Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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FEITOS & DESFEITAS >

O culto ao sofrimento e à dor

Por José Valmir Dantas de Andrade em 14/04/2009 na edição 533

Entre a dor e o sofrimento e a vida como uma construção artística, prazerosa e felicitante, aqueles levam uma larga vantagem sobre esta. Tendo como referência o pensamento de Jean-Paul Sartre, é mister afirmar que o homem é movido por dois tipos de ek-stases: o ek-stase que nos joga no ser-em-si e o que nos engaja no não-ser. O ocidente desenvolveu a teologia sacrifical da negação da vida em suas dimensões físicas e ontológicas, há um ek-stase em sacrificar, depois cultuar aquilo que sacrificamos. É a teoria da culpabilidade típica ao masoquismo e ao sadismo. É incrível como a dor provoca fascínio no ser humano. Há mesmo, um verdadeiro êxtase à dor e ao sofrimento/sacrifício. Vivemos numa sociedade necrófila, ciclotímica e que prescinde à liberdade. Nesta sociedade, onde há dor e vilania, há audiência nos programas e tramas televisivas. É lugar-comum você ouvir uma pessoa alienada se julgando culpada, e ai de quem não assim se sentir! É uma sociedade de sadismo e masoquismo.

Sartre afirma, em seu tratado de fenomenologia ontológica O Ser e o Nada que, ‘o masoquismo, tal como o sadismo, é assunção da culpabilidade. Sou culpado, com efeito, pelo simples fato de que sou objeto. Culpado frente a mim mesmo, posto que consinto em minha alienação absoluta; culpado frente ao outro, pois dou-lhe a ocasião de ser culpado, ou seja, de abortar a minha liberdade enquanto tal. O masoquismo é uma tentativa, não de fascinar o outro por minha objetividade, mas de fazer com que eu mesmo me fascine por minha objetividade para o outro, ou seja, fazer com que eu me constitua um objeto pelo outro, de tal modo que apreenda não-teticamente minha subjetividade como um nada, em presença do em-si que represento aos olhos do outro. O masoquismo caracteriza-se como uma espécie de vertigem: não a vertigem ante o princípio da rocha e terra, mas frente ao abismo da subjetividade do outro.’

Sadismo é negação do ser encarnado

O masoquismo é, portanto, um princípio do fracasso. A tese central de Sartre sobre o masoquismo é a de que é um culto a fracasso, um vício, uma alienação. O sujeito alienado abre mão da sua subjetividade e torna-se um ser simpático à opressão e ao opressor. Por exemplo: o papa é uma figura que vive de braços dados com o capitalismo – que leva mais de um bilhão de pessoas a viverem na mais completa penúria em todo o mundo – mas a figura religiosa deste homem é idolatrada justamente por essas vítimas. O princípio da alienação, do não ser, não se desenvolveria numa sociedade, sem duas coisas básicas: o consentimento à minha alienação e a objetificação do outro, em suma: a manipulação do ser humano e sua subjetividade num processo de niilismo. Outro objeto de análise para mensurar o comportamento do homem usado por Sartre é o sadismo, uma forma de infiltrar a minha dor no outro.

O sadismo é, partindo deste pressuposto, um pathos, uma patologia. Não foi por um acaso que durante anos, quiçá ainda hoje, os masoquistas eram canonizados pela Igreja Católica. Sartre o define da seguinte forma: ‘O sadismo é uma paixão, secura e obstinação. É obstinação porque é um estado de um para-si que se capta como comprometido e persiste em seu compromisso sem ter clara consciência do objeto que se propôs nem lembrança precisa do valor que atribuiu a esse compromisso. É secura porque aparece quando o desejo foi esvaziado de sua turvação. O sádico recupera seu corpo enquanto totalidade sintética e centro de ação; recolocou-se na figura perpétua de sua própria faticidade; faz experiência de si mesmo frente ao outro enquanto pura transcendência; tem à turvação para si mesmo e considera-a um estado humilhante; pode até ocorrer, simplesmente, que não consiga realizá-la em si mesmo. Na medida que obstina-se friamente é ao mesmo tempo obstinação e secura, o sádico é um apaixonado. Seu objetivo é, tal qual o desejo, captar e subjugar o outro, não somente enquanto Outro-objeto, mas enquanto pura transcendência encarnada. Mas, no sadismo, a ênfase é dada à apropriação instrumental do Outro-encarnado. Esse momento do sadismo na sexualidade, com efeito, é aquele em que o Para-si encarnado transcende sua encarnação a fim de apropriar-se da encarnação do Outro. Assim, o sadismo é a negação do ser encarnado e fuga de toda faticidade, e, ao mesmo tempo, empenho para apoderar-se da faticidade do outro. (…) O sadismo é um esforço para encarnar o outro pela violência, e esta encarnação `à força´ já deve ser apropriação do outro.’

Teatralização da cultura sacrifical

As citações de Sartre foram longas pelo simples objetivo de fazer uma contextualização do culto à dor, à opressão e à antivida cultivadas no Ocidente cristão. Somos frutos de uma filosofia grego-socrática que prescindia dos prazeres em prol da razão e, paralela a esta, a filosofia epicurista do culto ao prazer e à vida; somos filhos da moral judaica, do culto ao sacrifício, e da moral romana, com o culto ao prazer; do lado grego, o deus prazer é Dionisio, do lado romano é Baco. O judaísmo acabou por ter mais influência no nosso meio, pelo menos é que afirma Nietzsche. Prova disso foi o que a mídia fez na semana da páscoa católica.

Ao assistir aos noticiários da televisão na quinta e sexta feira santa, percebi que praticamente todos os telejornais destinaram suas pautas a veicular o sacrifício cristão. O culto à dor e ao sofrimento foi a temática monopolizante das emissoras. A TV Brasil, no seu telejornal noturno, o Repórter Brasil, dedicou a edição de sexta-feira, 10 de abril, quase exclusivamente às encenações de sacrifícios. A figura de um homem ensangüentado era exibida como instrumento de deleite. Havia lugares onde as pessoas praticavam o silício, uma prática medieval de autoflagelo; neste tipo de autoflagelo, algumas pessoas se chicoteiam, num ritual que, segundo a crença, redime as pessoas dos pecados. E, na maioria das vezes, o que as pessoas chamam de pecado é o uso natural da sexualidade.

Há nisto uma negação total da vida no seu sentido natural. Nas Filipinas, chega-se ao absurdo de sacrificar pessoas, tal como Jesus foi crucificado. Tudo seria hilariante se, de fato, a nossa sociedade não fosse realmente uma sociedade antivida, como ela é. Ali, infelizmente, o que há é uma teatralização da cultura sacrifical do nosso mundo objetificante. Numa sociedade como esta, queimar um índio vivo é visto como normal porque se está queimando um objeto; o ato bárbaro de arrastar uma criança pelas ruas da cidade despersonaliza e despersonalizante é visto, por quem assim o fez, como normal, afinal, encaram eles que estão arrastando um objeto.

Uma instituição sádica e masoquista

É uma ideologia da dominação e da alienação. É arte do culto ao nada, uma forma de resignação ao sistema que sacrifica milhões de vidas. Já não sabemos o que mata mais, se é o trânsito, a fome ou a guerra. É, como afirma Schopenhauer, a forma de resignar-me porque há sofrimento no outro maior do que em mim. Na verdade, é uma forma de levar à banalização e aceitação da provocação da dor. Existe a dor em mim, eu a transfiro para o outro. É a arte de viver da fé, só não se sabe fé em que.

É incrível como o culto à dor atrai, como a mídia, mesmo os veículos que são fervorosos defensores da secularização do Estado e da imprensa são atraídos pelo ápice da dor. Na semana em que a Igreja celebra a morte de Cristo, a freqüência às Igrejas aumenta significativamente. Seria por que nós estamos vivendo numa sociedade de morte ou por que o homem é naturalmente atraído pela dor e a morte?

A Igreja tem um discurso em defesa da vida, mas é pura retórica. Se formos contar as vidas que esta instituição já ceifou por suas próprias mãos, serão milhões e milhões; se formos contar as vidas ceifadas com a sua conivência, seriam mais muitos milhões; e, quiçá, a Igreja ainda continua ceifando vidas. Quando ela se intromete nas políticas de planejamento familiar, está agindo contra a vida; só no Brasil, são mais 40 mil mortes por ano de jovens que nascem e, mal iniciam suas vidas, são ceifados pela situação de desumanidade instalada onde vivem. A pesquisa com células-tronco é uma esperança de vida e de melhores condições de vida para milhões de pessoas; no entanto, a Igreja, uma instituição sádica e masoquista, tem se colocado contra estas pesquisas. É como diz Sartre, uma forma de encarnar-se no outro e apropriar-se do outro para fazer este sofrer, só porque ela cultua a dor.

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Filósofo e educador

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