Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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FEITOS & DESFEITAS >

O fenômeno e o espetáculo, vivo ou morto

Por Maria Aparecida Torneros da Silva em 07/07/2009 na edição 545

Como qualquer mortal que vive a era performática do talentoso Michael Jackson, não fujo ao protótipo de uma identicação com suas mil faces, e me pus, nos últimos dias, a rever trechos do seu trabalho e a identificar um sem número de faces que este menino-homem do show business americano criou, encarnou e exportou para o mundo, provocando admiração e perplexidade.

Terá sido ele branco ou negro (black or white), adulto ou criança, anjo ou demônio, feliz ou infeliz?

Ao me perguntar sobre sua valoração de mercado enquanto artista ou enquanto personagem, chego às raias da insensatez e questiono o quanto valia Michael vivo e a cotação que assume agora, em termos de economia bruta, o Michael morto, aquele que ainda venderá milhões de dólares no mundo da expressão artística e da mídia oportunista e exploradora de talentos como o seu. Seu funeral renderá fortunas em direitos de imagem, sua história será recontada em livros e filmes, sua passagem pelo mundo ainda reverberá shows e covers, por tempos afora.

Terá sido ele consciente ou inconsciente da própria trilha que o fizeram seguir em busca do sucesso e da excentricidade? Talvez ele tenha sido ingênuo ou manipulado, talvez não, pode ser que tenha encontrado o meio termo entre a dor e o prazer, através do êxtase que produziu nos palcos ou, quem sabe, do alívio que os coquetéis de medicamentos lhe ofereceram para amenizar dores físicas ou morais.

Uma identidade de mil faces

Um ser mutante, é possível depreender dele mil faces ao longo do tempo, desde o menino de nove anos de nariz grande, olhar pleno de vivacidade, cantando e dançando para um público ávido de novidades quando a figura dos irmãos Jackson encobria a sede insana comum ao ideal capitalista para que se ganhasse muito dinheiro a partir daqueles meninos-prodígio sem que alguém se importasse com o roubo da sua infância.

Muitos passos adiante, o rei da música pop, o gênio da dança, a moda pós-moderna invadiu a cena e avançou sobre nossos olhos e sentidos, fez escola, induziu uma geração inteira a seguir suas coreografias, apresentou a multifacetada capacidade de interpretar os sentimentos da humanidade. O guri risonho que cantou Ben – com uma emoção que ainda me faz chegar às lágrimas, tal a intensidade do seu canto profundo – é o mesmo que nos deu a lição em We are the world, com mensagem avassaladora, lembrando o quanto todos somos também faces das mesmas moedas de trocas sociais.

Em qualquer instante ele podia ser alvo de notícias porque seu universo se multiplicava em excentricidades e incompreensões; o homem e o artista se confundiam na imagem metamorfoseada do ser humano transformado em ser robótico, rosto desfigurado, maquiagem pesada, magreza e leveza de gestos, fragilidade de feições. Já não exibia mais o nariz forte herança da sua raça, mas sim, um filete tênue de cartilagem trabalhada pelas diversas cirurgias plásticas. Entre suas mil faces, a composição o foi tornando figura andrógina, a feminilidade da aparência lhe conferiu ares de identificação com um sentido caricatural do quanto ele deve ter buscado ser algo além do que a genética o contemplou, algo além do que seu público esperou dele, algo além do que ele conseguiu imaginar para si.

Genialidade transformada em consumo

Criou castelos de sonhos infantis e mergulhou neles, como um herói de história em quadrinhos, sucedendo-se em episódios fantásticos que lhe valeram a construção do mito venerado, dono de uma voz inconfundível, capaz de personificar um pai estranho aos olhos do modelo paterno tradicional.

Vivenciando casamentos aparentemente inusitados, além de envolvimentos confusos com rumores de pedofilia e uma grande interrogação sobre seu relacionamento com o próprio pai – o mesmo que, em termos do testamento do astro, ficou de fora, como a provar que havia mesmo uma mágoa qualquer traduzida agora, após sua morte –, o Michael que move multidões em sua homenagem comanda o espetáculo, justamente na sua derradeira performance.

Prepara-se o funeral, em escala pública, as filas para reverenciar o astro vão se formando por aí, uma infinita mostra de apreço se faz sentir por parte de milhões de fãs, enquanto o culto a Michael Jackson o coloca no mesmo patamar de Elvis Presley, diante da paradoxal vida que transforma a genialidade em consumo de tal modo exacerbado que torna quase impossível identificar algum respeito pelo direito soberano que estas pessoas teriam de não perderem seus rostos diante de mil espelhos.

Corações teleguiados

Qual dos rostos Michael Jackson exibe na urna funerária? Qualquer que tenha sido a escolha dos produtores do seu último espetáculo, certamente que cada um de nós vai identificar aquele com que nos alcançou a alma e nos fez sonhar com suas emoções contraditórias através da sua magistral arte de encantamento de multidões.

Que o menino Michael descanse em paz, que o homem Jaskson suba aos céus dos incompreendidos com a certeza do dever cumprido, pelo quanto foi capaz de suscitar a magia nos corações teleguiados pelo vil metal e pela temporada de shows que ele prometeu e vai cumprir, com as gravações inclusive dos seus últimos ensaios, que venderão milhões de cópias porque seu espetáculo continua.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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