Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & CONCESSÕES

O debate sobre o papel de formar e informar

Por Fernando Dias Campos Neto em 21/08/2007 na edição 447

Soube que cessam agora, em 5 de outubro, as concessões das grandes redes da mídia nacional: Globo, Record e Bandeirantes. E é claro que cabe o debate em torno da oportunidade de seus serviços.

Logo percebemos que a mesma mídia (hoje, uma telemática?) procura atribuir a Lula tudo o que consiste ‘excesso’ em Chávez, estimulando a competição e a animosidade entre eles, não o entendimento diplomático. E fica-se a considerar a interrupção das concessões das redes acima, como a da RCTV. A comparação não se ajusta exatamente, mas procede a queixa. Menos pelo valor negativo de uma imprensa cujo papel é ‘formar e informar’ do que pelo seu valor positivo: um potencial infinito apenas intuído vagamente.

De fato, nota-se que a mídia, enquanto propriedade dos meios de produção da formação e da informação, prestigia o patrão capitalista, inclusive e principalmente na esfera das TVs a cabo, que irrompem pelas nossas telinhas com o canto da sereia do dinheiro que é o ‘marketing’.

As lógicas do capital

O internacional aí, nem sempre é o estatal dos povos mais desenvolvidos, mas os programas de orientação econômico-liberal que apontam o modelo da sociedade hedonista e consumo. É, pois, uma mídia híbrida, em um espaço híbrido, refletindo a contradição insolúvel do Estado-capitalista que importamos culturalmente. São dois produtos diversos.

Porque o estatal envolve os direitos constitucional e internacional, enquanto o econômico-liberal atua pelos lucros e os seus melhores ‘programas’ são páginas de ‘marketing’.

As nossas emissoras estatais ainda não podem cotejar com a sua qualidade dos programas e a rapidez das notícias. São como os Estados-nação, cada vez menores. Ou, exageradamente crescidas pela reação de ideologias atropeladas pelo capital.

Se não me engano, houve época em que se proibia a TV no Islã como instrumento de Satã. Na China, se admite a internet com certa prudência. Em Cuba provavelmente é possível ouvir e ver, através da mídia, o canto da sereia e entre nós ela é indisfarçadamente cúmplice das lógicas ética e estética do capital.

Cabe ser prudente

Não que em certas plagas do mundo não caiba o investimento telemático. O capital como processo civilizatório. Mas, em outras, a parcialidade da mídia não devia estar no caminho de uma comunidade internacional de nações democráticas e socialistas? Uma espécie de ‘opção preferencial’ pelos excluídos que nos pudesse levar um dia à associação dos produtores?

O governo democrático do Brasil, legitimamente eleito, já disse, pela boca de seu presidente, ser contra a reeleição. E faz esforços alternativos no sentido de criar uma TV pública através de lideranças sociais confiáveis pelo seu passado de lutas.

A possibilidade de plebiscitos ou referendos em torno da interrupção das concessões da grande mídia no Brasil vem focalizar a necessidade de direcionar os meios de produção em torno da representação pública e dos seus interesses mais urgentes. Mas cabe ser prudente. Para os golpes da mídia, não respondamos com golpes de Estado, como ela desejaria para impor de novo o retrocesso.

Rigores excessivos

Uma possibilidade seria voltar à questão do Conselho Federal (ou Nacional) de Jornalismo e à Ancinav. Congregando pessoas das mais diversas áreas da cultura brasileira, eles poderiam ser o poder moderador esperado no momento histórico para o debate.

Outro ponto é, como tenho observado, a distinção entre o lixo produzido pela ganância capitalista e o esforço dos cidadãos dos países mais desenvolvidos na dialética dos antagonismos entre capital e representação pública, estatal.

De qualquer forma, mesmo Chávez propõe-se a ‘reconstruir’ o valor de uma RCTV, que tentou depô-lo, com outras emissoras melhores. Mas não se pode substituir o mau-gosto ou a perversidade de condicionamentos menos frugais a um curto prazo.

Os limites para uma reforma da mídia seriam os mesmo que nos mantêm à beira dos exageros populistas ou estatistas, radicalismos em duas ‘passagens à ação’ no id e no super-ego, nos anarquismos de todo o tipo e na sanha dos rigores excessivos.

Não seria assim?

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