Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

O filão da auto-ajuda

Por Ligia Martins de Almeida em 05/08/2008 na edição 497

Não importa se o problema está na vida sexual, no trabalho, no relacionamento com filhos, vizinhos ou animais domésticos: para tudo existe uma solução. A mania dos livros de auto-ajuda veio para ficar, deu origem a milhares de publicações, ganhou modernidade nos tempos do CD, DVD e internet e rendeu – e vai continuar rendendo – muito dinheiro para quem se dedica ao ramo de enganar os incautos.

O que parecia ser apenas um modismo acabou virando uma indústria, que começou nas revistas femininas e cadernos de serviço dos jornais, nas páginas dedicadas às mulheres. Dietas, manuais de comportamento, dicas de relacionamento sempre fizeram parte da pauta das revistas e suplementos femininos.

Com a desculpa de que as mulheres são mais preocupadas com relacionamentos do que os homens, as revistas femininas sempre reservaram boa parte de seu espaço às matérias mostrando como melhorar o relacionamento (afetivo e sexual), como se sentir mais segura, como melhorar o visual etc. A fórmula acabou sendo adotada por editoras, que descobriram na auto-ajuda um filão interminável e, o melhor, muito rentável.

Sérios riscos

E os jornais, cúmplices e beneficiários do segmento, nunca discutiram o assunto. Por isso é louvável a matéria da Folha de S.Paulo de domingo (3/8), ‘Especialistas apontam riscos da auto-ajuda’:

‘Apesar do freqüente tom de verdade universal, as dicas dadas por livros e programas de auto-ajuda não devem ser seguidas cegamente, advertem especialistas. Primeiro, porque o problema específico do leitor ou do espectador, mesmo tendo semelhanças, pode não ser bem aquele que está sendo usado de exemplo para a lição. Depois, porque há muita bobagem sendo vendida como auto-ajuda. É particularmente arriscado seguir as orientações de livros e sites feitos para quem deseja perder peso sem ter o trabalho de se consultar com um médico ou um nutricionista.’

As dietas são, segundo a matéria da Folha, o grande perigo dos manuais de auto-ajuda:

‘`Não vou dar nome de livro, mas existem por aí coisas absurdas associando perda de peso ao grupo sangüíneo ou às cores dos alimentos. Já li sobre a dieta de Jesus, em que a pessoa só come os alimentos citados na Bíblia, sobre a dieta em que é proibido misturar frango e arroz e sobre uma que manda comer abacaxi o dia inteiro´, enumera o médico Marcio Mancini, presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica). De acordo com Mancini, a pessoa que segue essas dietas corre o sério risco de cortar alimentos que contêm nutrientes essenciais para a saúde: ‘Quem se abstém de comer carne pode ter deficiência de vitamina B12, que é muito importante para o funcionamento cerebral. Quem deixa de consumir o leite e seus derivados pode ter deficiência de cálcio e o organismo acaba retirando o cálcio dos próprios ossos.’

Solução para qualquer problema

Segundo o jornal, ‘sem o impulso de resenhas favoráveis dos cadernos literários, a auto-ajuda vive principalmente do boca-a-boca feito pelos leitores satisfeitos’. Leitores que ajudaram a fazer a fama de um pioneiro no setor, e hoje crítico dos seus seguidores. Segundo Lair Ribeiro (autor de O sucesso não vem por acaso), o segmento ‘ainda está cheio de aventureiros’. E ele dá sua explicação: ‘Para ser engenheiro, precisa ter cursado engenharia. Para ser médico, precisa ter feito medicina. Para escrever livro de auto-ajuda, não precisa nada. Só uma editora’.

A matéria da Folha pode muito bem servir de pauta para uma discussão mais aprofundada do assunto e, principalmente, sobre o papel que a imprensa (em especial as revistas femininas) desempenhou na criação deste novo segmento que incentiva os leitores a procurarem respostas prontas para seus problemas. Como diz a colunista Rosely Saião, citada na mesma matéria, ‘a facilidade das respostas prontas pode deixar as pessoas dependentes da auto-ajuda. Diante de uma dúvida, fica mais fácil recorrer ao manual do que pensar numa solução’.

Se os leitores correm o risco de adquirir o vício nas respostas prontas dos manuais, as revistas e suplementos femininos parecem já se ter viciado nas matérias que prometem solução para todos os problemas e iludem as leitoras prometendo, pelo preço de uma revista, a solução para qualquer problema: do relacionamento com os chefes ao visual perfeito.

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Jornalista

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