Terça-feira, 13 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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FEITOS & DESFEITAS >

O eterno fascínio dos almanaques

Por Deonisio da Silva em 31/08/2010 na edição 605

Tudo o que é bom dura pouco? Não há bem que dure sempre nem mal que nunca termine? Os almanaques desapareceram de circulação há algum tempo. Desconheço os motivos e não sei de quem os tenha eventualmente estudado. O certo é que nenhum jornal ou revista atingiu jamais a circulação de almanaques como o Biotônico, o Sadol e o Renascim, entre outros, que chegaram a ter três milhões de exemplares.

Os editores celebraram os 50 anos de publicação Almanaque Biotônico Fontoura na edição de 1970: ‘Nossa maior alegria é a cada ano oferecer aos nossos leitores nova edição de nosso Almanaque, repleta de curiosidades e informações.’

No primeiro número, os editores do almanaque fundado por Monteiro Lobato disseram: ‘O Instituto Medicamenta Fontoura deseja fornecer aos seus prezadíssimos amigos o meio mais suave dêstes divulgarem no ilustrado âmbito de suas relações as excepcionais qualidades de segurança e eficácia que caracterizam seus produtos.’ Em 1920, ‘destes’ levava acento circunflexo e a palavra Medicamenta, plural do latim medicamentum, era usada sem nenhuma explicação, supondo-se que todos sabiam tratar-se de remédios.

Futuros promissores

Meio século depois, os leitores eram informados de que as bombas que a Alemanha lançara sobre a Inglaterra na Segunda Guerra Mundial viajavam a 600 km/h a uma altura de 30 km e desciam exatamente sobre seus objetivos, a 350 km de distância. Adiante ensinava-se a tratar de queimaduras, afogamentos, luxações, insolação, intoxicações, picadas de cobra e de marimbondos. Mas se, por acidente, um marimbondo era engolido e picava a laringe, matando a pessoa por asfixia, a medicina tinha evoluído consideravelmente. A equipe comandada pelo professor Euclides Jesus Zerbini tinha transplantado um coração, em São Paulo, em maio de 1968, e a do doutor Edson Teixeira fizera o primeiro transplante de pâncreas, no Rio de Janeiro.

Entre anúncios de diversos remédios, alguns dos quais ainda presentes nas prateleiras de muitas farmácias – água inglesa, vick vaporub, urogenol e xarope de limão bravo –, recomendava-se o que plantar a cada mês no Norte, no Brasil Central e no Sul. Esses anúncios e diretrizes agrícolas conviviam na mesma página com as previsões de cientistas dos EUA que anunciavam voos tripulados a Marte e a Vênus para 1978, e permanência de 42 astronautas em Marte por 300 dias para 1980.

Esses futuros já passaram, mas outros, anunciados junto com os anteriores, ainda não. O nível intelectual de qualquer pessoa poderá ser melhorado por drogas em 2012. Em 2020, a combinação de cérebro e computador aumentará a capacidade intelectual do homem. Em 2050, a vida será ampliada em 50 anos e animais inteligentes farão os trabalhos domésticos.

Os ângulos dos números

Naturalmente, não faltava uma lição bem-humorada de língua portuguesa. Um milionário esquecera de pontuar o testamento, provocando a maior confusão entre os herdeiros: ‘Deixo a minha fortuna para o meu o irmão não para o meu sobrinho jamais para o meu advogado nada para os pobres.’

O irmão pontuou assim: ‘Deixo a minha fortuna para o meu o irmão; não para o meu sobrinho, jamais para o meu advogado, nada para os pobres’.

Eis as correções do sobrinho: ‘Deixo a minha fortuna: para o meu o irmão não; para o meu sobrinho; jamais para o meu advogado; nada para os pobres.’

Já o advogado, solerte, egoísta e sem compaixão alguma, soube defender-se também em língua portuguesa e pontuou deste modo: ‘Deixo a minha fortuna: para o meu o irmão não; para o meu sobrinho, jamais; para o meu advogado; nada para os pobres.’

Encerrou a questão o ‘defensor dos pobres’, hoje personificado no ‘defensor público’ talvez, que entendeu o texto no interesse dos mais fracos: ‘Deixo a minha fortuna: para o meu o irmão, não; para o meu sobrinho, jamais; para o meu advogado, nada; para os pobres.’

O Renascim de 1970 trazia entre as quadrinhas poéticas e travessas esta de Soares da Cunha: ‘Eu tive um mau pensamento/ E envergonhada coraste/ Se de maldoso, eu o tive/ de maldosa, o adivinhaste’. E ensinava a criar faisões e pavões. Na seção de humor, informava que em Portugal os médicos, depois de indispensável radiografia, operaram um sujeito que passara mal depois da sobremesa e retiraram da barriga dele 3.418 caroços de cereja e 100 de azeitona, concluindo: ‘Ainda bem que a sobremesa não foi de abacate.’

O Sadol divertia os leitores com a trova: ‘Um cão mordeu minha sogra/ E veja o que aconteceu:/ Minha sogra sarou logo/ E o cachorro enlouqueceu’. E no tribunal, depois de o juiz anunciar que o réu vai contar em minúcias o grande roubo na mansão do comendador, inconformado o réu se revolta: ‘O senhor pode até me condenar, mas minha profissão eu não vou ensinar a ninguém.’ E informava a razão da forma dos números de 1 a 9, segundo uma lenda árabe: o 1 tem um ângulo; o 2; dois; o 3, três. E assim por diante. O 8, oito: um quadrado sobre outro.

Todos os almanaques citados neste artigo me foram enviados pela leitora Apparecida Thomaselli, a quem aqui agradeço.

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Escritor, professor da Universidade Estácio de Sá e doutor em Letras pela USP; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e De onde vêm as palavras

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