Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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O estilo gonzo no Brasil

Por Luis Guilherme Pontes Tavares em 14/04/2009 na edição 533

Os novos sinais de fissura no frágil corpo da liberdade humana devem explicar a crescente, porém tardia, repercussão da vida e da obra do jornalista e escritor norte-americano Hunter S. Thompson, criador do gonzo journalism. Thompson desafiou a legislação do seu país no quanto pôde com os seus textos e no uso desenfreado de drogas, bebidas, velocidade e armas. Marcado com o selo de bad boy, apesar disso o jornalista era tratado pelo seu editor da Rolling Stone, Jann Wenner, com o distinto qualificativo de dr. Hunter Thompson.

O gonzo journalism é, segundo o jornalista André Felipe Pontes Czarnobai (TCC. Porto Alegre: UFRS, 2003), ‘o filho bastardo do new journalism, que, por sua vez, é o estilo que aproxima os recursos da literatura ao jornalismo. No gonzo, o jornalista é o personagem principal da reportagem e incorpora ao texto aspectos do cenário e da ação que jornalistas, de modo geral, não dariam a menor importância. Thompson transformou sua obra jornalística em algo tão pessoal que esse estilo torto e bizarro ganhou a denominação de gonzo. E tanto mais gonzo se tornava quanto mais Hunter Thompson o temperava com drogas e bebidas alcoólicas.

A edição mais recuada de um livro de Hunter Thompson no Brasil deve-se à editora carioca Anima que, em 1984, publicou Las Vegas na cabeça. Estampou na quarta capa a sentença atribuída ao New York Book Review, de que a obra era ‘o melhor livro da década das drogas’. Esse livro ganhou nova edição da Conrad, editora de São Paulo que tem publicado nos últimos anos a obra de Thompson, e seu título agora é Medo e delírio em Las Vegas, o mesmo que foi adotado pelo cineasta Terry Gilliam para o filme de 1998, inspirado no livro, em que Johnny Depp contracena com Benicio del Toro.

Além das fronteiras do jornalismo

Em 2007, a editora paulista Companhia das Letras publicou, na sua coleção ‘Jornalismo Literário’, a coletânea Reino do Medo – segredos abomináveis de um filho desventurado nos dias finais do século americano, que reúne textos de Hunter Thompson que contêm informações sobre si, de modo que a obra funciona como uma autobiografia. Acrescente-se a esse livro o recente filme, ainda sem legenda em português, Gonzo: the life and work of dr. Hunter S. Thompson, cuja cópia está sendo vendida numa grande cadeia brasileira de livrarias pela bagatela de R$ 150,00.

Thompson nasceu em 1937, no estado do Kentucky, às vésperas, portanto, da II Guerra Mundial. Quando jovem, serviu à força aérea norte-americana, onde iniciou o jornalismo. De redação em redação, passou à condição de freelancer e colaborador regular da Rolling Stone. Seu modo invulgar de tratar os temas tornou a trajetória de Hunter Thompson extraordinária. Foi o caso, por exemplo, da pauta que recebeu para cobrir uma convenção dos Hell’s Angels, o polêmico grupo de motoqueiros dos Estados Unidos. Ele excedeu o previsto e só retornou à redação seis meses depois com material suficiente para publicar o livro Hell’s Angels – medo e delírio sobre duas rodas (São Paulo, Conrad, 2004).

O autor de Medo e delírio em Las Vegas viveu intensamente os seus dias e suas contradições. Amante das armas, era a favor da paz. Consumidor de drogas e bebidas alcoólicas, optou pela vida no campo, nas montanhas de Aspen. Desordeiro, pretendeu ser o delegado de Aspen, para o que fez campanha e quase chegou lá. Hunter S. Thompson, após cuidar da construção de um imenso monumento a si e ao gonzo journalism – uma grande torre no formato de uma adaga com a empunhadura em forma de figa com um polegar de cada lado –, matou-se, no início de 2005, com um tiro de rifle na cozinha da própria casa. Estaria doente e, mais uma vez insubmisso, não se deixou levar pela morte anunciada. Em agosto do mesmo ano, suas cinzas foram espargidas por um canhão colocado no alto do monumento que ele ajudara a construir num vale de Aspen.

O estilo gonzo de Hunter Thompson, adotado no Brasil, por exemplo, em alguns textos da revista Trip, está espalhado além das fronteiras do jornalismo. Há qualquer coisa de gonzo no documentário baiano Dom Pepê, de Sérgio Siqueira, assim como há a moda gonzo, que ocupou oito páginas da revista Homem Vogue da primavera de 2008. Se duvidar, o estilo gonzo pode ser encontrado até no Palácio do Planalto.

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Jornalista e produtor editorial, Salvador, BA

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