Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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FEITOS & DESFEITAS >

O desenho que Delfim não pendurou na parede

Por Lúcio Flávio Pinto em 14/04/2015 na edição 846

No ano passado escrevi sobre o perfil de Delfim Netto publicado na revista piauí (ver “Delfim, o tirano cordial”). Um dos fatos que destaquei foi a coleção de 20 caricaturas dele feitas por artistas conhecidos, que ele mandou emoldurar e pendurou como troféus no seu escritório. Aprisionadas dessa maneira, elas se pareciam aos animais empalhados com os quais os caçadores decoram suas salas. Por mais que tivessem a intenção de criticar o personagem, os cartunistas acabaram sendo mais leves no traço, deixando-o domesticável. Delfim Netto merecia essa deferência.

A coleção, entretanto, não incluiu o cartum reproduzido nesta página, desenhado pelo argentino Luis Trimano para o quarto número do semanário Opinião, de dezembro de 1972. Trimano, que se tornou um dos mais importantes ilustradores da imprensa brasileira, inigualável na colagem, nunca mereceu a atenção devida ao seu talento.

Em 1972, quando virou cartum de Trimano, Delfim era o mais poderoso ministro no governo do general Emílio Garrastazu Médici, no auge da ditadura militar. Não só por ocupar a pasta da Fazenda, de tradicional destaque, mas pelo seu estilo imperial e agressivo de agir. Ele posava como o mago do “milagre econômico” brasileiro e nessa condição recebeu em Brasília, nessa época, um dos principais representantes de outro milagre, o do Japão.

Saburo Okita, ministro do comércio exterior, era mais discreto, embora não menos enfático. Ele, Delfim e mais alguns tecnocratas, dentre os quais com papel especial o engenheiro Eliezer Batista, da Companhia Vale do Rio Doce (e pai do futuro empresário Eike Batista), estavam promovendo a intensificação (como nunca antes – nem depois) dos dois milagres.

O Japão comparecia com capital, tecnologia e mercado. O Brasil, com as matérias primas de que os japoneses, a partir da crise do petróleo, se tornariam cada vez mais carentes. Para intensificar a parceria, brasileiros e japoneses passaram a circular intensamente entre os dois países, a ponto de Eliezer se tornar o não residente que por mais vezes foi ao Japão, em para mais de uma centena de viagens.

A história dessa ofensiva ainda está para ser escrita, com seu capítulo especial no Pará, que forneceu minério de ferro e alumínio para as indústrias japonesas. Como estímulo a quem se interessar possa, fica o desenho do grande Trimano para advertência dos que glamourizam agora aquele período de crescimento econômico tão intenso quanto frágil, enquanto a mão pesada da repressão sufocava a liberdade, sem a qual nada vale a pena numa sociedade de seres humanos.

***

Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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