Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 19 E 20/7

O Estado de S. Paulo

22/07/2008 na edição 495

FOTOJORNALISMO
Warren Zinn

Minha foto deu fama ao soldado Dwyer. Teria influenciado em sua morte?

‘O e-mail foi um soco no estômago. ‘O soldado que você tornou famoso se matou no último sábado. Achei que você devia saber.’ Pensei que havia abandonado o fotojornalismo e a guerra há quatro anos e meio, quando troquei os campos de batalha poeirentos do Iraque e do Afeganistão pela escola de direito em Miami. Mas essas palavras me recordaram que a gente nunca se livra realmente do campo de batalha.

Eu soube de imediato o que a mensagem significava: Joseph Dwyer estava morto. Dirigi atordoado o carro para casa e entrei em meu apartamento. E lá estava Dwyer, na parede, olhando para mim.

Ele foi o tema de uma foto muito divulgada que tirei como fotojornalista ‘inserido’ (que faz a cobertura de guerra lado a lado com um dos grupos em combate) durante as primeiras semanas da invasão americana do Iraque, em 2003. A foto captou o jovem médico correndo para a segurança com uma criança iraquiana ferida nos braços. A foto foi publicada em jornais do mundo inteiro e trouxe fama instantânea para Dwyer.

Durante anos, eu deixei orgulhosamente exposta na parede a primeira página do USA Today com a foto. Foi um feito tremendo. Eu tinha apenas 25 anos quando a tirei.

Agora, porém, a imagem se impregnou de um significado diferente.

Joseph Dwyer morreu de overdose de droga aos 31 anos. Eu havia lido notícias de que ele estava lutando contra um distúrbio de stress pós-traumático. Ele achava que estava sendo caçado por matadores iraquianos e havia entrado e saído do tratamento.

Segundo sua mãe, Dwyer não pôde ‘superar a guerra’. Mas, enquanto fitava sua imagem na minha parede, eu não conseguia fugir da pergunta: ‘Esta foto teve alguma coisa a ver com sua morte?’

Segundo informações divulgadas por TVs e jornais, ele odiava a notoriedade que a foto lhe rendeu. Não pude deixar de me questionar sobre quanto aquele momento da foto – um mero 1/250 avos de segundo quando três vidas se cruzaram numa margem de rio no Iraque – contribuiu para os fardos que ele trouxe para casa?

Se eu não tivesse tirado a foto, teria Dwyer terminado como terminou? Ele teria sido mais uma baixa da guerra?

Na madrugada de 25 de março de 2003, menos de uma semana depois da invasão do Iraque, o 7º Regimento de Cavalaria do Exército dos Estados Unidos estava em Mishkab, ao sul de Bagdá, tentando se livrar de uma série de emboscadas.

Eu estava acompanhando a unidade como fotojornalista para o Army Times. Protegido no interior de um blindado Bradley, consegui dormir em meio ao tiroteio intenso, mas fui despertado quando o chão começou a tremer.

Aviões americanos lançavam bombas sobre combatentes iraquianos que estavam usando a cobertura de uma aldeia próxima às margens do Rio Eufrates para lançar seus ataques contra o 7º Regimento de Cavalaria.

Agarrei meu equipamento fotográfico, vesti o capacete e o colete à prova de bala e procurei me arrastar para fora do Bradley. Abri a escotilha para ver o fogo engolfando as palmeiras que ladeavam o Eufrates.

Alguns minutos depois, um homem apareceu, correndo da aldeia pela estrada sinuosa e poeirenta na direção dos soldados. Suas mãos estavam erguidas, uma delas segurando uma bandeira branca improvisada.

Visivelmente abalado, ele disse que havia pessoas feridas na aldeia que precisavam de cuidados médicos imediatos. Temendo uma emboscada, o comandante da unidade disse ao homem que o Exército trataria dos feridos, mas eles deveriam ser trazidos para a estrada.

O homem partiu. Alguns minutos depois, ele estava novamente correndo pela estrada poeirenta, desta vez carregando um garoto de 4 anos chamado Ali Sattar. Ali estava nu da cintura para baixo, e sua perna esquerda estava enfaixada num lenço branco encharcado de sangue.

Quando o homem estava correndo na minha direção, eu disparei minha câmera, sentindo que alguma coisa especial estava se desenrolando diante de mim. Um médico do Exército apareceu subitamente à minha direita e correu para o homem iraquiano, que entregou a criança ferida a ele. Esse militar era Dwyer.

Quando ambos se viraram para correr, Dwyer para um posto de socorro e o homem de volta para a aldeia, eu continuei disparando a câmera, pensando: ‘Espero que esteja em foco, espero que a exposição esteja certa, Deus, Warren, não estrague isto.’ Sabia que aquele era um momento que o mundo precisava ver – um momento de heroísmo americano, de compromisso americano com o salvamento de uma vida.

RETORNO

Em junho de 2003, alguns meses depois daquele incidente à margem do Eufrates, voltei ao Iraque para documentar o destino de Ali Sattar. Em Mishkab, passei horas mostrando capas de jornais e fotos do garoto aos moradores, até ser finalmente encaminhado à sua casa.

Seu pai saiu com Ali nos braços. Os ferimentos em sua perna tinham sido grandes e ele não havia podido receber um acompanhamento médico adequado dos hospitais iraquianos. Ali não conseguia andar sem um manquejar doloroso, por isso seus parentes o carregavam para todos os lados.

Passamos aquela tarde juntos às margens do Eufrates, tomando Pepsi e chá iraquiano e compartilhando chocolates enquanto eu mostrava à família as fotos que havia tirado de Ali. Ele era um típico menininho tímido, mas ficou apaixonado por sua foto, embora sua família camponesa não compreendesse por que ela significava tanto. Quando nos despedimos, um avião passou. O barulho dos motores deixou em pânico o garotinho e o medo se espalhou por seu rosto.

Ali terá uns 9 anos agora. Não sei onde ele está, embora pense nele às vezes. Fico tentando imaginar se ele se acostumou com a guerra e superou seus medos. E se ele se recuperou por completo e é capaz de andar. Sei que houve um tempo em que Dwyer pensava em Ali também.

E-MAIL

Dwyer e eu não tivemos muito tempo para conversar no Iraque, exceto por algumas horas que passamos juntos no dia seguinte ao da foto, por isso fiquei surpreso ao receber um e-mail dele certo dia, um ou dois meses depois que voltei a Mishkab. Acho que ele havia voltado aos EUA então, ou ao menos não estava no Iraque, e queria saber se eu sabia o que acontecera ao garoto da foto. Respondi ao e-mail e contei-lhe sobre minha viagem para encontrar Ali.

‘Não posso acreditar que você voltou ao Iraque… Eu temia que o garoto não resistisse’, ele respondeu em 6 de agosto de 2003. ‘Gostaria de ter voltado com você àquela aldeia.’ Em novembro, ele mandou nova mensagem. ‘Oi Warren, é o Joseph Dwyer, o sujeito que você deixou famoso. Espero que esteja bem e em segurança.’ Ele perguntou se eu tinha outras fotos daquele dia que pudesse lhe enviar e se eu ficara sabendo mais alguma coisa sobre Ali.

Em janeiro de 2004, fui escalado para retornar ao território iraquiano por um terceiro período. Mas, depois de duas temporadas no Afeganistão e duas no Iraque, decidi que já era hora de pendurar minhas câmeras.

A guerra havia cobrado um preço de minha família, de meus amigos e de mim. Não consegui encontrar razões para voltar e arriscar minha vida de novo. Essa é a diferença entre mim e soldados como Joseph Dwyer. Eu tinha o privilégio de encerrar minha participação quando quisesse. Os homens e mulheres das Forças Armadas não têm esse luxo.

Larguei o jornalismo, mudei para Miami e logo depois me inscrevi numa escola de direito. Tive notícias de Dwyer um par de vezes depois, casualmente. Ele não me contara que enquanto eu me digladiava com Legislação Contratual, ele estava batalhando para se adaptar à vida civil depois de seu período de três meses no Iraque.

Soube pela primeira vez de seus problemas com o distúrbio de stress pós-traumático (PTSD, na sigla em inglês) por uma matéria em 2005 sobre sua prisão no Texas, depois de uma reclusão no apartamento onde ele estava vivendo então. Ele achava que havia iraquianos do lado de fora tentando entrar, e estava atirando nos fantasmas.

A última mensagem que Dwyer me enviou foi em 1º de dezembro de 2004. ‘Quando eu voltei, não queria mesmo falar sobre ter estado lá com ninguém’, escreveu. ‘Agora, olhando para trás, foi uma das maiores coisas que eu já fiz. Espero que você sinta o mesmo sobre o que fez. Eu realmente acredito que você teve um papel importante nessa guerra ao contar a história de todos.’

Cerca de uma semana depois que Dwyer morreu, sua mãe me telefonou. Eu estivera tentando entrar em contato com ela para apresentar minhas condolências à família e fazê-los saber o quanto eu me sentia mal.

Maureen Dwyer me contou que havia lido as reportagens que diziam que seu filho odiava a fama que a foto lhe trouxera e ela queria que eu soubesse que elas não eram verdadeiras. Ele amava a foto, disse Maureen.Ele sempre teve orgulho dela e só se sentia um pouco embaraçado por ser singularizado enquanto muitos outros soldados estavam fazendo exatamente o que ele fez.

Não sei se a foto de Dwyer é a melhor que já tirei, ou a minha favorita, mas acho que ela representou alguma coisa importante. Na época, representou esperança. Esperança de que o que nós estávamos fazendo como nação no Iraque fosse a coisa certa. Esperança de que nossos soldados estivessem ajudando pessoas. Esperança de que soldados como Dwyer se preocupassem mais com a vida humana do que com qualquer outra coisa.

Mas agora, quando olho para a foto, ela não me parece tão esperançosa. Ela me faz perceber que há tantos soldados fisicamente dilacerados e numa tal angústia mental que, para alguns deles, a esperança se transformou em desesperança. Isso, devo acreditar, foi o que aconteceu com Joseph Dwyer, que era assombrado pelos fantasmas do que ele vira no Iraque, pelos medos com os quais convivera por tanto tempo. Ele jamais conseguiu deixar para trás os campos de batalha. Foi imortalizado naquela imagem em que tentava preservar a vida. Mas não conseguiu preservar a própria vida.

TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

*Warren Zinn cobriu as guerras no Afeganistão e no Iraque como fotojornalista para o Army Times de janeiro de 2002 a dezembro de 2003. Hoje, estuda na Escola de Direito da Universidade de Miami. Escreveu este artigo para The Washington Post’

 

TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
Ethevaldo Siqueira

O blábláblá dos semicondutores e da TV digital

‘Como brasileiro, estou esperando a instalação da indústria de semicondutores prometida pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa, em contrapartida à escolha do padrão de TV digital ISDB pelo Brasil. Na solenidade de assinatura do acordo Brasil-Japão sobre a TV digital, em Brasília, o presidente Lula comemorou: ‘O acordo que hoje assinamos com o Japão nos ajudará a recuperar esse tempo perdido na indústria de semicondutores e a avançar ainda mais na área de software’.

Na verdade, o Japão não vai instalar nenhuma fábrica por força desse acordo. Segundo o texto oficial, aquele país só se comprometeu em cooperar ‘com o governo do Brasil na elaboração, por parte do Brasil, de um plano estratégico para o desenvolvimento da indústria de semicondutores, com vistas a investimentos japoneses no Brasil. Este plano estratégico incluirá um pacote detalhado de políticas especialmente elaborado para atrair investimento de fabricantes de semicondutores no Brasil’.

Para o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, ‘essa história da indústria de semicondutores era puro blá-blá-blá’, já que o Japão não assumiu nenhum compromisso formal em implantá-la.

Qualquer estudioso sabe que o Brasil não oferece as condições mínimas para atrair as grandes empresas de microeletrônica. Falta-nos mão-de-obra altamente qualificada e abundante, estrutura tributária favorável e laboratórios de pesquisa.

E A TV DIGITAL?

A pressa populista chegou a levantar a hipótese de a estréia da TV digital em São Paulo, ocorrer na Copa do Mundo de 2006. Além da alta definição, o ministro das Comunicações deu a entender que teríamos logo interatividade, multiprogramação, internet na TV, inclusão digital, portabilidade e mobilidade, em veículos ou no celular.

Depois criou a expectativa dos set-top boxes a R$ 200, a R$ 100 e até menos, sem levar em conta que mais de 90% da população não vê qualquer razão para comprar um sintonizador para acoplar a seu televisor analógico. A rigor, o povão ignora totalmente o que é TV digital. A própria classe média ainda não compreendeu o que é nem quais são as vantagens da nova tecnologia.

Quem está frustrada é a classe A, que tem poder aquisitivo, que acreditou nas promessas mirabolantes do ministro, que investiu pesado no melhor televisor plano de 42 ou 50 polegadas, alta definição plena (Full HD ou 1.080 pixels), com sintonizador digital incorporado. Essa elite está revoltada. E com razão, porque percebe que o projeto de introdução da TV digital tem sido mal conduzido, sem muita sintonia entre governo, emissoras, universidade e indústria.

Por que não dizer toda a verdade à população, para que ela se prepare para a longa transição? Por que não reconhecer que a adoção de qualquer nova tecnologia exige longo tempo de maturação e produção em larga escala? Assim ocorreu com a TV em cores, o CD, o DVD, o celular, o computador pessoal ou a internet. Assim deverá ocorrer com a TV digital.

TUDO VAI BEM

Embora irritado com a ação governamental, não me surpreendo com o atual estágio da TV digital brasileira. No começo é assim mesmo, com poucos programas de alta definição: uma novela, um ou outro jogo de futebol e programas de auditório de qualidade medíocre. Multiprogramação, interatividade, integração com a internet, portabilidade e mobilidade são recursos que ainda demoram anos para chegar.

Vou mais longe: nenhum país poderia fazer melhor, no mesmo período, nas mesmas condições. O grande problema do governo está em criar expectativas irrealistas e misturar um projeto desses com interesses pessoais e político-partidários.

E nos Estados Unidos? Lá, em 2007, após nove anos de introdução da TV digital, só havia 30% de domicílios em condições de receber programas na nova tecnologia. O país só se mobilizou quando percebeu que a data da transição da TV analógica para a TV digital estava próxima e era intransferível: 17 de fevereiro de 2009. Daqui a sete meses. Hoje, já são mais de 64%, segundo pesquisa da Associação Americana de Radiodifusores (NAB, na sigla em inglês).

E para as famílias mais pobres, o governo norte-americano oferece sintonizadores digitais inteiramente grátis, mediante a distribuição de cupons. Para os demais, subsidia a venda desses receptores, a US$ 40.

RÁDIO DIGITAL

Mais sério do que o problema da TV é o rádio digital. O ministro das Comunicações insiste em adotar no Brasil a tecnologia de HD Radio ou Iboc – que tem diversas limitações e que ainda não está plenamente desenvolvida. Nos Estados Unidos, depois de 6 anos, apenas 10% das emissoras aderiram ao padrão. O percentual de receptores digitais em uso é ainda menor: 4%.

E mais: o ministro Hélio Costa retoma a idéia de trazer para o Brasil a empresa americana Ibiquity, dona da tecnologia, apoiá-la com recursos do BNDES para que termine o desenvolvimento do padrão Iboc e passe a exportar para a América Latina.

Imaginem o Brasil financiando uma empresa americana, com dinheiro público e correndo o risco do futuro de uma tecnologia problemática.’

 

CRÍTICA LITERÁRIA
Antonio Gonçalves Filho

Antonio Candido, 90 anos

‘Apesar de ter aprendido a ler, ainda pequeno, em livros sobre mitos germânicos, o professor de literatura Antonio Candido, que completa 90 anos na quinta-feira, sempre manteve distância cautelosa da mitologia. Ele até imaginou, numa antiga entrevista, como iriam falar dele no futuro, quando se contasse os primórdios da sociologia na Universidade de São Paulo. Irônico, imitou o estilo de seus biógrafos – ou hagiógrafos – ao tentar descrevê-lo como ‘um professor que se caracterizava pela capacidade de especialização e pela profundidade’, lembrando que, quanto mais escuta o que se conta sobre sua época, tanto mais entende como se constrói a história. Ou o mito. Candido, mais conhecido como crítico literário, nunca se considerou um especialista e jamais se arrependeu de ter feito o curso de Ciências Sociais. Foi, segundo ele, a coluna vertebral de sua visão de mundo – literária, inclusive – e credita seu interesse na área ao amigo Florestan Fernandes, cujo filho, Florestan Fernandes Jr., acaba de dirigir um documentário sobre ele, que vai ao ar pela TV Brasil, na quinta, às 22 horas.

Como de costume, Antonio Candido é a figura central, mas só aparece em gravações antigas. Há muito não concede entrevistas e não abriu exceção nem para o filho do amigo Florestan, que teve de recorrer a entrevistas gravadas há alguns anos e convocar os amigos para falar dele. E são muitos. Quatro deles participaram na última segunda-feira, no teatro da USP, de um debate em que analisaram o papel fundamental que os livros Formação da Literatura Brasileira (1957) ou Os Parceiros do Rio Bonito (1964) tiveram na vida intelectual do País no último meio século: a professora de literatura Walnice Nogueira Galvão, o historiador Carlos Guilherme Motta, o sociólogo Francisco de Oliveira e o jurista Fábio Konder Comparato.

Candido apareceu nesse debate tanto como o professor que tirou do limbo autores antigos (Gregório de Matos, entre eles) quanto o crítico que contribuiu para criar a revista Clima e o Suplemento Literário do Estado, revelando novos escritores (Clarice Lispector, por exemplo), além de ser lembrado como o militante político que ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) em fevereiro de 1980. Antonio Candido teria gostado de ouvir episódios de uma vida marcada por fatos pitorescos e amizades com os maiores intelectuais que este país já teve, de Mário de Andrade a Sérgio Buarque de Holanda, passando por Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado e Ruy Coelho.

Entre os episódios engraçados, um que não foi contado durante o debate – seu exame vestibular para a Faculdade de Filosofia-, talvez seja o mais conhecido. Fazia parte da banca o sociólogo francês Roger Bastide, que lhe perguntou qual era a importância sociológica de uma ilha (‘une île’), ou seja, qual a importância do isolamento, que segrega os grupos. Ele entendeu como ‘la importance sociologique du Nil’, tratando logo de discorrer sobre a importância do transbordamento do Rio Nilo para a formação de comunidades no Egito. Bastide deu corda e Candido poderia ter falado horas sobre as cheias do Nilo, não fosse interrompido pelo presidente da banca, o italiano Luigi Galvani. Se isso não provou a verve sociológica de Candido, ao menos ficou como registro de uma tremenda vocação literária. Bastide, que não ligava para a especificidade da ciência sociológica, gostou, mas sua maior influência na faculdade seria o professor Jean Maugüé, que recomendava a seus alunos a leitura de Shakespeare e Dostoievski, além do estudo dos escritos de Marx, ortodoxo comunista que era.

Por causa do curso de Mangüé, Candido viria a se tonar militante do Partido Socialista Brasileiro e participante do Grupo Radical de Ação Popular, que, em 1942, espalhou panfletos contra a ditadura do Estado Novo, condenando-a por manter um posicionamento neutro com os países do Eixo até Vargas ser obrigado a romper relações diplomáticas com o nazi-fascismo. Um ano depois, Candido e outros jovens formados em Direito organizaram uma Frente de Resistência e, em 1944, por iniciativa do amigo Paulo Emílio Salles Gomes, criador da Cinemateca Brasileira, essa frente manteve contato com um grupo de comunistas dissidentes que discordavam do apoio do PC a Vargas. Entre eles estava Caio Prado Júnior, lembrado pelo historiador Carlos Guilherme Motta, no debate da USP, como um dos representantes da oligarquia, da ‘gauche elegante’, que refletiu sobre as desigualdades do Brasil. Candido seria, segundo ele, o limite do pensamento radical da classe média que freqüentou a Faculdade de Filosofia, apesar de o crítico sempre ter se definido como ‘desprovido de cabeça política’. Tendo convicção e princípios, não sabia transformá-los em ação, disse numa entrevista, revelando ter um um fundo de ceticismo que ‘atrapalha os ímpetos da militância’.

Essa modéstia não impediu, diz o professor de sociologia Francisco de Oliveira, que Candido fornecesse os instrumentos sensoriais para interpretar o Brasil, destacando seu papel cultural nas transformações políticas do País, em especial com Os Parceiros do Rio Bonito, livro que evita olhar a realidade brasileira de maneira mecânica, buscando entender as relações de uma sociedade caipira em confronto com os valores da civilização urbana que a levam ao isolamento. Quem quiser estudar a história social do Brasil, terá necessariamente de passar por essa literatura. Antonio Candido é incontornável.’

 

 

Samuel Titan Jr.

Um mestre digno de admiração

‘A certa altura de Formação da Literatura Brasileira (1959), quando se prepara para discutir o aparecimento da ficção romântica como ‘instrumento de descoberta e interpretação’ do País, Antonio Candido dedica alguns parágrafos discretos a Machado de Assis. Observa que o trio romântico realizara uma obra admirável de importação do romance europeu, num exercício de dupla fidelidade – uma ‘fidelidade dilacerada, por isso mesmo difícil’ – em que muitas vezes situações narrativas européias, imitadas com devoção, entravam em conflito com circunstâncias brasileiras, registradas com o mesmo empenho.

O resultado – desigual por definição – desse esforço da geração de Alencar, Macedo e Manuel Antônio de Almeida bem podia ter caído no vazio tão logo a voga romântica foi substituída pela ‘última novidade ultramarina’ – como de fato se deu, sempre segundo Candido, com o advento do romance naturalista. É quando entra em cena Machado de Assis, ‘esse mestre admirável’ que ‘se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores’. A sua obra ‘pressupõe a existência dos predecessores’, na medida em que Machado se dedicou a ‘assimilar, aprofundar, fecundar o legado positivo das experiências anteriores’.

A observação, breve mas certeira, posiciona Machado numa tradição local sem reduzi-lo a esta e sugere que seu gênio consistiu menos em ‘começar da capo’ do que em repensar e reescrever o legado do passado. Nesse sentido, Machado é o vértice secreto de Formação (por mais que esta se detenha em 1880, um ano antes das Memórias Póstumas de Brás Cubas), na medida em que o escritor fluminense consuma, superando-o, o esforço de seus predecessores ‘em seu desejo de ter uma literatura’ e dar forma à sua experiência histórica e humana.

Ora, essas fórmulas, que iluminam Machado de Assis, iluminam também a figura desse seu leitor, Antonio Candido, no campo da crítica e da história literária. Imagino que ele, homem discreto, recuse a comparação e acuse a hipérbole. Pode ser. Mesmo assim, é o caso de notar como as idéias mestras de continuidade, aprofundamento e formação parecem ter norteado também o trajeto do crítico desde muito antes do ensaio de 1959: seja no empenho de autoformação levado a cabo pelo rapaz estudioso de que falam os testemunhos biográficos, seja na minúcia com que se ‘embebeu’ (para usar o verbo que aplica a Machado) dos séculos 18 e 19, seja no tema de sua tese de doutorado, o crítico Silvio Romero – escolha das menos glamourosas, mas ditada por uma espécie de senso de missão intelectual.

Mais que isso, assim como Machado prolongava e reescrevia, em modo irônico, o melhor da ficção anterior, assim também Candido repensa o curso da literatura brasileira num espírito que não tem nada de conservador ou continuísta, operando antes sob o signo da vida contemporânea – que contém, no caso, os ingredientes do modernismo, do socialismo e das ciências sociais – estudadas, não por acaso, nos anos de formação da Universidade de São Paulo.

Para dar um exemplo central desse espírito crítico, vale lembrar como a própria fórmula da Formação da Literatura Brasileira vai na contramão da historiografia romântica (ao contrário do que pensam certos críticos) e desnaturaliza seu objeto e seu método. Se a convenção romântica fazia remontar a literatura nacional a alguma data em torno de 1500 – como se nada dificultasse a identidade de natureza, território, nação e literatura -, Candido começa justamente por se perguntar como e quando uma vida literária consistente começa a ganhar contornos diferenciados a partir de uma experiência histórica idem.

Não bastasse isso, o livro de Candido dá mais um passo decisivo, pois essa história sociologicamente informada da formação de uma literatura nacional é também a história da constituição no Brasil de uma esfera de autonomia das formas artísticas – uma esfera que, sendo autônoma e consistente, ganha também uma dinâmica própria e já não se deixa explicar nos termos simplistas de uma sociologia da literatura.

O problema já o interessara em sua tese de sociologia ‘dura’, Os Parceiros do Rio Bonito, que começara como estudo de uma forma de poesia e dança popular, o cururu, que aos poucos parecia se desligar de suas origens coletivas e coreográficas para ganhar contornos mais individualizados e desritualizados. Mas, para ficar no âmbito da literatura ‘culta’, note-se como a essa luz o vértice machadiano da Formação ganha todo seu sentido, ao mesmo tempo que se vislumbra a importância formativa que a literatura pós-1922, de Mário e Oswald a Drummond e João Cabral, teve para Candido.

Seria possível prosseguir adiante, comentando os vários desdobramentos e aspectos desse modo de praticar e viver a crítica: a noção fecunda de uma dialética entre o interno e o externo na constituição da obra de arte – idéia que ultrapassa a pecha corrente de ‘crítica sociologizante’; o estilo generoso de tantos ensaios do autor, que parecem menos preocupados em esgotar narcisicamente seus objetos do que em plantar marcos de orientação para leitores e críticos futuros; ou conceitos específicos, como o de ‘dialética da malandragem’, capaz de iluminar um aspecto da vida social brasileira, um romance de Manuel Antonio de Almeida e, de quebra, os dribles de um Garrincha (como há pouco sugeriu José Miguel Wisnik em Veneno Remédio).

Fazendo isso, creio que chegaríamos, por vias diversas, a uma mesma constatação: com a obra de Antonio Candido, a crítica e a historiografia literária brasileiras cumprem seu processo de formação e chegam à maioridade. Não porque com ele cheguem a seu termo ou verdade última, longe disso, e sim porque a obra e a atuação de Candido constituíram definitivamente um campo de discussão e dissensão capaz de ficar em pé sobre as próprias pernas, desobrigado de abandonar suas questões e perspectivas próprias a qualquer brisa ou ventania que venha a soprar.

Mas mostrar tudo isso com minúcia ultrapassaria os limites desse artigo, que de resto já ficou longo e sisudo demais. Homenagem sisuda não vale. O que vale é celebrar a conjunção ímpar de literatura, dialética e espírito democrático nessa figura que, aos 90 anos, não perdeu nada do interesse e da capacidade de provocar e inspirar.

Prova disso, para terminar, é uma anedota que, se não for verdadeira, é bene trovata e que talvez não desagrade ao mestre admirável e humorista emérito. Em algum momento dos anos 80, já aposentado, Antonio Candido vai dar uma conferência num auditório da Unicamp. No meio da platéia, um casal de calouros apaixonados não faz muito caso da palestra sobre poesia romântica brasileira e prefere beijar-se prolixamente. Conforme a hora avança, os dois vão se interessando, seguram o fogo e começam a prestar atenção. Logo estão totalmente siderados. Ao final, em meio às palmas, a moça entusiasmada cutuca o rapaz e decreta: ‘Não é que o velhinho leva jeito!?’

Samuel Titan Jr. é tradutor e professor de literatura comparada da USP’

 

 

O Estado de S. Paulo

Mensagens de Parabéns

‘‘Antonio Candido é um raro exemplo, em nossa crítica, de um olhar simultaneamente atento ao contexto da obra e aos elementos formais que a constituem – não como reflexo, mas como réplica particularizada ao campo social de onde surgiu. É nesse fecundo trânsito/diálogo entre componentes externos e a transfiguração intrínseca do literário que se articula o discurso de Candido. Mas, paralelamente à erudição e à consistência argumentativa do historiador na clássica Formação da Literatura Brasileira, convém não esquecer suas perspicazes leituras de autores estrangeiros e a acuidade interpretativa no trato pontual de textos, a exemplo das interpretações compiladas em Na Sala de Aula, em que a microscopia do poético é desvelada com argúcia e sensibilidade.’

ANTONIO CARLOS SECCHIN

POETA E ENSAÍSTA

‘Antonio Candido trouxe para o âmbito dos estudos literários no Brasil as contribuições mais atualizadas e inovadoras das ciências humanas internacionais a partir de meados do século 20. Além da sociologia, da história e da filosofia, suas análises e cursos incorporaram temas e procedimentos da antropologia e da psicanálise e, já entre os anos 60 e 70, da lingüística. Isso para não falar das próprias correntes da teoria literária. Porém, tais ventos renovadores nunca viraram moeda fácil nem modismo descartável nos textos e aulas do mestre. Pois sempre nos ensinou, e este é o ponto crucial, a começar e a terminar qualquer estudo de obra literária por sua leitura mais atenta e amorosa. Trata-se aqui muito mais de uma atitude, de postura que envolve ética e política em seus mais elevados sentidos, coisa que não se ensina e não se aprende nem com pressa nem com pressuposição, mas com a lenta e erudita frequentação das diferentes vozes da poesia e da ficção, projeto de várias vidas.’

FRANCISCO FOOT HARDMAN

PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA DA UNICAMP

‘Antonio Candido formou várias gerações de grandes críticos brasileiros. Um deles, Davi Arrigucci Jr., escreveu um ensaio definitivo sobre o método crítico de Candido: Movimentos de Um Leitor. Entre outras questões, Davi ressalta a relação da dimensão social com a linguagem. Ou seja, a forma e o conteúdo histórico são inseparáveis numa obra literária. Daí a importância do crítico AC como leitor perspicaz e privilegiado, capaz de aprofundar a compreensão do texto. Essa capacidade de ler e interpretar, que une intuição com erudição e análise, é um dos movimentos mais fascinantes da leitura crítica de Antonio Candido.’

MILTON HATOUM

ESCRITOR

‘Embora seja difícil avaliar a atualidade de qualquer trabalho de crítica literária, é inegável que a contribuição de Antonio Candido continua válida e instigante em pelo menos três níveis. Como professor, foi o principal responsável pelo êxito da virada universitária no que era chamado de estudos literários. Como historiador, instituiu uma organização de autores & obras que, polêmica ou não, determinou um cânone. Como explicador de textos, nos doou um aparato metodológico ágil e útil de leitura.’

SILVIANO SANTIAGO

ESCRITOR E ENSAÍSTA

‘Ele nos dá a lição da leitura minuciosa, da comunicação clara, da busca pelo exemplo que possa representar o todo e, principalmente, da tentativa de uma visão sistemática dos caminhos da literatura brasileira. Talvez tenha sido o último de uma geração anterior ao divórcio entre a crítica de rodapé e o manual acadêmico. No calor da primeira hora, não evitou os novos e conseguiu produzir visões reveladoras dos clássicos. Sua lição maior? A de que não há por que tomar o texto isoladamente, fora da relação entre o esforço singular e o pacto coletivo que o torna texto literário. Ele oferece ao leitor o raro exemplo da aliança entre o apuro da forma, a relevância do tema e a síntese de processos sociais. Com Antonio Candido parece fácil mostrar como a literatura, o direito à literatura, é parte fundamental do exercício da nossa cidadania.’

JOSÉ LUIZ PASSOS

DIRETOR DO CENTRO DE ESTUDOS BRASILEIROS DA UNIVERSIDADE

DA CALIFÓRNIA

‘Na cultura da cordialidade, em que as polêmicas literárias prosperam, sempre reconduzindo o modelo dos nossos primeiros críticos da Escola do Recife, com seu estilo bacharelesco e seu veneno do repente nordestino, Antonio Candido é hoje um exemplo de sobriedade. Não se trata de uma virtude moral, mas de uma qualidade propriamente crítica. Quando não replica a O Seqüestro do Barroco, argüição irônico-cortês que lhe dedica Haroldo de Campos, nos anos 80, essa recusa do princípio do duelo é para nossa crítica um decreto de maturidade.’

LEDA TENORIO DA MOTTA

CRÍTICA LITERÁRIA E TRADUTORA, PROFESSORA DA PUC-SP

‘Ao lado de Augusto Meyer, Antonio Candido foi o primeiro que, entre nós, usou sistematicamente da combinação entre sensibilidade e percepção crítica. A aludida combinação é rara, pois supõe o enlace de um reconhecimento o quanto possível imediato de qualidade – a sensibilidade – com uma compreensão da obra, que exige mais do que contato apenas com o literário. Por isso ela é indispensável para que a palavra do crítico se insira no debate crítico – o que não se dá quando o crítico possui apenas ou sensibilidade ou percepção crítica. Acrescento um dado pessoal: ainda quando discorde de posições críticas de Antonio Candido, não esqueço de sempre acentuar que, depois do golpe de 1964, só pude continuar a sobreviver como professor porque ele me aceitou como seu orientando. No Rio, onde vivia, não era aceito para fazer pós-graduação sob a alegação de que fora cassado pelo AI-1.’

LUIZ COSTA LIMA

CRÍTICO LITERÁRIO

‘Antonio Candido é importante para a crítica, ainda hoje, justamente enquanto ?crítico literário? de fato, isto é, alguém que lê um livro com gosto, analisa-o minuciosamente como objeto particular, e está disposto a produzir um juízo de valor a seu respeito, tendo em vista a sua composição própria e o seu lugar num vasto repertório literário, com o qual o crítico mantém relação de freqüentação assídua e envolvida.’

ALCIR PÉCORA

PROFESSOR DE TEORIA E CRÍTICA LITERÁRIA DA UNICAMP

‘Vale lembrar que a importância maior de toda a obra de Antonio Candido é que ele entende a literatura como a arma com a qual defende a dignidade humana.’

OLGÁRIA MATOS

FILÓSOFA

‘Tratando-se de Antonio Candido, a expressão iluminação crítica não é fórmula batida: corporifica o rigor de uma ética militante e de um método de interpretação em que o empenho racionalista comanda a investigação combinada das produções culturais e dos contextos sociopolíticos. As tensões movem o crítico sensível, mas não contorcem seu discurso: o equilíbrio do estilo, que Candido faz parecer natural, ajuda a compreender como a particularização artística e a dinâmica social iluminam-se reciprocamente.’

ALCIDES VILLAÇA

PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA USP’

 

 

***

As lembranças, os marcos e as principais obras do professor

‘Um olhar sobre a carreira, das leituras da adolescência à redefinição da crítica literária no Brasil

Frases

‘Eu diria que depois da minha família e da USP, a terceira grande coisa na minha formação foram meus amigos do grupo de Clima. Nós temos plena consciência de nos termos formado uns aos outros.’

‘Vendo as coisas de hoje, percebo que desde logo tive o pendor crítico, não apenas porque sempre gostei de ler os críticos, mas porque assumi instintivamente a atitude crítica. Dos 12 aos 14 anos eu fazia antologias próprias, em cadernos escolares: copiava trechos e depois compilava dados biográficos e apreciações sobre os autores.’

‘Nunca tive um método de trabalho. Sou intermitente em matéria de escrita e flutuante em matéria de leitura. Há estações em que trabalho intensamente, outras em que fico na maior inércia. Acho que algumas das coisas que me ajudaram na vida intelectual foram justamente a flutuação, a dispersão, a leitura onívora.’

‘Eu não desgostava das ciências sociais e a certa altura passei a gostar mais de antropologia que de sociologia, mas gostava muito mais de literatura. Mas a sociologia foi fundamental na minha formação, na medida em que condicionou a minha visão da sociedade e a minha reflexão política.’

Cronologia

1918

Antonio Candido de Mello e Souza nasce no Rio, mas passa a maior parte da infância em Santa Rita de Cássia, Minas Gerais

1928

Faz sua primeira viagem à Europa, onde permanece por dois anos

1939

Ingressa na Faculdade de Direito da USP. Cursa, ao mesmo tempo, Filosofia

1941

Lança, ao lado de Decio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado, Paulo Emilio Salles Gomes, Ruy Coelho e Gilda de Moraes Rocha, com quem se casaria, a revista Clima

1945

Publica críticas literárias nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo

1956

Circula o primeiro número do Suplemento Literário do Estado, caderno idealizado por Antonio Candido

1957

Torna-se professor de literatura brasileira em Assis, no interior de São Paulo, onde fica dois anos

1959

Publica Formação da Literatura Brasileira

1961

Inaugura a cadeira de Teoria Literária na Universidade de São Paulo

1980

Participa, ao lado de intelectuais como Sergio Buarque de Holanda, da fundação do Partido dos Trabalhadores

1998

Recebe, dias antes de completar 80 anos, o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, concedido anualmente pelo governo de Portugal

2003

Recebe o prêmio Professor Emérito – Troféu Guerreiro da Educação, entregue pelo Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) e o Estado a professores que se destacam no exercício do magistério

Os livros

FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA: Estudo do Arcadismo e do Romantismo, considerados pelo autor decisivos para a formação do que denomina ‘sistema literário’, a articulação de autores, obras e públicos de maneira a estabelecer uma tradição.

PARCEIROS DO RIO BONITO: Reconstrução histórica da sociedade caipira, abrange desde as relações sociais básicas até os meios elementares de subsistência, com intuito de analisar como a expansão da economia capitalista descaracteriza a vida rústica tradicional.

LITERATURA E SOCIEDADE: Aqui, o autor defende que a obra literária deve sempre ser estudada como objeto estético e analisa como as possíveis relações entre a literatura e a sociedade em que se insere podem interferir na definição do papel do crítico literário.

INICIAÇÃO À LITERATURA BRASILEIRA: Repassando desde o século 16 a produção brasileira, o autor mostra como a literatura foi-se formando como atividade regular e instituição de cultura, dada a articulação progressiva de elementos que a tornaram atividade configurada.

TESE E ANTÍTESE: No livro, são analisadas as ‘personalidades divididas’ e contraditórias na obra de romancistas que pertencem a diferentes literaturas, como o francês Alexandre Dumas, o polonês Joseph Conrad e os brasileiros Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.

Entre coletâneas e edições originais, a maior parte da obra do professor Antonio Candido continua em catálogo. Abaixo, uma lista de títulos, publicados pela editora Ouro Sobre Azul, com apenas algumas exceções:

Um Funcionário da Monarquia

O Método Crítico de S. Romero

O Observador Literário

Teresina Etc.

O Albatroz e o Chinês

Brigada Ligeira

O Discurso e a Cidade

A Educação pela Noite

Ficção e Confissão

Na Sala de Aula (Ática)

Florestan Fernandes (Fundação Perseu Abramo)

A Personagem de Ficção (Editora Perspectiva)

Recortes

Vários Escritos

O Estudo Analítico do Poema (Editora Humanitas)’

 

 

Ubiratan Brasil

Mudança vital nos rumos da cultura brasileira

‘Foi em um sábado que a rotina cultural de São Paulo (e, em seguida, do Brasil) mudou profundamente. No dia 6 de outubro de 1956, começava a circular o Suplemento Literário, que acompanharia as edições de sábado do Estado e vinha com a finalidade de preencher a função de uma revista literária de porte nacional, mas atento às particularidades de sua feição paulista. Idealizado por Julio de Mesquita Filho e criado a partir de um projeto do professor Antonio Candido de Mello e Souza, o Suplemento Literário representou um marco no jornalismo brasileiro.

‘Naquela época, São Paulo não tinha a densidade cultural do Rio’, comentou Antonio Candido, em uma entrevista de 2006. ‘O SL foi uma tentativa de fundir o tom de jornal com o de revista.’ Mas o momento era propício – o suplemento chegou para reforçar a fase de desenvolvimento cultural de São Paulo, iniciada com a criação da Universidade de São Paulo e seguida de uma efervescência musical (especialmente no trabalho desenvolvido por Mario de Andrade à frente do Departamento de Cultura), teatral (o fortalecimento do TBC), cinematográfica (o predomínio das produções da Vera Cruz) e artística (a criação dos Museus de Arte de São Paulo e de Arte Moderna) vivida na cidade.

‘No Rio, concentrava-se o mais vivo da literatura e das artes. Não valeria a pena, portanto, pensar uma fórmula de movimento, como a que caracterizava, por exemplo, o famoso suplemento do Jornal do Brasil’, comentou Candido. ‘A maior contribuição de São Paulo era a cultura universitária, mas não havia aqui revistas culturais importantes, nem na USP nem fora dela. Sendo assim, era recomendável tentar uma espécie de equilíbrio entre o movimento vivo da literatura e das artes e a tonalidade mais estável dos estudos universitários. O SL foi uma tentativa de associar as duas dimensões de maneira criativa e acessível, fundindo o tom de jornal com o tom de revista.’

Ao apresentar a primeira edição do Suplemento Literário, o crítico teatral Décio de Almeida Prado, que o dirigiu até 1967, lembrou os leitores que a natureza do novo caderno seria literária e, portanto, artística. ‘Uma publicação como a nossa define-se menos, talvez, pelo que é do que pelo que deseja ser’, escreveu ele, na introdução. ‘Importa, assim, antes de mais nada, conhecer as idéias que estão atrás da realização.’

Almeida Prado, aliás, foi o primeiro diretor do SL por conta da recusa de Antonio Candido em assumir o comando, mesmo com todo conhecimento que tinha do suplemento. Afinal, dois anos antes, em 1954, a direção do Estado pediu a Candido que indicasse um grupo de colaboradores para uma série de artigos sobre a cidade para celebrar o 4º Centenário de São Paulo. Ele, assim, tornava-se naturalmente um candidato à chefia do SL. Candido, porém, preferiu indicar Almeida Prado.

Além da USP, outro ponto de partida para a definição editorial do suplemento foi a Clima, revista editada por um grupo de jovens intelectuais paulistas que logo seriam incorporados à equipe de colaboradores, como Sábato Magaldi, Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, Alberto Soares de Almeida, além dos próprios Antonio Candido e Décio de Almeida Prado.

A diagramação, austera e inovadora, foi concebida por Italo Bianchi, artista italiano formado em artes gráficas e plásticas, nome sugerido pela crítica Gilda de Mello e Souza. Ele buscou uma visualidade muito cuidada, que não contrastasse com a austeridade do jornal.

O Suplemento abria espaço para a colaboração de autores consagrados, como Guimarães Rosa, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, como dos que estavam surgindo, como João Antônio, os poetas Geir Campos e Carlos Nejar, além do crítico Roberto Schwarz. Lançou nomes de importância fundamental na difusão da literatura estrangeira, como o crítico Anatol Rosenfeld e Leyla Perrone-Moisés, que publicou nas páginas do suplemento os primeiros textos sobre a vanguarda literária francesa (Robbe-Grillet, por exemplo).’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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