Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > JORNALISMO & FOFOCA

O escorregão que foi e o que fica

Por Alfredo Henrique em 02/03/2010 na edição 579

A internet, em decorrência de seu espaço infinito (que abarca qualquer tipo de manifestação de idéias), possibilitou que portais de notícia fossem criados com o intuito de divulgar informações em ‘tempo real’.

Por possibilitar a publicação, virtual, de qualquer tipo de informação, a internet faz com que fofocas e informações inúteis sejam confundidas com ‘notícias’, em alguns casos. O critério para que ocorram as publicações é determinado pela postura editorial de cada veículo de comunicação. Portanto, o que está publicado passou pela mão de algumas pessoas antes.

Na quinta-feira (25/2), o presidente da França, Nicolas Sarkozy, desembarcou no aeroporto de Kigali, em Ruanda, para se encontrar com o presidente Paul Kagame. O presidente francês afirmou que seu país cometeu ‘sérios erros’ de avaliação sobre o genocídio desencadeado entre as etnias hutu e tutsi em 1994, que matou quase um milhão de pessoas em um período de 100 dias.

Juntamente com Kagame, o presidente da França afirmou, em entrevista coletiva, que ‘houve um sério erro de avaliação, um tipo de cegueira quando não previmos as dimensões genocidas do governo’. O presidente da França ainda disse que quer identificar e punir os responsáveis pelo genocídio.

Tropeço físico e literal

França e Ruanda romperam seus laços diplomáticos em 2006, após um juiz parisiense acusar Kagame e mais nove assessores de terem envolvimento na queda do avião de Juvenal Habyarimana, presidente de Ruanda à época. A queda do avião de Habyarimana, ocorrida em abril de 1994, teria desencadeado o massacre. Os laços diplomáticos entre os dois países só foram retomados em novembro de 2009.

Essas informações sobre visita de Sarkozy podem ser consultadas nos principais portais de notícia da internet. Lendo mais de um portal, para cotejar as informações, fiquei surpreso com o endereço eletrônico da rede Record, o ‘R7’. Em destaque há a seguinte manchete: ‘Nicolas Sarkozy quase leva tombo aos descer de avião em Ruanda’.

A princípio, imaginei que era uma curiosidade, ou até mesmo uma metáfora do ‘vacilo’ diplomático francês com relação ao genocídio em Ruanda. Porém, ao clicar no link para ler a matéria, constatei que, na verdade, o que estava em destaque era (pois neste momento alguma outra informação a substitui) o tropeço do presidente francês, tropeço físico e literal, ao descer as escadas do avião em Kigali.

Errar é humano

O texto, de três pequenos parágrafos, narra a descida do presidente, até a intervenção de Bernard Kouchner (ministro das Relações Exteriores da França), que impediu a queda de Sarkozy. A fofoca, camuflada de notícia, termina com as seguintes palavras: ‘Se não fosse a mãozinha providencial de Kouchner, o marido de Carla Bruni teria levado um belo tombo.’ O tom do texto se assemelha ao de publicações que costumam entreter a curiosidade das pessoas, sobre a vida alheia, geralmente de indivíduos famosos. O fato de estar escrito ‘marido de Carla Bruni’ deixa claro a falta de seriedade da pretensa informação disponível no portal.

Não tenho nenhuma bronca com revistas de fofoca e muito menos com quem as lê. A questão é que a visita de Sarkozy a Ruanda, para o R7, se limitou, pelo menos até às 17h10 do dia 25/02/2010, somente à quase queda provocada por um tropeço. A motivação diplomática da visita não foi divulgada. Errar é humano, como no dito, mas que não se erre confundindo fofoca com notícia.

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Jornalista, Araraquara, SP

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