Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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O descaminho da mídia no Caminho das Índias

Por Rafael Motta em 14/07/2009 na edição 546

Não sei quando o capítulo irá ao ar, mas será quente, a julgar pelo destaque principal da capa da edição 514 da revista Minha Novela, totalmente em caixa alta, sobre o folhetim Caminho das Índias, da Rede Globo:

NORMINHA LEVA UMA SURRA DO MARIDO – ABEL DESCOBRE AS TRAIÇÕES DA MULHER E ACABA COM A RAÇA DELA

Para quem não assiste à novela, Norminha (interpretada pela atriz Dira Paes) é uma mulher que, na hora de dormir, costuma dar calmante ao marido, Abel (Anderson Müller), para ir dançar numa gafieira, à noite, e se insinuar para outros homens. Mas não admite que ele olhe para outras moças nem que seja simpático com elas.

Apesar dos incontáveis casos de violência doméstica contra a mulher e do quanto se precisou avançar até a sanção da Lei Maria da Penha (nº 11.340, de 2006) para coerção dessa prática, parte da mídia se comporta como se apoiasse a agressão física em situações de ‘legítima defesa da honra’.

Não basta demonstrar, nas entrelinhas, satisfação com o cidadão que reage ao adultério (e não importa que seja na ficção; há gente que transpõe certos atos para a realidade). É preciso tripudiar de quem apanha, como parece ocorrer na expressão pela qual o homem traído ‘acaba com a raça dela’.

Violação de humanos

Neste caso, além da revista, a Globo tem sua parcela de responsabilidade. Ao planejar a transmissão de uma cena de violência em rede nacional e numa novela que pode ser vista por crianças a partir dos 12 anos (e tem meninos e meninas ainda mais novos no elenco), parece ignorar os termos de algo que tanto pareceu apoiar em seus noticiários: justamente, a Lei Maria da Penha. E, por tabela, a Constituição brasileira.

No capítulo que trata das medidas integradas de prevenção à violência doméstica, o artigo 8º da lei expressa que ‘a política pública que visa coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher far-se-á por meio de um conjunto articulado de ações da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e de ações não-governamentais’. No inciso III desse artigo, consta como diretriz dessa política ‘o respeito, nos meios de comunicação social, dos valores éticos e sociais da pessoa e da família, de forma a coibir os papéis estereotipados que legitimem ou exacerbem a violência doméstica e familiar, de acordo com o estabelecido no inciso III do art. 1º, no inciso IV do art. 3º e no inciso IV do art. 221 da Constituição Federal’.

Justo. Afinal, conforme aponta o artigo 6º da Lei 11.340, ‘a violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma das formas de violação dos direitos humanos’.

‘Demorô’, diz a leitora

Ao se considerar a mídia como transmissora de ideias e formadora de opinião, ganha importância o fato de que parte da sociedade tem em mente, de maneira equivocada, que certas coisas só se resolvem no tapa. Adiante, de modo fiel ao que foram escritos, alguns dos comentários à matéria feita por Minha Novela sobre a cena, feitos na página da revista na internet.

De um homem: ‘Tem que apanhar mesmo para deixar de ser safada.’

De uma mulher: ‘Não sou a favor da violência, mas Norminha merece apanhar um pouco, pois mulher sem-vergonha merece isso mesmo! Isso serve pra todos aqueles que traem seus parceiros verem que traição se paga com vingança e umas porradas também!’

De outra mulher: ‘Eu acho certíssimo Abel dar uma surra em Norminha, mais o pior é que existi nesse mundo muitas mulheres q não dão valor ao marido.’

Mais uma leitora: ‘Demorô! Até que enfim a periguete da Norminha vai sofrer um pouquinho.’

Vai mesmo, segundo a publicação – que, a propósito, se intitula ‘A melhor revista de novelas do Brasil’. Aí vai o fim do texto: ‘O amor se transforma em ódio e Abel lhe dá uma surra daquelas. E troca de lugar com a esposa. A partir daí, Abel vira um conquistador e Norminha só terá um objetivo na vida: reconquistar o amado.’

******

Repórter do jornal A Tribuna, Santos, SP

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