Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > CASO BORIS CASOY

O destino acerta suas contas

Por Celso Lungaretti em 05/01/2010 na edição 571

Na manhã de segunda-feira (4/1), as dezenas de postagens no YouTube referentes aos comentários que o apresentador Boris Casoy inadvertidamente fez sobre os garis no Jornal da Band já haviam sido vistas quase 1,2 milhão de vezes. A mais assistida estava na casa de 850 mil hits.

Se alguém ainda não sabe, o noticioso levou ao ar saudações de Ano Novo de dois simpáticos garis: um senhor branco já com cabelos brancos e um negro na faixa de 40 anos. Causaram ótima impressão, com seu ar digno e uma alegria que não parecia forçada. Depois, enquanto eram exibidas vinhetas, ouviu-se a voz de Casoy no fundo, comentando com a equipe:

‘Que merda! Dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras… dois lixeiros… o mais baixo da escala de trabalho!’

No dia seguinte Casoy pediu ‘profundas desculpas aos garis e aos telespetadores da Band’ pelo que escutaram em razão de um ‘vazamento de áudio’ (na verdade, só ouviram isso porque ele disse…). Fê-lo, entretanto, de maneira burocrática e pouco convincente, não aparentando estar nem um pouco arrependido do desprezo aristocrático que manifestou pelos trabalhadores humildes. As postagens relativas no YouTube não somavam hoje nem 100 mil exibições.

Lembrei-me da rainha Maria Antonieta recomendando aos pobres que, se não tinham pães, que comessem bolos. Perdeu a cabeça. Casoy teve mais sorte, só quebrou a cara…

Fiquei matutando sobre o destino e seus contrapesos. Às vezes a mesma pessoa é brindada com a sorte grande num momento e tira o azar grande adiante. Ou vice-versa.

Casoy é elitista, racista, conservador e reacionário desde muito cedo. Um velho companheiro que com ele cursou Direito no Mackenzie me contou: aos 23 anos, Casoy era um dos líderes da ala jovem do Comando de Caça aos Comunistas, que tinha nessa faculdade um de seus focos principais.

Mais: nos idos de 1964, Casoy chegou a ser citado em reportagem da revista Cruzeiro como membro destacado da juventude anticomunista.

A quartelada o beneficiou, claro: foi homem de imprensa de um ministro do governo Médici e do secretário da Agricultura de São, Herbert Levy, outra figurinha carimbada da direita. Mas, nem tinha texto de qualidade superior, nem era uma figura agradável na telinha, portanto estava direcionado para uma carreira mediana no jornalismo, não fosse uma moeda que caiu em pé.

Sete anos

Isto aconteceu quando o comando do II Exército aproveitou uma frase imprudente do cronista Lourenço Diaféria (sobre mendigos urinarem na estátua de Caxias) para intervir na Folha de S.Paulo.

Os militares exigiram a destituição do diretor de redação Cláudio Abramo (trotskista histórico), o afastamento de alguns profissionais (demitidos ou realocados) e o abrandamento da linha editorial.

O proprietário Octávio Frias de Oliveira, que sempre se definiu como comerciante e não jornalista, negociou. Servil, aceitou até substituir Abramo por um homem de absoluta confiança do regime militar: Casoy, que editava a coluna ‘Painel’ (sobre os bastidores políticos), então um espaço dos mais secundários no jornal.

Igualmente secundário era Casoy para os leitores da Folha e para os próprios militantes/simpatizantes da esquerda. Suas posições fascistóides eram ignoradas pela maioria.

Aí, como diretor de Redação, calhou de ser ele o principal defensor do jornal num episódio de reação à censura. Ou seja, sob palco iluminado, o lobo teve seu momento de cordeiro, o caçador de comunistas maquilou sua imagem para a de defensor da liberdade de expressão.

Sua carreira deslanchou. Depois de comandar a redação da Folha por sete anos (saiu para dar lugar ao filho do patrão), voltou a editar a coluna ‘Painel’, cuja importância crescera nesse ínterim. Finalmente, tornou-se conhecido pelo grande público como apresentador do Telejornal Brasil, do SBT, entre 1988 e 1997.

Justiça divina

Novamente os fados o bafejaram. Numa emissora que investia pouco em jornalismo e não tinha reportagens para mostrar que, quantitativa e qualitativamente, chegassem nem perto das exibidas pela Rede Globo, o jeito foi deixar crescer o espaço do apresentador.

Casoy pôde, assim, atuar como um âncora à moda dos EUA, fazendo comentários catárticos sobre episódios de corrupção política (principalmente) que eram concluídos com um ou outro de seus bordões habituais: ‘Isto é uma vergonha!’ é ‘É preciso passar o Brasil a limpo!’.

Ou seja, para telespectadores da classe ‘C’ e ‘D’, ele passou a personificar o justiceiro que atirava a verdade na cara dos poderosos. É um público que, em sua ingenuidade, valoriza desmesuradamente essa justiça retórica e ilusória, sem perceber que, depois do desabafo, continua tudo na mesma…

Assim, por novo golpe do destino, um comunicador azedo conquistou a simpatia dos pobres e dos muito pobres, ao expressar seu inconformismo impotente face às agruras que os atingem e eles são incapazes de compreender em toda sua extensão.

É fácil canalizar seu justo ressentimento contra os políticos desonestos. Tanto quanto é conveniente, para os poderosos, mantê-los na ignorância de que o maior vilão em suas sofridas existências atende pelo nome de capitalismo.

Servindo tão bem os interesses do sistema, Casoy atravessou as duas últimas décadas como um aclamado populista televisivo de direita.

Só teve alguns percalços ao exagerar na dose contra o governo Lula, mas seus pés de barro continuaram, tanto quanto possível, ignorados pelo grande público. Agora, um acaso revelou ao Brasil inteiro que indivíduo insensível e preconceituoso é, na verdade, Boris Casoy.

Alguns viram este episódio como um exemplo da justiça divina em ação. Quem sabe?

******

Jornalista e escritor, mantém os blogs aqui e aqui

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/01/2011 João Cirino Gomes Gomes

    É isso que a corte e os amigos do rei pretendem; desviar nossa atenção de seus roubos, desvios favoritismos e ladroagens, para os pequenos deslizes de seus inimigos!
    Todo mundo erra: e atire a primeira pedra, aquele que nunca errou; diriam os
    defensores destes crápulas políticos, que ganham para blindar suas patifarias; caso fosse um deles, nos roubando escandalosamente, como sempre, não é mesmo?
    Mas eu não me deixarei ser usado: Continuarei divulgando as vantagens pessoais e as Injustiças sociais covardemente acobertadas!

    http://www.youtube.com/watch?v=YkKSE-SkVFM
    http://www.youtube.com/watch?v=bDp3AxHT2vs

  2. Comentou em 06/01/2010 Marcelo Idiarte

    Herman Fulfaro, você pode não gostar de Einstein, ou até mesmo culpá-lo diretamente pela invenção da bomba atômica, mas não pode ser incorreto com a História. Einstein saiu da Alemanha contratado pelo governo americano porque sabia que seria forçado a trabalhar para o regime nazista, ainda mais sendo de origem judia. Einstein foi para os EUA, mas praticamente todos os seus colegas – que trabalhavam há anos em cima da aceleração de partículas – ficaram na Alemanha. Estes logo se viram na condição que Einstein antevera: subjugados por Hitler. Einstein sabia melhor do que ninguém que seus ex-colegas alemães estavam a um passo da construção da bomba atômica (que, diga-se, havia sido prevista já em 1903 por Rutherford e Soddy), por isso concordou em assinar a famosa carta a Roosevelt (que teria sido escrita por Leo Szilard e que acabou resultando no Projeto Manhattan). Evidente que ninguém gostaria que as bombas um dia fossem jogadas sobre Hiroshima, Nagasaki ou qualquer outro lugar (muito menos Einstein, que era notadamente um pacificista: odiava guerras, sua única devoção era traduzir o universo), mas você é capaz de vislumbrar o que teria ocorrido se Adolf Hitler tivesse acesso a este artefato primeiro? Penso que foi uma ironia extremamente infeliz da sua parte, Herman, mas vou conceder como mero desconhecimento histórico. Ou apenas implicância com a pessoa errada.

  3. Comentou em 06/01/2010 Ivan Berger

    Vou acrescentar mais uma frase feita ao linchamento que Boris Casoy vem sofrendo por conta de seu infeliz comentário : um erro não justifica outro. Ou seja, por mais que ele tenha errado e merecido o repúdio geral, aproveitar a ocasião para ataques pessoais e profissionais que cheiram a bronca pessoal – afinal,todo mundo sabe do esquerdismo cavernal professado pelo articulista – me parece de um oportunismo não menos execrável. O que está em questão não é a ideologia, a suposta simpatia ou mesmo ligação de Casoy com a ditadura, e muito menos questionar sua bem-sucedida trajetória na imprensa,em função de um episódio isolado. Quem nunca disse uma frase infeliz e até mesmo preconceituosa na vida ? E se Casoy foi mesmo anticomunista ferrenho,qual o problema ? Eu mesmo nunca senti a menor simpatia por esse regimes fechados e sanguinários de esquerda,que ainda animam alguns a alimentar esse revanchismo hipócrita que veio a reboque do lulo-petismo. É claro que Casoy errou feio,talvez querendo fazer graça com uma cena meio patética, mas Lula não ficou muito longe disso naquela comparação de dos porcos,que alguém lembrou aí, mas é a tal coisa, como está na chamada crista da onda,todo mundo acha graça.Até sendo chamado de porco.

  4. Comentou em 06/01/2010 Marcelo Idiarte

    O OI não está e nunca esteve acima da crítica, José Albino. Você é absolutamente livre, por exemplo, para escrever um artigo aqui fazendo a crítica que gostaria que Dines (ou qualquer outro editor/colaborador deste Observatório) fizesse. Basta enviar para canaldoleitor@ig.com.br com seus dados de identificação. Restringindo-se à imprensa, não contendo termos ofensivos e observando as regras ortográficas, seguramente o artigo será publicado na próxima edição (renovada todas as terças-feiras). Todo artigo bem escrito e restrito à finalidade do OI é bem-vindo. Até porque o Observatório da Imprensa não é do Dines ou de uma classe: é de todos que querem uma imprensa melhor. Só o que não dá para fazer é esperar que Alberto Dines comente tudo o que gostaríamos que ele comentasse.

  5. Comentou em 05/01/2010 Lucas Franco

    Casoy é a personificação perfeita do ‘Made in Brazil. I m so Sorry!’. Sabe aquele sujeito que, descontente com sua condição terceiro mundista, cospe na cara dos menos favorecidos na tentativa de negar que é fruto de uma elite usurpadora e intelectualmente fraca? Pois é… isso é uma vergonha!

  6. Comentou em 05/01/2010 Celso Lungaretti

    Meu caro José Albino, eu concordaria inteiramente consigo se o Casoy tivesse externado aqueles preconceitos em sua intervenção no telejornal.

    Sendo só um gracejo repulsivo que ele dirigiu à equipe e vazou para o público, compreendo a relutância do Dines. Seria uma quase invasão de privacidade, já que o Casoy não pretendeu soltar essas opiniões no mundo.

    Eu também relevaria, não fosse a trajetória do Casoy. Para quem lutou contra a ditadura e sofreu nas garras da repressão, o CCC é algo muito sério.

    Ajudou a derrubar um governo legítimo e tem no seu currículo a vandalização do teatro Ruth Escobar e espancamento dos atores da peça ‘Roda Viva’; a explosão da bomba no Teatro Opinião do RJ; o seqüestro e assassinato do padre Antonio Pereira Neto no Recife; o assassinato de um secundarista na chamada “guerra da rua Maria Antônia”; a invasão da PUC/SP, com o apoio da Polícia Militar, etc.

    Quanto ao Casoy, informaram-me (depois de divulgado o artigo) que era malvisto até pela juventude do clube A Hebraica. Alguns frequentadores chegaram a acusá-lo publicamente de ‘nazista’, sendo depois emboscados e espancados, sem que se identificassem os agressores.

    Então, pelo conjunto da obra do Casoy e como o comentário vazado era coerente com o resto que eu sabia dele, resolvi me manifestar. Mas, não recriminaria o Dines por preferir manter-se afastado deste assunto.

  7. Comentou em 07/06/2009 Claudete Novaes

    Prezados Senhores;

    O que está acontecendo com o site? Fica-se horas para se conseguir abrir qualquer artigo.
    Isso está ocorrendo já há alguns dias.

    Atenciosamente,
    Claudete Novaes

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