Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > TRAGÉDIA EM ANGRA DOS REIS

O desserviço da imprensa sensacionalista

Por Samira Moratti em 12/01/2010 na edição 572

João, homem trabalhador que morava com sua mulher e os filhos em um barraco no Morro da Carioca, em Angra dos Reis, foi engolido do nada por um monte de lama. Sem ao menos poder defender a si ou aos filhos, tornou-se vítima da ameaça iminente. No local em que era localizada sua casa, e como foi construída, foram fatores contribuintes para o desfecho das vidas de João e sua família.

Já na Praia do Bananal, em Ilha Grande, diversas outras famílias carentes sofrem perdas tanto humanas quanto materiais. A prefeitura local e o governo fluminense se empenham para minimizar o caos instalado. No entanto, o mais grave é que o problema não é novo. E qual o papel fundamental da imprensa nesse caso?

De acordo com o Portal IG de notícias, em 9 de dezembro de 2002 ocorreu tragédia semelhante à das chuvas que assolam a cidade de Angra. Um total de 40 mortos, 100 feridos e mais de 500 pessoas desabrigadas foi o triste saldo deixado pelo desastre ambiental. Deslizamentos em morros super-ocupados de barracos também foram um dos principais motivos para ocasionar as mortes.

Região propícia a acidentes

Alguns geólogos, fontes comuns para a então pauta quente propagada pela mídia, afirmam constantemente que a ocupação da região é incorreta diante do risco dos deslizamentos. A falta de fiscalização na edificação das moradias é outro problema. Segundo informações de matéria do jornalista Thiago Faria, divulgada em 2 de janeiro deste ano no portal R7, o geólogo e morador de Ilha Grande Alexandre Cuellar de Oliveira e Silva afirma que o governo do estado flexibilizou a construção de residências em áreas de preservação e encostas, um dos locais com maior risco de deslizamentos. De acordo com a matéria,

‘[o geólogo] reclama que um decreto assinado pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, em junho de 2009, flexibilizou construções em áreas onde antes eram proibidas. `A área que o novo decreto libera para construção são as áreas das costeiras da Ilha. Áreas que não eram permitidas a construção pela preservação da vida silvestre. Esse novo decreto vem a liberar essas áreas´’.

A famosa pousada Sankay, onde alguns turistas e Yumi Faraci, filha dos proprietários do local, foram vítimas de um deslizamento, pode ser considerada uma construção localizada em área costeira da ilha, região propícia a acidentes ambientais como o ocorrido. O geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo e entrevistado principal dos programas jornalísticos da Rede Globo, que tratam do tema, mencionou em diversos momentos que o local onde a pousada estava instalada não deveria ser habitado.

Questionar e criticar os órgãos públicos

Ora, é aí que entra o questionamento a respeito do papel da mídia na cobertura do desastre natural. Se as moradias, aqui incluindo a famosa pousada, estavam localizadas em áreas de risco, os fiscais que autorizaram – ou não – tais construções deveriam ser responsabilizados pela tragédia. E, consequentemente, as pessoas que por conta e risco decidiram residir no local, mesmo diante das possíveis ameaças naturais. A máxima, então repetida por ambientalistas, prevalece nesses casos: a natureza apenas está resgatando o que o homem dela tirou.

É nesse momento que ao invés de agir de forma sensacionalista, buscando mártires ou personagens como a jovem Yumi para ilustrar a tragédia, a imprensa deveria, sim, questionar as autoridades sobre o problema ecoado em diversas regiões do Brasil, como no Vale do Itajaí e cidades vizinhas em Santa Catarina, onde em 2008 uma enchente provocou centenas de mortes.

Não é possível que apenas poucos profissionais da mídia se cansem de questionar e criticar esse tipo de cobertura dos veículos de imprensa. O sensacionalismo no jornalismo é um desserviço praticado à sociedade, inclusive os jornalistas, também civis, que a integram. Um jornalismo cidadão, responsável, jamais buscaria a pura audiência em troco da exibição do sofrimento alheio. Mesmo que utópico, seria ao menos sensato questionar e criticar a não intervenção dos órgãos públicos em tentar resolver esses problemas, e não apenas fazer entrevistas e deixar que especialistas dêem seu ponto de vista. E, pelo que parece, muitas outras tragédias infelizmente continuarão a ocorrer para alimentar cada vez mais a imprensa sensacionalista e o bolso dos governantes que lucram com a morte dos outros.

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Jornalista, Florianópolis, SC

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