Sexta-feira, 19 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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FEITOS & DESFEITAS >

O engano do jornalista ou o relativo do absoluto

Por Paulo Bento Bandarra em 23/06/2009 na edição 543

O senhor Gabriel Marquim, em 16/6/2009, estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e pesquisador pelo Pibic/Unicap, Recife, PE, nos presenteia com um artigo elucidativo sobre os enganos de certas pessoas ao procurarem a referida profissão. E que temos testemunhado por diversos exemplos neste Observatório da Imprensa de pessoas, por sua credulidade religiosa advindo de uma educação castradora, pensam em exercer esta profissão como meio próprio de proselitismo e apologia das imagens da sua formação na infância no catecismo como algum mérito de verdade. Esquecem que esta profissão é para servir, e não para se servir dela para impor versões pessoais duvidosas e já desmascaradas pela história da humanidade.

Uma das suas primeiras recordações que o mesmo se lembra do seu curso de Jornalismo, relata o mesmo, era a de seu professor afirmar, quase orgulhoso: ‘O jornalista é um generalista. Não precisa saber de tudo, mas precisa saber perguntar aos que sabem.’ Infelizmente o mesmo, entre tantos devotos, esquecem logo esta máxima do ensino para passarem a se servir do leitor para conversão, para afirmar verdades pessoas, em vez de difundir informação e realizar os questionamentos necessários para demonstrar o relativismo das certezas. E alguns, ainda pior, passam a se dedicar a formação pessoal em teologia para usarem esta reserva de mercado para valer-se da mídia como púlpito desinformado a população, em vez de cumprirem o seu dever profissional. Exemplo típico o jornalista Michelson Borges, da turma do criacionismo na mídia tentando determinar junto à população mal informada e mal formada pelo nosso péssimo ensino público, a luta milenar da Bíblia contra o conhecimento científico.

Ciência não é desenvolvida por eleição

Assim como é um erro um partido democrático cristão, não existe uma filosofia cristã, e muito menos um jornalismo religioso, e cristão em particular. São negações por definição dos substantivos e das idéias que eles representam. Ser cristã já se opõe ao sentido de democracia, que deve se plural e de todos. Assim como uma filosofia cristã, islâmica, judaica, teísta ou deísta, nega de saída o que deve ser a função e a matéria da própria filosofia, que é especular. Portanto, jornalismo prosélito e apologético religioso nega a própria essência do que seja jornalismo e responsabilidade social. Passa a ser um mero exercício de propaganda disfarçada em informação, tão danosa para a sociedade como qualquer publicidade. Ainda mais baseada em credulidade e não em alguma verdade diferente das outras ilusões pregadas por outras crenças, seitas e religiões ao redor do mundo, e que nada servem para se atingir algum objetivo real do que apenas prometem e não atingem nunca.

O jornalista inglês Philip Ball, um escritor de ciência, e consultor de edição da revista Nature, num artigo divulgado pelo portal do Terra: ‘Cientistas questionam incompatibilidade entre ciência e fé’, em 16 de junho de 2009 (http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI3828162-EI238,00-Cientistas+questionam+incompatibilidade+entre+ciencia+e+fe.html) relata o movimento nos EUA com o lançamento do Reason Project, uma iniciativa organizada pelo neurocientista e escritor Sam Harris, que ostenta um comitê consultivo de estrelas, incluindo Richard Dawkins, Daniel Dennett, Steven Weinberg, Harry Kroto, Craig Venter e Steven Pinker, além de Salman Rushdie, Ayaan Hirsi Ali e Ian McEwan. O projeto tem o objetivo de ‘espalhar o conhecimento científico e os valores seculares pela sociedade’ e busca ‘incentivar o pensamento crítico e diminuir a influência do dogmatismo, da superstição e do fanatismo em nosso mundo’.

O que é importante é a força relativamente recente da oposição fundamentalista a aspectos específicos do pensamento científico, o que fez dos Estados Unidos e da Turquia os dois países ocidentais com a menor proporção da população que acredita na evolução, relata Philip. Argumento do autor a seguir para tentar provar a validade do criacionismo acreditado pela educação contra as evidências científicas. Ciência não é desenvolvida por eleição ou conhecimento estabelecido pela democracia.

Um modo de perpetuar culturas e crenças

Aquilo que os criacionistas vêm fazendo no OI. Caso da matéria de Douglas Reis, teólogo, pastor e escritor, em 16/6/2009, em ‘LEITURAS DE GALILEU, Somos apenas os mesmos’ (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?msg=ok&cod=542MOS001&#c).Teólogo é um estudioso de um livro só que acredita ser verdade. Não possui uma matéria própria, o Deus que alega estudar e não pode dividir com outros povos com outro Deus e deuses. Nem mesmo entre os seguidores do mesmo livro. É apenas uma discussão de preferências de passagens escolhidas ignorando ou distorcendo as não compatíveis. A tradição oral pelo menos tem esta vantagem. Bobagens do passado desaparecem e apenas as atuais vivem. Na letra escrita pode ocorrer o apego ao falso permanentemente por mais absurdo que seja demonstrado. Como adventista, não aceitaria que o catolicismo é imensamente maior que os adventistas como argumento de verdade, como deseja usar em relação ao criacionismo prevalente nas mentes incultas.

Junto com outros jornalistas crentes e cristãos na defesa da sua fé aqui. O que deve ocorrer no Islã, na Índia, na China, no Japão com as suas respectivas fé. A liberdade de fé defendida apenas em estados laicos não significa a existência de realidades diferentes, mas antes a relativa existência de culturas e valores sobrenaturais criados pela educação. A mesma ocorrência do tipo de tabus, conceitos de justiça, de relações maritais, de mono ou poligamia, modos relativos de divórcio e separação, tolerância a comportamentos sexuais diferentes ou severa intervenção do clero na vida particular das pessoas pelas mínimas coisas. Até o que se come ou deixa de comer. Promessas de sucessos financeiros ou militares, até mesmo ocorrendo este culto entre criminosos, mafiosos e bandidos. Deuses a serviços de todos que os queiram. Realidade ou imaginação fértil? Tudo coisas relativas do absoluto criadas na mente das pessoas pela criação familiar limitada e pelas organizações educacionais religiosas de estados. Um modo de perpetuar a cultura e as crenças de grupos e não o conhecimento real de valores supra-raciais, biológicos e sociais. Quando apareceu o judaísmo ou o cristianismo o mundo já experimentara várias civilizações de sucesso e cultas em relação aos judeus e cristãos primitivos.

‘Sem padrões morais, não discriminaríamos ações em categorias’

Pessoas criadas pelo cristianismo não adoram o Deus certo, apenas o Deus que foram criados de forma castradora não ensinando a relatividade e a limitação desta verdade baseada em sua educação apenas. Não existe superioridade metafísica entre Amon-Rá, o Senhor Ganesh ou o Deus homem pobre cristão. Assim como não existe entre comer as Vacas ou venerá-las como deusas, usar calças ou batas. São gostos e modas culturais sem fundo de verdade metafísica alguma. Todos são fontes da cultura apenas baseada em livros das suas respectivas publicidades e propagandas escritas para convencer através de narrações fantásticas e falsas, alegando poderes sobrenaturais entre a ameaça de punição com dilúvio e derrota pelos inimigos aos que não acreditarem ou a promessa de vidas gozosas para quem a elas se dedicarem. Vida rica na terra, recompensas pela pobreza extrema, felicidade na outra vida para quem se martirizar e autoflagelar nesta, vida eterna para quem aceita certos livros e estórias, céus cheios de riquezas e prazeres da terra para usufruir de graça depois no Céu sem ter que trabalhar, reencarnações melhores colocados, menos punições nas vidas futuras, transmigrações para animais mais ‘nobres’ ou o fim das reencarnações sofridas e a transmutação para semi-deuses mais breves. Apregoação jamais verificada, obviamente. Ou a queda na mão de outro deus mais poderoso que não precisa nenhum esforço para convencer as pessoas, o demônio que, afinal, muitas poucas vidas foram tiradas em seu nome. As maiores mortes foram praticadas em nome do Deus de bondade. Do Deus de harmonia e de caridade.

Douglas Reis pergunta no OI: ‘Afinal, se fôssemos tão somente animais, como justificar as evidências de uma moral que permeia desde as culturas mais antigas e assume um caráter tão evidente? Sem padrões morais, não teríamos condições para discriminar as ações em categorias como `justas´, `éticas´ e `boas´, em contraposição àquelas que chamamos de `injustas´, `não-éticas´ e `más´.’

Um período de trevas jamais visto

Na verdade esta cultura jamais existiu, a não ser como fenômeno social diferente entre povos, épocas, latitudes e continentes. Povos civilizados e mais industriosos existiram antes dos judeus e muito antes da cristianização dos povos. Não existe mesmo nenhuma coincidência mundial, quanto mais afirmar universal, de que não tenha passado pela cultura. As noções de legalidade e de justiça não foram colocadas de forma uniforme pelas civilizações, mas de maneira prática por grupos interessados em sobreviver necessitando de colaboração e proteção mútuas. Justamente uma prova de que nunca houve uma inspiração mundial e igual em toda a história da humanidade em povos isolados. Nunca houve transmissão cultural religiosa sem contato físico entre populações. Que a Bíblia judaica fez falta para algum povo se formar, se constituir, se organizar e estabelecer regras de convivências e trato com os seus servos e estrangeiros. Nem o judaísmo abandonou a guerra, o saque, o extermínio e a servidão humana, como o cristianismo e o islamismo de igual modo não fizeram isto. Justamente o livro sagrado serviu para justificativa destes atos de interesses particulares e não de uma visão ampla da humanidade. Para justificativas de saques, desapropriações, extermínios, uso sexual de servos, do que uma moral fundamentalmente ampla e diferente em amplos continentes. Quantas religiões e cultos cristãos foram extintos e povos dizimados definitivamente pelo cristianismo por se oporem ao seu saque? A intolerância inicia-se com o cristianismo. Não foi uma coisa para a qual ela veio combater que não existia na época em Roma. As relações entre homens e as sociedades se formaram sem a intervenção de uma moral universal, mas de uma moral utilitarista de convivência social necessária. Foi moldada pelas necessidades de viver em conjunto, em harmonia interna, em cooperação entre as diversas classes de trabalhadores e lutadores para sobreviverem à natureza e conquistar o próximo. Não foi uma inspiração de Deuses que ocorreu organizações profissionais, estratégias de ataque e defesa, organização em produção, desenvolvimento de artes próprias, esportes específicos e formas de enfrentar as adversidades. Elas ocorreram de forma racional naqueles povos que sobreviveram apenas, pois os que falharam nisto pereceram sem deixar testemunho e relatos dos seus fracassos e de seus deuses. Ninguém deixa de gostar dos filhos e dos amigos porque não existem deuses obrigando. Ninguém deixa de plantar para colher, deixa de ir à escola ou não vai mais ao trabalho porque Deus não existe. Uma idéia tola.

O cativeiro foi na Babilônia e foi lá que viveram os judeus cativo e que Ciro permitiu que voltassem para o Jerusalém para ter um estado tampão entre ele e os egípcios. No tempo de Ciro que o mesmo adotou a política de autorizar os povos exilados em Babilônia retornar às suas terras de origem. Não foi pela Bíblia, mas pela cultura própria que respeitou os vencidos, manteve seus deuses e liberou os povos antes cativos. Justamente nesta época que muitos judeus se recusaram a voltar para o deserto e passar trabalho num ambiente desfavorável. Realmente houve a cooperação da reconstrução do templo, coisa que o cristianismo viria a acabar destruindo toda a cultura greco-romana e todos os outros credos onde pisasse. Muito bem lembrado mais uma vez a intolerância Bíblica essencial. Judeus jamais ajudariam outros povos nisto, como os cristãos destruíram tudo onde pisaram. Alexandre III da Macedônia repetiria este gesto de tolerância, como os romanos fizeram antes do cristianismo criando o Panteão. Grande parte do sucesso de Alexandre, o Grande, foi este respeito aos povos conquistados, como também praticaram os romanos aceitando todos os deuses dos povos anexados. O que acaba com o reconhecimento do cristianismo como oficial levando a acabar com o Império no Ocidente, em vez de justamente o torná-lo invencível como desejavam os cristãos que ocorresse. Apenas a humanidade assistiu a um período de trevas jamais visto no ocidente antes desta catástrofe cultural que varreu as bibliotecas, escolas de filosofia, templos e culturas da Europa por mil anos.

Nossa insânia animal

Um comentarista lembrou que as universidades foram criadas pelo clero. Na verdade elas foram criadas pela constatação do enorme atraso e ignorância da cristandade em vista das escolas que os sarracenos criaram na Europa dominada e não pela intenção de abrir a mente das populações. Toda a cultura ocidental tinha sido perdida sendo resgatada deste intercâmbio e ‘renascimento’ neste contato. Daí o nome deste capítulo da história. Em contraposição a isto que se cria no mesmo tempo a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) (Congregatio pro Doctrina Fidei) e a Santa Inquisição para tentar manter o obscurantismo controlado e combater as descobertas e idéias que desmascaravam o clero e o poder baseado neles na época. As grandes navegações mostravam o atraso europeu frente aos povos diferentes tecnologicamente. Manter o ensino controlado e a lavagem cerebral garantida. O que ocorre com a criação de várias organizações católicas incumbidas de ampliar o poder da Igreja pela educação religiosa e a conquista de povos pelos corações e mentes. Incutir o cristianismo antes que elas possam pensar.

Não foi por falta de crenças que os Neandertais e CroMagnons não sobreviveram na natureza, assim como não sobreviveram os dinossauros e, mais recente, as megaferas. Ou os animais que a civilização humana está a dizimar diariamente no planeta ameaçando a sua própria existência enquanto se ilude de não ser animal, mas um filinho criado por Deuses a sua imagem e semelhança para usufruir as riquezas da terra criada para eles reinarem. A moral certa frente aos inferiores e indefesos animais. O cristianismo e o judaísmo não trouxeram nenhum valor essencial novo para a humanidade, mas destruíram muitas das necessárias até ser enfrentado pelas revoluções inglesa, americana e francesa.

É difícil atribuir a deuses a preocupação de não matar quando a natureza é pródiga disto em todas as formas imagináveis e ainda desconhecidas. Quem mata tanto, cria tantas doenças e catástrofes que atinge a vida toda na terra nestes milhões de anos não estaria preocupado conosco, a não ser nós mesmos com nosso umbigos egoístas. E é isto que vemos nestas revelações e nestes milhares de deuses: todos a nosso serviço para nos proteger e premiar regiamente até mesmo com uma vida eterna enquanto devastamos os povos opostos e a vida na terra colocada por ‘Eles’ para nossa glória e uso fruto. ‘Dizei uma palavra e estareis salvo!’ Nenhuma vida foi o suficiente sagrado para ser poupada para a nossa insânia animal.

Transformação metafísica

Também neste aspecto usamos os deuses para tomar posse de tudo que existia em todos os lugares ‘dados’ para nós como legítimos donos. Agora tentando partir para o espaço para ‘conquistar’ o mesmo para nosso diletante dilapidar.

Mas a moral mudou entre o antigo e o novo testamento para quem sabe ler sem ignorar o que está escrito e não usar apenas o que deseja ver o que não está lá. Descartando a maior parte e se limitando a frases sem nexo. Mas é difícil para quem se apega a educação limitadíssima recebida e não consegue ver a fonte social e relativa das verdades culturais como isto apenas. Gostos, modas, valores de sociedades limitadas a elas mesmas. Assim como se come insetos no oriente, não comenos no ocidente. Tabus educacionais sem nenhum valor maior fora daquele grupo social. Homossexuais mortos aqui e exaltados acolá. Como todas as ilusões, as religiões não promovem o que prometem e nem protege o que deveria realizar entre os seus devotos. Principalmente no que propalam. A convivência pacífica entre grupos como a finalidade mais prática da mesma. Muito menos fazer a transformação metafísica prometida pelo papa Bento 16 para as bruxas da África de quem aceitar os evangelhos será transmutado energeticamente em uma vida eterna. Só podemos lamentar estas promessas de pessoas ingênuas, na melhor das hipóteses, para outras pessoas mais ingênuas que acreditam em coisas sem sentido. Promessa que ele não faria dentro de uma universidade.

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Médico, Porto Alegre, RS

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