocinar do início ao fim todo o caso.

Impunidade. Talvez essa palavra seja um tanto pesada para ser direcionada à mídia. Mas é preciso direcioná-la, já que não foi apenas Lindemberg o criminoso. Nesse sentido, a imprensa, de modo geral, cometeu vários delitos e, portanto, deveria ser punida pelo comportamento ‘doentio’ sensacionalista que desenvolveu. Mais uma vez se provou a hostilidade da cobertura jornalística, salvo raras exceções. Alguns jornalistas, no afã de informar, deturparam o sentido das informações, cometendo um crime perante a sociedade, a ponto de matar a garota antes mesmo de ser declarada a sua morte.

Manipular opiniões

A imprensa transformou um rapaz sem ficha criminosa, apenas desorientado psicologicamente, em um célebre assassino. Ela torcia para que a tragédia fosse consumada. Os jornalistas foram antiéticos em sua cobertura. Foram ridículos em vários momentos – afinal, jornalismo sem ética é uma atividade medíocre. Suprimir a ética da cobertura jornalística é perder o controle da situação, é agir segundo suas próprias conveniências, como fez a imprensa nacional, oferecendo à população um produto baseado na audiência e, conseqüentemente, no lucro, e garantindo assim 1º e 2º lugares na audiência, como fizeram a Rede Record e Rede Globo, respectivamente.

Isso faz lembrar o filme A Montanha dos Sete Abutres, no qual um repórter consegue driblar as circunstâncias ocorridas na mina com o intuito de dar um furo de reportagem, publicando matérias de caráter ‘exclusivo’ para os grandes jornais de circulação do Leste dos Estados Unidos, com o intento de alcançar notoriedade.

O caso Eloá foi mais um dos espetáculos protagonizados pela grande mídia. Quem lembra do caso Escola Base? Nesse espetáculo, a imprensa nacional julgou e condenou os donos da escolinha. Destruiu vidas, causando uma série de estragos morais e psicológicos. Em ambos os casos, podemos responsabilizar a mídia e parabenizá-la pela conquista de pontos na audiência? Afinal, vale tudo nessa guerra, até inverter os papéis, a exemplo de alguns jornalistas que se tornaram negociadores, disputando com a PM a fim de se sobressaírem.

Abusar da liberdade de expressão, contrariando os preceitos básicos para um bom jornalismo, é monopolizar a informação. É fazer a população refém de uma informação substancialmente partidária em que o foco é manipular opiniões. O objetivo da imprensa é informar e é direito da população se manter informada. Para tanto, ambas precisam caminhar simultaneamente, mantendo um equilíbrio. Isto quer dizer que convém a um jornalista publicar uma informação sem, contudo, ignorar os direitos concedidos por lei aos cidadãos.

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Estudante de Comunicação Social-Jornalismo da Faculdade 2 de Julho, Salvador, BA

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