Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

FEITOS & DESFEITAS > QUALIDADE & APURAÇÃO

O fordismo e a produção jornalística

Por Glauber Macario em 10/08/2010 na edição 602

Imagine as seguintes situações: Picasso tendo que pintar dois quadros por dia; Saramago escrevendo um livro por semana e Bob Dylan gravando um álbum por mês para atender aos pedidos de sua gananciosa gravadora. Suas obras perderiam o valor e, muito provavelmente, qualidade.

O jornalismo ganhou o status de arte principalmente depois do surgimento do New Journalism. Gay Talese, Norman Mailler, Truman Capote, entre outros, trouxeram ao texto jornalístico uma narrativa que, até então, era característica da literatura de ficção. As reportagens ganharam uma ‘aura’. A produção de um texto era quase artesanal. Revistas dedicavam edições inteiras para publicar uma única reportagem.

Neste início de século 21, o surgimento de sites de notícias cresceu de forma exorbitante. E, aliado a isso, aumentou a sede por informação. Antes, o jornal era lido pela manhã, a revista folheada em intervalos e o telejornal assistido à noite. Agora, o noticiário é consumido 24 horas por dia; seja pelo computador ou por meio de aparelhos portáteis como Blackberry, iPad e iPhone. Aumentando a busca, consequentemente aumenta a produção.

Mas o ‘mal do século’ para o jornalismo é a má qualidade nos textos e na apuração.

Os sites de notícias precisam aprender uma coisa: o leitor não é burro. Ele gosta de qualidade e sabe quando ela está presente ou não. Não é necessário um texto homérico para noticiar um acidente no trânsito ou a má condição do tempo; mas vale um esforço para fazer o leitor ‘sentir’ o fato. A forma como se dá o noticiário deixa o leitor distante daquela notícia, embora ela faça parte de sua realidade.

O ‘consumidor’ e o ‘produto’

Tudo é muito simples, muito básico, muito ‘objetivo’. Algumas ligações feitas, uma olhadinha nas redes sociais de políticos e celebridades, alguns e-mails enviados; e pronto. Está feita uma reportagem. Repórter não sai mais as ruas. Não presencia fatos in loco.

A facilidade de correção dos textos postados em site criou um vício maléfico ao jornalismo: diminuiu o medo de errar. Quando um jornalista recebe uma informação que ainda não foi totalmente apurada, não demora a colocar em seu site ou Twitter. Caso o fato noticiado não se concretize, o texto é corrigido ou apagado. Como se fosse a coisa mais natural do mundo um jornalista dar uma informação e depois dizer que estava errado. Recentemente, a imprensa esportiva noticiou que Muricy Ramalho era o novo técnico da Seleção brasileira de futebol. Estavam errados. Muricy não havia aceitado o convite. Um pedido de desculpas aqui, outro ali e ficou por isso.

A produção do texto jornalístico adotou características industriais. Henry Ford poderia dirigir uma redação, caso estivesse vivo. A produção alienada de conteúdo está acabando com o status de arte do jornalismo. Leitor é chamado de ‘consumidor’ e reportagem de ‘produto’.

Mas como se sabe: para toda regra há exceção; e no caso do jornalismo: há salvação.

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Jornalista, São Paulo, SP

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